PEQUENA JÉSSICA - Um conto de Roberto Almeida


Minha mãe estava doente. Ficava o tempo todo na cama, sem alegria, desanimada. Ela precisava de comida e remédios, mas o dinheiro era pouco e não podia trabalhar. Então, eu ia à luta, saia de casa cedo, atravessava a BR, cruzava na frente do cemitério, descia pela Boa Vista e logo chegava à cidade. 

Os carros de passeio, as lojas bonitas do centro, as vitrines, não me causavam o mesmo interesse de antes. Baixava os olhos o tempo todo e olhava o chão, pois nele acharia as latinhas e os ossos que ajudariam no sustento da minha família.

Eu trabalhava segurando um saco, desses de náilon, e nele ia juntando os objetos que recolhia. Às vezes ficava pesado, porém eu nunca desistia, sempre terminava minhas tarefas e depois ia vender as mercadorias. Dava para ganhar uns 300 reais por mês; com esse dinheiro ajudava a comprar comida e os remédios de mamãe.

Éramos catorze, na minha casa, contando meus irmãos, vó Vicência, tia Fátima e pai João. Cada um se virava como podia,  uns lavavam roupas, outros tomavam conta dos carros na avenida... Quando não tinha jeito a gente pedia. Mesmo assim sempre faltava alguma coisa: o pão, o leite ou a carne; às vezes até os comprimidos de mamãe.

Brinquedo eu não tinha, nem mesmo uma boneca de pano. Também, não sobraria tempo para brincar. Acordava cedo, o dia todo na rua, voltando sempre à noite, cansada. Dormia muitas vezes sem comer nada, tia reclamando. Você está tão magrinha. Daqui a pouco está igual a sua mãe.

A gente se deitava pelo chão, usava colchões velhos para completar as camas insuficientes, juntando um com o outro, três ou quatro dividindo o mesmo cobertor. Nos meses de junho, julho e agosto no Mundaú fazia frio demais, chega o corpo tremia. O vento entrava pelas telhas quebradas e atrapalhava nosso sono.

Lá na minha casa só tinha uma televisão pequena, era a diversão do domingo, quando todos ficavam na sala, assistindo o programa do Gugu. Achava ele tão bonito, com aqueles cabelos loiros.

Eu sou branca também, meus cabelos são claros, cacheados, quase ruins, como disse uma vez pai João. Não foi por mal, gostava muito de mim, mesmo quando tomava uma cachacinha -  e fazia isso quase sempre. 

Naquele mês foi anunciada uma festa na cidade. No rádio não se falava em outra coisa e ficavam tocando umas músicas bem animadas. Anunciavam um tal de trio elétrico, bandas, blocos; devia ser coisa boa, essa trelecada toda.

Sabia que a festa atrairia muita gente, ia sobrar latinha à vontade pelas ruas e avenidas, era uma oportunidade boa de ganhar mais dinheiro. Os outros ficavam alegres porque iam dançar, enquanto eu sorria pensando ma mesa completa, com pão, sopa, café e até um pedacinho de queijo de fazenda. 

Pai João foi trabalhar num bloco, fazendo segurança, cuidando das mocinhas bonitas, protegidas todas pelos homens de colete preto e pelas cordas. Eu o seguia de perto, catando latinha, colocando tudo no saco, sem prestar atenção na barulheira do caminhão, nos cantores lá em cima. Ele dava duro nas cordas, mas não deixava de passar um rabo de olho em mim. 

Aí o movimento parou de repente. As vozes calaram, danças foram suspensas, nem percebi nada do que estava acontecendo. Sei apenas que uma mulher bonita, parecendo uma princesa, com as pernas mais lindas que já vi (e estavam bem à mostra), apareceu na minha frente, sorrindo ao balanço dos cabelos soprados pelo vento da noite.

Perguntava pelo meu pai, minha mãe, se tinha algum responsável por mim. Cadê o conselho tutelar, as autoridades? Gravei na cabeça o que ela falou, como se tivesse braba, sem compreender direito a confusão (sim, parecia uma confusão).

Depois a mulher bonita perguntou se eu sabia quem ela era. E respondi no ato que não, afinal nunca a tinha visto na vida. Ora, no bairro em que moro não tem mulheres bacanas assim. 

Eva, esse o nome da princesa. Sorriu novamente e, junto com os outros que a acompanhavam - todos calados - levou-me para um restaurante da avenida. Jamais havia entrado num lugar daquele: lugar amplo, claro, limpo, colorido. Até as mesas e cadeiras bem diferentes dos móveis lá de casa e das casas da vizinhança. 

Comi com gosto, quieta, esquecendo que pai João tinha ficado para trás e os demais familiares estavam longe, do outro lado da cidade.

Acho que avisaram pai João, porque de repente ele apareceu, sentou também numa das cadeiras de madeira boa do restaurante, comeu pertinho de mim e daquela artista chamada Eva não sei de quê, esqueci o resto do nome.

A partir desse dia a vida da nossa família virou um reboliço, pessoas desconhecida nos visitando, conversa entre os estranhos e minha tia, uma moça da televisão fazendo um monte de perguntas.

Nós vamos para São Paulo, Jéssica. Você vai aparecer no programa do Gugu, vai conhecer ele. Avisou  um dia tia Fátima, feliz, como meus irmãos e mamãe. Eu sem acreditar, juro. 

