sábado, 30 de janeiro de 2016

ESTÃO OS NOSSOS GESTORES ACIMA DA LEI?


Por Michel Zaidan Filho*

Se tivéssemos uma imprensa mais preocupada com o interesse público do que com as  imensas verbas  publicitárias da propaganda oficial, talvez não  tivéssemos de aturar, no meio do caos urbano da tempestade, da falta de luz, dos raios e da falta de ônibus, comentários de cidadãos comuns sobre a inutilidade de protestar contra o descaso das autoridades públicas com a   lamentável situação da cidade. Ao invés da cobrança  e da responsabilização penal pelo descalabro sofrido pela população recifense, em meio ao vendaval que tomou conta da cidade, as TVs mostraram a imagem do Prefeito, confortavelmente sentado, pilotando o sistema de monitoração das câmeras da Prefeitura do Recife. 

Como no caso da epidemia (hoje internacional) da  microcefalia, os principais responsáveis pela cidade (e seus problemas) viram heróis de guerra (ao mosquito) e a população, a principal responsável pela caça ao mosquito.

É possível mesmo achar, como faz o imaginário popular, que nossas autoridades estão blindadas contra toda e qualquer forma de reivindicação  e que a resposta é a polícia militar e a polícia civil?- Ainda compartilham do infame pensamento  de que a questão urbana (e social) é um mero caso de agitadores comunistas, que atribuem um cunho político a cada movimento da sociedade civil, cobrando, exigindo providencias em relação ao abandono em que se encontra a cidade?

Da ótica conspiratória do aparelho policial, tudo que não for a favor ou em promoção da imagem pública dos nossos gestores - em época de reeleição, está proibido. Com exceção, é claro, do futebol e do carnaval. O futebol, identificado com a obra - ora sob suspeita - monumental e inútil da Arena Pernambuco.

E o carnaval, com a troça que homenageará os 100 anos de Miguel Arraes - além dos hospitais, avenidas, viadutos, pontes que ganharam o seu nome. Pelo visto, em Pernambuco, vence na vida quem diz "sim" ao nepotismo, ao patrimonialismo, à bajulação e ao puxa-saquismo "desinteressado". O resto é considerado atividade de cunho político-partidário e ilegal.

Afinal de contas, é ou não é um crime de responsabilidade a falta de políticas públicas em relação à saúde pública, à falta de segurança nos ônibus e a superlotação carcerária e suas sucessivas revoltas, o transporte público de qualidade e barato, o funcionamento dos hospitais públicos, o fornecimento da energia elétrica? - É dos coitados dos cidadãos e cidadãs, procurando se amparar da chuva, dos raios, a ausência de ônibus e da escuridão? - Ele tiveram a má sorte de escolherem como prefeitos e governadores, gestores que se utilizam dos cargos ora para se promoverem - com o inestimável da mídia amiga - ora  para se esquivarem do reconhecimento das legítimas manifestações críticas de seus concidadãos e concidadãs?

Daqui há pouco, vamos chegar a conclusão que a famosa "inversão das prioridades" da administração pública consiste em eleger como ações prioritárias: a propaganda, a repressão policial, o futebol (e os empreiteiros amigos), o carnaval oficioso, o pagamento das obrigações financeiras das PPPs e a família?

O resto é para pagar impostos e contribuições, obedecer e dizer sim e reeleger esses virtuosos gestores. Em bom juridiquês: é o fenômeno  da sub-integração jurídica, de subcidadãos, cidadãos de segunda categoria, cidadãos sem direitos, só com deveres.

Uma sugestão, em tempo de folia, cadê a troça ou a alegoria que mostra nossas bravas autoridades na luta encarniçada contra os mosquitos? - Talvez, como cinema americano, aquilo que não se consegue vencer no  plano da realidade, se consiga no plano da fantasia. E, aliás, o que é a propaganda governista, senão uma fantasia - cara - e sem graça?

*Michel Zaidan é natural de Garanhuns, professor da Universidade Federal de Pernambuco, escritor com vários livros publicados e cientista político. Colabora regularmente com este blog.

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