MEMÓRIAS DA VIDA NO HOSPITAL - penúltima parte

Tiago, Felipe e Emerson 
no Hospital da Restauração

A principal parte do drama que vivi em meados de 2015 aconteceu no Hospital da Restauração, no Recife. Mas tudo começou um pouco antes, aqui em Garanhuns, na casa modesta em que moro há 21 anos, no Conjunto Francisco Figueira, mais conhecido como Cohab II.

Os sintomas de que o tumor podia estar se desenvolvendo novamente começaram do final de 2014 para o início de 2015.

Primeiro veio uma sonolência muito forte, depois o equilíbrio foi afetado e comecei a andar com um pouco de dificuldade, até que em abril começaram os enjoos e vieram as crises de vômito.

A primeira vez que fui ao banheiro vomitando muito Terezinha chorou bastante. No íntimo ela sabia que o problema de quase nove anos atrás estava de volta.

Mamãe esteve aqui em casa e percebeu meus passos trôpegos. Saiu angustiada, consciente de que eu não estava bem.

Todos preocupados, fomos um domingo ao Hospital Dom Moura e minha irmã Ana Cláudia, determinada, conseguiu um encaminhamento para o Hospital Pelópidas da Silveira, na Região Metropolitana do Recife, que é especializado no tratamento das doenças da cabeça e do coração.

Viajamos de ambulância e chegamos à unidade de saúde já no início da noite, não demorou muito para que fosse atendido, o médico solicitou uma tomografia e o exame, pouco depois, confirmou a suspeita: o tumor tinha voltado e estava com cerca de 4 cm.

Teria de me submeter a uma nova cirurgia, como oito anos e meio atrás e pela vontade do profissional que me atendeu eu seria internado naquele momento, para agilizar os procedimentos para a operação.

Era a vontade do médico, o motorista e um atendente de saúde que viajaram comigo também aconselharam que eu ficasse e iniciasse o tratamento de imediato. Até Terezinha ficou convencida de que eu devia me cuidar logo.

Apesar de todas as pressões e de estar com a cabeça a mil por conta do diagnóstico nada agradável, ponderei, bati pé e resolvi que não ia ficar naquele hospital para o qual não tinha ido planejando fazer uma cirurgia de risco, como era o caso.

Não tinha as necessárias referências do hospital, nem dos médicos que estavam de plantão, não tinha conversado com meus irmãos, mamãe, meus filhos e queria fazer meu tratamento depois de conversar com todos eles, planejando os passos que tinham de ser dados.

Voltei para Garanhuns com minha mulher chorando e Ana Cláudia quando soube da decisão tomada ficou bastante angustiada. Ela agia com boas intenções e certamente só desejava ver seu irmão curado, mas ainda hoje acho que agi corretamente por não ficar no Pelópidas da Silveira.

Nem ao menos sei se a cirurgia teria sido feita logo, pois as filas na unidade de saúde construída na gestão de Eduardo Campos eram imensas, as pessoas se amontoavam pelos corredores ou nas macas e havia até gente fazendo as necessidades no chão. Um quadro triste que também influenciou minha decisão.

Durante a semana seguinte, em Garanhuns, recebi um telefonema do meu irmão mais velho, Eduardo, que é juiz do trabalho em João Pessoa. Ele disse que tinha conseguido um médico para me operar, um profissional com 12 anos de experiência em neurocirurgia, integrante da equipe de Hildo Azevedo no Hospital da Restauração.

Rodrigo Andrade, este o nome do médico, que também trabalhava no Pelópidas Silveira, onde eu tinha recebido meu diagnóstico e quiseram me operar. Eduardo tinha como colega no Tribunal do Trabalho o pai de Rodrigo, então eu estaria nas mãos de uma pessoa que além de uma boa experiência como cirurgião indiretamente tinha laços de amizade com meu irmão.

Tudo que pensei nos momentos de angústia no Pelópidas da Silveira se concretizou: pude conversar com os filhos, os irmãos, mamãe, os amigos e me preparar para a difícil operação. E iria fazê-la com um médico do qual recebera boas referências, além de ser filho de um colega de trabalho de Eduardo.

Fiz uma viagem a Recife para me consultar com Dr. Rodrigo, mas algo deu errado no agendamento feito pela secretária e só na segunda tentativa consegui ser atendido em seu consultório, localizado numa rua próxima ao Hospital Esperança.

