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quinta-feira, 30 de maio de 2019

RETROSPECTIVA DE UM HERÓI CHAMADO DJANGO



Por Altamir Pinheiro

A saudade nos traz de volta ou  faz lembrar que, há 50 anos,  nossos extintos cinemas de rua  de cidadezinhas do interior  tinham como atração na década de 1970 tantos cartazes divulgando um bang bang à italiana. Através do cinéfilo Paulo Telles  vamos viajar no tempo, ou melhor, iremos fazer    ON TOUR nesse personagem intitulado DJANGO tão bem interpretado tanto pelo italiano Franco Nero quanto  o brasileiro Anthony Steffen. Recordaremos  alguns filmes antigos protagonizados por este herói que  encantou os amantes do  faroeste à italiana nas salas de projeções do mundo inteiro. DJANGO, de 1966, dirigido por Sergio Corbucci  foi o filme que deu a Franco Nero(77 anos) o reconhecimento mundial como um dos maiores ícones do gênero western europeu.

Em 1965 SERGIO CORBUCCI era apenas mais um dos tantos cineastas italianos que passaram a explorar o filão do faroeste na Itália, à sombra do outro SERGIO, o LEONE, este prontamente reconhecido como renovador do gênero western. Para seu terceiro faroeste, rodado entre novembro de 1965 e janeiro de 1966, Corbucci criou um personagem que nem o mais otimista dos cineastas poderia imaginar que se tornaria a mais emblemática representação daqueles filmes que logo viriam a ser chamados de western spaghetti. Nos confirma o cinéfilo Darci Fonseca que, a   escolha do nome desse personagem foi um desses momentos de rara felicidade, com Corbucci tendo a ideia de chamá-lo de “DJANGO”, inspirado por Django Reinhardt, célebre guitarrista cigano.

O primeiro filme desta marca registrada se deu no ano de 1965/66. Django (Franco Nero) é um homem que arrasta consigo um caixão, onde dentro está escondida uma poderosa metralhadora. Na fronteira do México, ele está disposto a vingar a morte da sua esposa, e parte para uma luta sangrenta contra duas gangues rivais que agem na região, isso depois de fazer um acordo com o bandido local Hugo Rodriguez. Só que desconfiado das intenções de Rodriguez, ele resolve se juntar a Maria uma mulher que havia salvo, e os dois serão perseguidos pelo mexicano.

Em 1969 entra em cena um brasileiro com o filme DJANGO, O BASTARDO. Durante a Guerra Civil Americana, três oficiais do exército confederado, líderes de um regimento, se vendem aos rivais ianques, matam os sentinelas e permitem que a tropa inimiga massacre todo seu regimento. Porém Django (o ítalo-brasileiro Anthony Steffen, nascido Antonio de Teffé em 1929 no consulado brasileiro na Itália, e falecido em 2004, aos 74 anos de idade, no Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro), que é um dos soldados, não morre. E anos depois, como que surgido do inferno, ele começa sua caçada de sangue aos homens que o deixaram à beira da morte. Será que ele é um fantasma ou simplesmente um homem com sede de vingança? Ele é Django, que voltou do inferno, e agora ninguém vai fugir de seu gatilho. Este bom filme é dirigido por Sergio Garrone.

Há 6 anos, em  2013,  estreou em todos os cinemas brasileiros o novo filme de Quentin Tarantino, DJANGO LIVRE (Django Unchained). O filme nem parece ser um faroeste, um clássico estrelado por Franco Nero em 1966 (que por sinal faz uma participação pequena no novo filme do cineasta Tarantino), mas de um certo modo faz uma releitura deste personagem que foi explorado em outros westerns spaghetti entre 1966 e 1972, com um retorno em 1987(com Django: a Volta do Vingador). Na verdade, o excelente filme teve como protagonista o ator negro JAMIE FOXX. O ator  interpreta o personagem título, mas NÃO foi a primeira opção do cineasta, tendo sido escolhido após a recusa de outro negro  WILL SMITH em ficar com o papel.

Em sua sinopse, Django (Jamie Foxx) é um escravo liberto cujo passado brutal com seus antigos proprietários leva-o ao encontro do caçador de recompensas alemão Dr. King Schultz (Christoph Waltz). Ao realizar seu plano, Schultz liberta o escravo Django, embora os dois homens decidam continuar juntos. Dotado de um notável talento de caçador, Django tem como objetivo principal encontrar e resgatar Broomhilda (Kerry Washington), a negrinha, sua esposa, que ele não vê desde que ela foi adquirida por outros proprietários, há muitos anos. Um personagem importante do filme DJANGO LIVRE  é Calvin Candie muito bem  interpretado por Leonardo DiCaprio que tem uma desenvoltura espetacular. Em que pese ser um filme altamente violento(muito sangue), vale a pena assisti-lo. Recomendo-o!!!

Pegando uma canja dada pelo cinéfilo Bruno Carmelo, podemos concordar com ele quando afirma categoricamente que, Django Livre é um filme excessivo: existem tramas demais, personagens demais, reviravoltas demais; a duração é longa, o sangue jorra por todos os lados, as referências se multiplicam sem fim. Mais do que nunca, o grande cineasta QUENTIN TARANTINO está consciente do caráter épico desta história, do teor sensível do tema e de suas imensas habilidades na direção. Este novo filme é uma prova de que as ambições do diretor estão cada vez maiores – e de que ele ainda consegue corresponder às altas expectativas que constrói, inclusive, no final do filme o diretor Tarantino aparece em algumas cenas quando é detonado com uma carga de dinamite por Django.

A primeira hora do filme é um verdadeiro show de Christoph Waltz. Através deste personagem, o meio dentista, meio caçador de recompensas King Schultz, a história estabelece seu contexto. Aprendemos que estamos em um faroeste, pouco antes da Guerra Civil, no sul dos Estados Unidos. É um grande prazer assistir a Waltz atuando mais uma vez no papel de um homem inteligente e sarcástico, algo que ele domina perfeitamente bem (depois de Bastardos Inglórios e Deus da Carnificina). A paródia que ele faz das tradicionais cenas do saloon, e das cenas de duelos com armas nas ruas da cidade, é hilária.

Este filme é um deleite visual, com fotografia, cenário e atuações impecáveis. Leonardo DiCaprio apresenta um lado que nunca tinha mostrado antes no cinema. Ele reflete sobre o passado - com o tema da escravidão e o gênero fora de moda do faroeste -, mas consegue levá-lo ao presente; ele consegue ser ao mesmo tempo crítico, reflexivo, engraçado, perverso. O próprio momento em que Django é obrigado a atuar no papel de um homem racista, explorando os negros, é de uma força única. O diretor Tarantino tem em mãos um dos melhores roteiros que já escreveu, uma amostra de que o cinema de qualidade pode unir o público e a crítica, sendo tão moderno quanto clássico. Django Livre é, assim, um espetáculo imenso, um show de imagens e sons, uma aula de cinema, e um filme completo, assista-o!!!

Hoje, Sergio Corbucci(inventor do personagem Django), descansa em paz e aonde estiver deve estar satisfeito com a discussão de sua obra mais querida entre os amantes do gênero. E graças a TARANTINO, com seu faro cinéfilo, traz de volta um dos personagens mais inspiradores. Assista ao filme por completo clicando no endereço abaixo. Em que pese a projeção ser mais longa do que este texto, mas vale a pena conferir. É um filme faroeste imperdível para os padrões tecnológicos do Século XXI.


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