Por Roberto Almeida
Quando eu era mais jovem e tinha a voz por inteiro, editava e apresentava o Jornal da Sete, primeiro noticiário de rádio FM de Garanhuns, lançado por nós na Sete Colinas.
Uma vez convidamos o então prefeito Silvino Duarte para uma entrevista e numa conversa informal, fora do ar, o político e médico, embora seja uma pessoa extremamente inteligente, disse uma grande bobagem.
Como tinha conhecimento que nos jornais radiofônicos e impressos da época a cultura era uma de nossas bandeiras, o ex-prefeito saiu-se com esta: "Você se preocupa muito com cultura, mas Garanhuns não tem vocação nesse sentido, isso aí é mais para Belo Jardim e Caruaru".
Dr. Silvino deve ter se arrependido amargamente da infeliz consideração e acreditamos que hoje tenha outro ponto de vista sobre o assunto, até porque sua revelação se tornou pública e ele recebeu críticas dos setores bem informados da sociedade local.
Como há mais de duas décadas atrás, continuamos acreditando na cultura como valor universal e consideramos que sem o investimento em educação, artes, livros, teatro, pintura, escultura, poesia, manifestações folclóricas e populares, músicas, não se rompe a barreira da barbárie no rumo à civilização.
Cultura num sentido amplo, é claro. Não se pode reduzir o tema a um nome ou uma área, defender a cultura como privilégio de uma casta, uma cidade ou um grupo de iluminados.
No Brasil, historicamente a cultura tem sido relegada a segundo plano. Tivemos pequenos avanços com o presidente Lula e o ministro Gilberto Gil e os investimentos no setor, embora ainda insuficientes, pela primeira vez ficaram em torno de 1% do PIB.
Em Garanhuns, se cria secretaria, se descria secretaria, se indicam nomes para comandar a área que nem sempre têm visão ampla do setor e na verdade não temos avançado muito neste campo. Talvez tenhamos até retrocedido.
O governo anterior no início da gestão nomeou uma moça arrogante que morava na capital, sem conhecimento nenhum de Garanhuns e ela terminou sendo um fiasco, tendo que pegar as malas e voltar à Veneza Brasileira, felizmente nos livrando do seu falso saber e autossuficiência.
Depois a secretaria foi extinta e esqueceram completamente da área, até o Centro Cultural foi praticamente abandonado.
Com o novo governo municipal, renasce a esperança de que a cultura possa ser olhada da maneira que merece, até porque Garanhuns tem grande potencial nesse setor.
Estão à frente da cultura duas pessoas ligadas ao meio artístico, aos produtores: Givaldo Calado é uma pessoa que lê, escreve, assiste bons filmes e ouve boa música. É inteligente e preparado, gosta da cidade, se for pragmático e trabalhar dentro da realidade poderá fazer muito por Garanhuns.
Socorrinho Gueiros, a diretora de cultura, é artista plástica das boas, conhece bem os artistas e produtores culturais do município e certamente vontade não lhe falta de impulsionar o setor na Suíça Pernambucana.
Os dois, os demais secretários, o prefeito, o vice-prefeito, a imprensa, os que produzem cultura, têm de se debruçar sobre o tema, estudar, buscar informações fugindo ao debate estreito, de modo a ampliar o mais possível a discussão, para que surjam projetos, ideias, que alarguem os horizontes culturais da cidade.
Garanhuns tem um histórico cultural importante que precisa ser levado em conta.
Temos lá atrás um nome como Luís Jardim, natural da terrinha, que foi um dos maiores escritores brasileiros do século XX, além de excelente ilustrador e desenhista.
Luzinette Laporte, natural de Catende, na zona da mata, viveu a maior parte de sua vida em Garanhuns e deu enorme contribuição a esta cidade, como professora, autora de livros deliciosos e através de crônicas e artigos publicados no jornais locais.
Foi em Garanhuns que nasceu Dominguinhos, um dos maiores músicos do Brasil, além de bom cantor e compositor, que gravou seus próprios discos e acompanhou artistas do porte de Gilberto Gil, Renato Teixeira, Roberto Carlos, Fagner, Zé Ramalho, Caetano Veloso, Chico Buarque e Paula Fernandes.
Dominguinhos, com sua sanfona, cantando o relógio de flores, que ele chamou de "relógio solar", deixou um legado cultural importante para Garanhuns que não pode de maneira nenhuma ser ignorado ou esquecido.
E cabe, aqui, ao secretário, à diretora, ao prefeito, aos jornalistas e artistas locais lembrar do músico não apenas pela praça que leva seu nome ou pelo mausoléu do artista no Cemitério São Miguel, mas sobretudo graças a sua obra, que é vasta e teve muitos momentos memoráveis.
Dominguinhos, leitores e leitoras, é um patrimônio cultural de Garanhuns, de Pernambuco e do Brasil. Poucos artistas foram tão completos e deram uma contribuição igual às artes em geral.
Houve um tempo em que Garanhuns esteve nas manchetes policiais. Na cidade em que ocorreu a hecatombe e um padre matou um bispo, durante um tempo havia uma espécie de "sindicato do crime".
A violência assustava e denegria a imagem da cidade. Na capital e outras cidades até se ironizava com a Suíça Pernambucana. "Cidade do crime maravilhoso", zombavam, fazendo trocadilho em cima de uma das coisas maravilhas da cidade, o clima ameno.
O Festival de Inverno de Garanhuns, que nasceu no começo dos anos 90, com a visão futurista do então prefeito Ivo Amaral, foi um marco e deu nova feição a terra de Simoa Gomes.
A partir do FIG a cidade começou a receber todos os anos os melhores cantores do país, acompanhou a encenação de grandes espetáculos teatrais, sediou mostras de artes plásticas e cinema, promoveu lançamentos de livros e oficinas pedagógicas, além de abrir espaço para a chamada cultura popular e suas diversas manifestações.
