O DIA EM QUE ROBERTO FEZ CAETANO VELOSO CHORAR NO EXÍLIO


Caetano Veloso é um artista politizado, leitor de poesia e admirador de renomados cineastas, como Federico Fellini, a quem dedicou um disco.

Foi o principal responsável pelo movimento tropicalista na música nacional, que produziu canções muito mais elaboradas do que as da Jovem Guarda de Roberto, Erasmo e Wanderléa. 

Quando o Tropicalismo explodiu, com apoio do público universitário, a Jovem Guarda já estava em plena decadência.

Roberto Carlos é omisso politicamente, limitado intelectualmente, embora seja impossível negar que tenha ótimas composições (sozinho ou com Erasmo). Sempre foi também um bom cantor e intérprete. 

Nas poucas vezes que abriu a boca para falar de política, RC fez besteira, como quando elogiou Sérgio Moro num show por uma coisa que o ex-juiz não era. O tempo mostraria que o Rei estava enganado, o paladino da luta contra a corrupção não passava de uma farsa, como o fora Fernando Collor de Melo, o caçador de marajás do final dos ano 80.

Por sinal, tanto Collor quanto Moro tiveram uma boa ajuda da TV Globo para enganar durante algum tempo milhões de brasileiros.

Mas vamos direto ao ponto: Caetano Veloso e Roberto Carlos, tão diferentes como pessoas e artistas, têm uma admiração mútua,  um fez música para o outro e gravaram um álbum juntos, por sinal muito bom.

Quem fez  Caetano prestar atenção em Roberto foi sua irmã, a cantora Maria Bethânia.

No começo o genial baiano não dava muita importância à turma do iê iê iê, opinião que mudou com o tempo. O compositor de Sampa, Tigresa e Vaca Profana terminou por aprovar inteiramente o chamado Rei da Juventude, título dado ao cantor na década de 60.

Mas o que criou o elo mais forte entre os dois artistas, foi, possivelmente a visita que Roberto Carlos fez a Caetano Veloso em Londres, em 1969, quando o baiano estava exilado na Inglaterra por conta da ditadura militar no Brasil.

Paulo César Araújo, em sua "enciclopédia" sobre música e cultura em geral, lançada este ano, narra de maneira magistral como foi esse encontro no exterior.

Segundo o escritor, estiveram presentes no apartamento londrino Roberto, Caetano, Gilberto Gil, as esposas dos três na época, Wanderléa  e uma estudante de filosofia chamada Rosa Maria.

Ela que atendeu o primeiro telefonema do cantor da Jovem Guarda, comunicando que queria visitar Caetano,  e desligou, pensando ser um trote.

Durante a conversa, o artista de Santo Amaro perguntou a Roberto se ele tinha músicas novas. Ele respondeu que sim, pegou o violão e cantor um trecho de "As Curvas da Estradas de Santos", que nem estava terminada ainda.

No livro Paulo César conta que Caetano, sofrendo as dores do exílio, chorou copiosamente. Wanderléa acredita que os versos que mais sensibilizaram o baiano foram: "Preciso de ajuda, por favor me acuda, eu vivo muito só".

A canção foi incluída no álbum de Roberto daquele ano, é um dos destaques do disco, tendo sido regravada no CD acústico do artista, nos anos 2000. Cantoras como Simone e Elis Regina também regravaram "As Curvas da Estrada de Santos.

Só para concluir: Caetano também cantou, ao receber a visita ilustre que tanto o emocionou. Mostrou a Roberto uma música que estava compondo na capital inglesa, "London London", uma de suas mais lindas criações, gravada pelo próprio e também por Gal Costa.

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