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segunda-feira, 25 de março de 2019

A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO


Por Altamir Pinheiro


Prestes a terminar o Século XX,  uma das obras cinematográficas mais polêmicas de todos os tempos estava por vir das mãos de Martin Scorsese. Trata-se de um livro lido por ele intitulado de A Última Tentação de Cristo, de Nikos Kazantzakis (1883-1957). SCORSESE, que durante sua juventude chegou a ser seminarista, leu com muito interesse a obra do escritor grego, que ao morrer, não pôde ser enterrado em solo sagrado pela Igreja Ortodoxa Grega. E após concluir a leitura, não demorou para que Scorsese pudesse  fazer um filme saído do romance de Kazantzakis (que para quem não sabe, também escreveu ZORBA, O GREGO, levado para o cinema com Anthony Quinn).


Há quem diga que A Última Tentação de Cristo é um dos melhores filmes já feitos sobre Jesus Cristo e um dos poucos a ir além do que está nos textos sagrados. É o que podemos chamar de um trabalho magistral que humaniza Jesus (em uma atuação primorosa e apaixonada do ator Willem Dafoe), que apenas exalta a mensagem da importância do sacrifício que ele tem que fazer pela humanidade. Ao não seguir fielmente a Bíblia e adaptar o romance homônimo, SCORSESE tece um estudo sobre a fé e sobre sacrifícios. História visualmente inventiva e deslumbrante. Um dos melhores e mais corajosos filmes do diretor Martin Scorsese. Genial!!!


Conforme reza a sinopse, JESUS (Willem Dafoe) é um carpinteiro que vive um grande dilema, pois é quem faz as cruzes com as quais os romanos crucificam seus oponentes. Resumindo, Jesus se sente como um judeu que mata judeus. Vivendo um terrível conflito interior ele decide ir para o deserto, mas antes pede perdão a Maria Madalena (Barbara Hershey), que se irrita com Jesus, pois não se comporta como uma prostituta e sim como uma mulher que quer sentir um homem ao seu lado. Ao retornar, Jesus volta convencido de que é o filho de Deus e logo salva Maria Madalena de ser apedrejada e morta. Então reúne doze discípulos à sua volta e prega o amor, mas seus ensinamentos SÃO ENCARADOS COMO ALGO AMEAÇADOR, então é preso e condenado a morrer na cruz. Já crucificado, é tentado a imaginar como teria sido sua vida se fosse uma pessoa comum.


O filme apresenta uma narrativa muito boa em um roteiro honesto e cativante. Willem Dafoe fantástico, em uma atuação absolutamente perfeita. Diálogos interessantes e uma abordagem convincente e digna, mostrando JESUS como, antes de qualquer coisa, um homem com suas dúvidas e receios, e ao mesmo tempo ciente de sua importância. O elenco no geral está muito bem e coeso com a proposta. O filme às vezes fica um tanto teatral e conceitual, mas no conjunto é uma excelente projeção cinematográfica que vale ser conferida independente de crenças religiosas, pois levanta questões humanas muito significativas.


O historiador de cinema Ivanildo Pereira nos mostra o seu conceito com a seguinte teoria: Filmar o livro “A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO”, de Nikos Kazantzakis, foi um projeto dos sonhos do diretor Martin Scorsese por muitos anos. Ele finalmente conseguiu realizá-lo por uma ninharia e o apoio surpreendente do estúdio Universal, que já se preparava para a controvérsia. O livro mostrava um retrato mais humano – e porque não, mais plausível – de Jesus Cristo. Um Cristo com dúvidas, reticente e relutante do seu papel como salvador, e tentado pelo amor terreno por Maria Madalena. Durante a crucificação, ele tem um sonho de como seria sua vida caso não cometesse o sacrifício supremo pela humanidade.


O filme conta com as participações especialíssimas do rockstar David Bowie, como PÔNCIO PILATOS, e o excelente Harry Dean como o APÓSTOLO PAULO. Destaque para a direção primorosa de SCORCESE, indicada ao Oscar da categoria, Willem Dafoe como o conflituoso e atormentado Cristo e Barbara Hershey como uma ardente e apaixonada Maria Madalena {indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante}. A espetacular trilha sonora de Peter Gabriel, indicada a um Globo de Ouro da categoria, é um show à parte e contribui enormemente ao conjunto da obra, em um dos poucos casos, em matéria de cinema contemporâneo, onde música e imagem se complementam de forma única e não parecem descoladas uma da outra.


Em suas pesquisas o cinéfilo Paulo Telles encontrou e nos conta que, antes mesmo do seu lançamento em várias partes do mundo, já havia protestos. Tudo porque a obra de Kazantzakis não apresenta a figura de Cristo como um “REI DOS REIS” de acordo com os Evangelhos Oficiais da Igreja, mas sim, como um homem simples que tem a missão de carregar seu destino de semideus, quando manifesta como qualquer outro mortal seus desejos e fraquezas, inclusive o seu desejo de se apaixonar.


Vários grupos religiosos rejeitaram o filme. No ano de 1988, um grupo fundamentalista cristão francês lançou coquetéis molotov no interior do teatro Saint Michel, que estava exibido o longa. Treze pessoas ficaram feridas, quatro das quais foram severamente queimadas. Já o teatro foi muito danificado, só sendo reaberto 3 anos depois. Em alguns países, como a Turquia, México, Chile e Argentina, o filme foi proibido ou censurado por vários anos. Até julho de 2010, o filme continuou a ser proibida nas Filipinas e Singapura.



Ao assistir essa película, nos vem à mente a figura feminina de Maria Madalena, pois de todas as personagens Bíblicas, talvez seja àquela mais deturpada, encoberta por inverdades divulgadas ao longo dos séculos pela Igreja, pelos textos Bíblicos e por errôneas interpretações. Paralelamente às inverdades, uma outra história tem sido contada de modo sublinear pela arte ao longo de mais de dois mil anos de história Cristã e, também, pelos textos apócrifos. Quem quiser se aprofundar na figura enigmática de MARIA MADALENA aconselho da de garra do livro O CÓDIGO DA VINCI, de Dan Brown. Livro este, que percorreu o mundo, sendo lido por milhões de pessoas. Em meio a uma história de suspense, o autor insere algumas das verdades, que ao longo do tempo, estavam sendo ocultas. VALE A PENA LÊ-LO!!!



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