Foi criado um verdadeiro "caldo cultural" que tornou Garanhuns uma cidade diferenciada no interior de Pernambuco e do Brasil.
E na cidade de Luís Jardim, Dominguinhos e Toinho Alves (músico do importante grupo Quinteto Violado), foram despontando outros nomes de pessoas capazes de impulsionar a cultura local.
Carlos Janduy deu notável contribuição ao teatro, Nivaldo Tenório foi capaz de produzir uma literatura que chamou a atenção dos acadêmicos da capital, Paulo Gervais começou a produzir poesia de qualidade, Socorrinho e outros artistas plásticos se revelaram talentosos, Gonzaga de Garanhuns encantou com seu reisado e a literatura de cordel, tanto fez que se tornou Patrimônio Imaterial de Pernambucano.
Cultura é esse somatório, é tudo isso que citamos e muito mais: É Ruber van der Linden, o historiador Alfredo Leite, é tudo que nos deixaram figuras como Humberto de Moraes, Aguinaldo Barros, Solon Gomes, Ulisses Pinto, Aluízio Alves, Ivo de Souza, José Inácio, Celso Galvão, Luís Souto Dourado, Monsenhor Adelmar, Amílcar Valença, Uzae Canuto, Mário Matos, Maurilinho Matos, Manoel e Evando Lustosa.
São muitos nomes, não dá para citar todos. Mas cada um deles contribuiu com esse "caldo cultural" citado lá atrás.
E temos hoje novos nomes participando do "fazer cultural" de Garanhuns: as cantoras Andrea Amorim e Kiara Ribeiro, Ronaldo César, Gláucio Costa, Mourinha do Forró, Zezinho de Garanhuns, o escritor Mário Rodrigues, poeta João Marques, Jonas Lira, Gerson Lima, Ana Jaíra, os professores Cláudio Gonçalves e Antônio Vilela, Paulo Ferreira e sua ex-esposa Lilian.
Os colégios de Garanhuns, as faculdades, são fundamentais na formação do processo cultural da cidade. O Diocesano, o Quinze de Novembro, o Santa Sofia, o Monsenhor Adelmar, o estadual Jerônimo Gueiros, o Ceru, o Simoa Gomes.
O Santa Joana D´Arc, colégio de bairro, tem desempenhado um papel importante com seu "Momento Cultural".
E tem o Sesc, que ao longo dos anos tem funcionado como uma verdadeira fábrica de cultura, principalmente quando a professora Graça Carneiro esteve à frente daquele órgão.
A GRE, as emissoras de rádio, os jornais impressos do passado, os sites atuais, intelectuais do peso de Flávio Lyra e Manoel Neto Teixeira, que mesmo não morando mais na Suíça Pernambucana têm sempre um olhar para a província.
As comunidades quilombolas, as igrejas, a banda de pífanos do Castainho, a obras de ótimos artesãos que já exportaram seus produtos para todo o Brasil e parte do exterior.
Tudo isso faz parte do acervo cultural de Garanhuns. E ainda tem muito mais. Não dá para esgotar o assunto num artigo, por mais longo que seja.
O prefeito, o secretário, a diretora de cultura, a imprensa, os próprios produtores de cultura precisam levar tudo isso em conta.
Não se pode resumir o potencial cultural de Garanhuns a Banda Manoel Rabelo (que também deve ser valorizada) ou a interesses de grupos, ou fazer com que o setor seja instrumentado politicamente.
O que é cultura, afinal? É ler Machado de Assis, é conhecer a filmografia de Bergman, é se deliciar com a pintura de Portinari, é amar Fernando Pessoa ou Manoel Bandeira, é ouvir de Vander Lee a Beethoven, é Ariano Suassuna, Luiz Gonzaga, é saber o mínimo da gramática, apreciar o talento de Fernanda Montenegro, é ter um olhar sensível sobre o mundo, a vida, repudiar a truculência, o autoritarismo, os falsos sabres, em busca do verdadeiro conhecimento, é se posicionar pela ciência, pela arte, pela civilização.
*Roberto Almeida é jornalista e escritor. Tem cinco livros publicados e outro no prelo. Tenta também contribuir com a cultura de Garanhuns.


Meu primeiro prêmio literário ( ganhei só dois ) foi num concurso de contos promovido pelo Grupo Van Der Linden, em 1979. Mesmo morando no Recife e sendo de Arcoverde, tomei conhecimento do concurso, inscrevi-me e fui abençoado com o primeio lugar. Amo essa cidade! Gostaria muito de ir morar aí, mas circunstâncias alheias aos meus designos me impediram. Ignorar Cultura é ignorar o conhecimento. Por isso essa besta fera está no poder. VIVA Garanhuns!
ResponderExcluirQue texto maravilhoso
ResponderExcluirViva a arte!
Meu Caro Conterrâneo Municipal
ResponderExcluirROBERTO ALMEIDA
Li e reli seu oportuno "Manifesto de Garanhuns" e tenho algo a acrescentar nos temas tratados. Pela foto vejo que você não é mais velho que eu. Pode até sermos colegas nos anos 1958-1964. Mas, por favor aguarde mais um pouco, que eu mando os acréscimos que tenho nas sua justas -verdadeiras, factíveis, oportunas,necessárias- propostas.
Parabéns pela coragem em expor sua opinião e contribuição à cidade de modo tão claro e receba, desde já, meu apoio e disposição em ajudar nessa empreitada.
Enquanto isso, dê uma olhada no link
https://luizberto.com/category/correspondencia-recebida/page/8/
Peço-lhe informar sobre o recebimento deste bilhete e seu e-mail para um contato direto.
José Domingos de Brito
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