Ela voltou ao assunto e foi me convencendo. Eu séria, sem saber quando era a tal viagem e se podia parar de catar latinhas. Só não fui pra rua, fazer meu trabalho, porque não deixaram. Ora, mamãe estava sempre na cama, alguém precisava se preocupar com ela.

Chegou o dia da viagem e primeiro saímos de carro. Chegamos no Recife, cidade quente, carros e ônibus por todo lado, prédios altos, lá nas nuvens. Nos enfiaram num avião. Nem tive medo, achei bonito quando subiu, deu um friozinho na barriga, como na roda gigante. E as casas foram ficando pequenas, do tamanho de bola de gude. 

Quando chegamos em São Paulo eu, pai João e tia Fátima ficamos num hotel, de nome Oto, o apartamento no décimo segundo andar, a gente subia de elevador. Quarto limpo, com camas macias, televisão colorida e uma mini geladeira, com suco, guaraná e água de coco.

Tinha até piscina, comida gostosa e homens e mulheres de farda, perguntando o tempo todo: "Quer mais alguma coisa? Está faltando alguma coisa? Tudo bem, Jéssica"? É, sabiam até meu nome.

A camareira revelou sua origem nordestina. Chorou lembrando de São José, cidade em que tinha nascido. Perguntou por Garanhuns, se lá ainda fazia muito frio no inverno. Sei que nunca mais volto em Pernambuco, lamentou, triste. 

Simão, o porteiro, paulista que nem conhecia o Nordeste, foi simpático. Perguntou se a terra da gente era seca, mesmo. Quando falei que no meio do ano chovia por demais e fazia frio ele não acreditou, pensou ser imaginação de criança. E nem pai João e tia Fátima conseguiram convencê-lo do contrário. 

Ficamos no hotel uma semana inteira, comendo do bom e do melhor, fazendo amizades, esperando o dia de participar do programa na televisão. Parecia que nós estávamos no céu, até dinheiro do pessoal da TV os meus parentes recebiam. Pai João comprou umas roupas que até ficou bonito, como disse a ele tia Fátima. 

Ainda voltamos a Garanhuns uma vez, depois São Paulo de novo, nada da entrevista no Gugu sair. Quando viajei de avião de  novo parecia estar acostumada, nem senti o friozinho na barriga, tia Fátima e pai João ostentando a mesma desinibição. 

Na última viagem, o Alberto do bloco estava conosco, ficou no mesmo hotel e tudo, parece ter brigado para que enfim a participação no programa do SBT acontecesse. 

O fato é que no terceiro domingo do mês fomos levados ao estúdio, um carrão nos carregou pelas ruas de São Paulo, tudo cinza em redor, tão diferente do Mundaú e da Boa Vista, deu até saudade das ladeiras.

Olha que me levaram para uma  sala chique, cheia  de espelhos e produtos de maquiagem, chamavam o lugar de camarim.  Mulheres cuidaram de me arrumar, pentearam meus cabelos, ajeitaram meus óculos, botaram perfume, mandaram me olhar num espelho à minha frente. Não tá bonita, Jéssica?

Meu nome estava escrito na porta do camarim (logo me acostumei com o nome), conforme notou tia Fátima.  "Pequena Jéssica". Era assim que estava no papel colorido de azul, explicou. 

A cantora Eva eu não conhecia, nem mesmo da televisão, fui sincero com ela. Mas o Gugu via todos os domingos, conforme já contei pra vocês. E agora lá estava eu na sua frente, vendo de perto, admirando o sorriso aberto e os cabelos claros como ouro.

Foi como num sonho, fiquei atordoada, vendo passar na minha frente as imagens gravadas. Perguntavam-se coisas e quase nada eu conseguia entender. Anunciaram prêmios: casa, dinheiro, cesta básica durante um ano, TV (colorida) e geladeira novas. Fiquei feliz mesmo foi quando me deram uma bicicleta, novinha, brilhando, prateada.

- Você sorriu, Jéssica!- disse Gugu, satisfeito com a reação no meu rosto. 

Eu não podia imaginar que nesse dia quase todo mundo em Garanhuns estava assistindo televisão e acompanhando minha história. No Mundaú e na Boa Vista e também no Aloísio Pinto, em Heliópolis, eu soube depois que até no Indiano, na Vila do Quartel e em Lacerdópolis. 

E em Lajedo, Angelim, São João,  Caetés, Capoeiras, São Bento do Una, cidades das quais Pai João falava sempre, eu ficava imaginando como eram.

- Em tudo quanto quanto é lugar viram você. No Brasil inteiro, inté no estrangeiro - garantiu Vó Vicência, quando a gente já tinha voltado. 

Agora estou aqui, longe de São Paulo, parece que nunca fui lá. O pessoal da televisão vai comprar uma casa maior para nossa família. Os móveis chegarão logo depois, junto com a bicicleta e a TV colorida. 

Desde que aconteceu tudo isso mamãe melhorou muito, talvez porque está tudo mais calmo, sem tanto aperreio. Ela  a comer melhor, nunca mais faltou pão e carne lá em casa. Ela voltou a andar como antes, dispensou os remédios, é como se tivesse acontecido um milagre,  desses que o padre fala na igreja, aos domingos. 

Estou feliz. 

Por causa da bicicleta, porque agora tem comida, sempre, porque vou ter uma casa nova, porque mamãe melhorou. 

Acho que não vou precisar mais catar latinhas. 

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