Antes desta consulta na capital tinha sido atendido na Ceorga por Dr. Elder Machado, neurologista de Garanhuns que fez todos os testes e desconfiou da volta do tumor antes mesmo da tomografia que confirmou a doença. Estive com ele uma segunda vez, já com exame feito no Pelópidas da Silveira em mãos.

Ele não deixou dúvidas que a solução era uma cirurgia e requisitou uma ressonância magnética que fiz na Imax, em Caruaru, onde fui levado por meu irmão Júnior. A essa altura eu já recebera orientação médica para não mais dirigir.

Assim, é importante salientar, neste relato, que o tempo todo recebi o apoio da minha família: De Eduardo, que pagou a cirurgia de 2006 e arranjou o médico dos procedimentos de 2015, de Aurélio que não só me hospedou em seu apartamento, como se fez presente durante todo o internamento no HR e ainda andou tendo gastos comigo por conta de alguns exames particulares bem caros.

Tiago e Lulinha, meus filhos, viraram meus braços e pernas em Garanhuns, enquanto não chegava o dia de ir para Recife me internar. Vitória, que tinha na época 16 anos (completou 17 em outubro) e mora em Lajedo, com a mãe ficou muito nervosa e apreensiva e sempre que me via procurava saber se eu estava preparado para esta segunda cirurgia de cabeça.

Todas às vezes procurei passar confiança à Vitória, dizia estar tranquilo e que ela podia ficar calma, pois tudo iria dar certo e Deus me ajudaria mais uma vez. Joselita, sua mãe, tanto procurava acalmar a nossa Vivi, como me passar confiança.

Carolina, mas caladinha, também estava apreensiva. Não extravasava muito os sentimentos, mas ainda teve coragem de confessar à mãe, em tom choroso, "que não queria de jeito nenhum ficar órfã do pai". Roberta, que mora em Recife, iria me visitar muitas vezes quando já estava no HR e até ficou como acompanhante um dia e uma noite, permitindo um rápido descanso a Terezinha.

O amor que tenho pela família e a força que recebi dos irmãos, filhos, mãe, esposa, amigos, vizinhos e conhecidos de Garanhuns, Capoeiras e outras cidades me deram coragem para ir em frente e me submeter às mãos dos médicos, consciente de que no final das contas eu estava “nas mãos de Deus”, como escrevi no primeiro texto desses relatos.

Sou grato, portanto, a minha família, a amigos como o compadre Jorge Cordeiro e Luizinho Roldão (este sempre providenciando transporte com o apoio de dona Socorro Régis), que chegaram junto, dando a maior força, em todos os momentos. Ao médico Rodrigo Andrade sou especialmente agradecido, pois além de ter comandado a cirurgia sinto que me proporcionou um tratamento até certo ponto diferenciado no Restauração.

No próximo capítulo dessa história espero chegar ao final. Será o relato da cirurgia, da difícil recuperação na UTI, a volta à enfermaria e o retorno para casa, debilitado fisicamente, abalado financeiramente, mas firme na luta pela vida, com esperança de mais 20 ou 30 anos pela frente,  para ver meus filhos estabilizados, felizes, podendo tocar suas vidas independente de pai e mãe.

Antes de concluir, registro que nesse ano difícil de 2015 fui presenteado duplamente com a chegada de duas netas: Fernanda, filha de Lulinha e Leylane, e Clarice, filha de Tiago e Paula.

São meigas, cheias de charme e vivacidade. Dois tesouros que vieram alegrar minha vida num momento de turbulências e incertezas.


A Deus, que tudo vê e tudo pode, peço por mim e por todos da minha família, pelos amigos e pelos que de um modo de outro estão por perto, nesta cidade privilegiada, de clima quase sempre ameno, localizada entre sete colinas que nos levam para mais perto do criador.

*Na foto Tiago Almeida, que passou uma semana como meu acompanhante no HR,  Felipe foi internado com uma bala na cabeça disparada por um policial em meio a uma multidão, num bairro do Recife (O PM foi preso) e Emerson levou uma queda de moto, teve um AVC e perdeu a visão do olho direito.

2 comentários:

  1. Roberto Almeida, que graça recebida, poder está contando uma história, FANTASTICA!

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  2. Mim ajuda a encontrar minha familia de Garanhuns por favor

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