domingo, 18 de fevereiro de 2018

GARANHUNS E A ESPINGARDA EM 1917


Por José Fernandes Costa – jfc.costa15@gmail.com

No dia 3 deste mês, li no Blogue de Roberto Almeida, breve crônica sobre a tragédia que ocorreu em Garanhuns, no ano de 1917. A alguém pode parecer estranho que o juiz Abreu e Lima e o tenente Meira Lima, em vez de contribuírem pra evitar o mal maior, tenham colaborado fortemente com aquela matança.

Para mim, isso não constitui estranheza. Passei meus primeiros anos de vida na divisa de Alagoas e Pernambuco. Do lado de cá, Bom Conselho; do lado de lá, Palmeira dos Índios. Sempre acompanhei a história do banditismo dos “coronéis” nesses dois estados da federação.

Naquela ocasião (3.2.2018), eu fiz um comentário pela tangente. De propósito, desviei o assunto para o tiroteio da Assembleia Legislativa de Alagoas, ocorrido em 1957, o que não tem nada a ver com a carnificina feita em Garanhuns.  

Voltemos ao que parece estranho, mas não é: como pode o juiz de direito e o responsável pela segurança pública do município, endossarem o plano macabro dos bandidos matadores?! Estes, usando ardis calculados, trancafiaram seus adversários na cadeia pública da cidade.  E, a seguir, invadiram aquele presídio e trucidaram cerca de 20 pessoas, incluindo policiais que cumpriam suas obrigações. – Antes, porém, os tais bandidos trataram de retirar os armamentos que poderiam ser usados por policiais que, no cumprimento do dever legal, tentariam evitar a matança impiedosa.

A análise pode não ser simples, mas temos de partir de certa lógica. – Houve um “coronel” assassinado por um capitão que havia sido surrado na via pública. O capitão fora surrado, para que o povo de Garanhuns e adjacências ficasse sabendo que a família do “coronel” era valente. E que ali quem mandava, desmandava, casava e batizava era a família do dito “coronel”.

Não dá para descrever a imensa humilhação sofrida pelo capitão Sales Vila Nova. Foi desmoralizado para todo mundo ver e saber. Com que cara o capitão Sales iria se apresentar aos seus familiares? Como chegar e olhar de frente para quaisquer pessoas, de sua família ou não? – Assim, só restou ao capitão Sales Vila Nova matar o “coronel” da família dos tranca-ruas. – Sales já havia avisado que, se fosse surrado, mataria o “coronel”. – Havia alguma dúvida para os parentes do “coronel” de que fora o capitão Sales que cometera o assassinato em Recife, por sua conta e risco? – Se dúvida havia, é porque a ignorância da família “valente” era tanta que deixou todos mais cegos do que já eram. 

Com aquela morte em Recife, houve a primeira viúva. E esta tinha ódio e maldade dentro do peito pra distribuir com quem ela quisesse. – Então, a primeira viúva ordenou aos seus parentes que reunissem os pistoleiros da região e viessem pra Garanhuns. E tomassem conta da cidade, criminosamente. Cerca de 100 bandidos armados até os dentes passaram a agredir pessoas que não fossem do agrado deles! – E, a partir de então, foi gestado o plano macabro, dentro da casa da primeira viúva. – Doravante, essa viúva será chamada só pela alcunha de primeira viúva.

Naquele complô, na casa da primeira viúva estavam o juiz e o tenente (este também delegado de polícia); ambos deveriam servir ao povo de Garanhuns. Porém, ao não fazê-lo, nada disso causa estranheza. É e sempre foi comum nas cidades onde imperam os currais eleitorais, as “autoridades” tomarem partido, por mera simpatia com certos chefetes políticos. – Então, naquele momento, foram postas as cartas na mesa. Tendo em vista o ambiente de guerra declarada, o juiz e o tenente se engajaram de corpo e alma no plano mortal da família da primeira viúva.

Assim, o plano deu os resultados que a primeira viúva e seus apaniguados quiseram. Depois de executados os homens odiados pela primeira viúva, esta fez a comemoração na sua residência, com bebedeiras, risos e alegria esfuziante, segundo foi noticiado.  – Tanto ódio, tanta frieza, tanta insensibilidade, talvez tenha sido isso que fez a primeira viúva viver quase 100 anos.

A pergunta que fica no ar é: por que a primeira viúva não foi condenada, já que tudo ocorreu por ordem dela, dentro de sua casa?! Se ela foi a julgamento, como não ser condenada?! Isso é muito mais estranho do que a participação das “autoridades” na chacina. – Já a absolvição de Sales Vila Nova encontrou amparo legal, a meu ver. Visto que o Código Penal prevê “os crimes contra a  honra”. E entre estes está:

“Se a injúria consiste em violência ou via de fato, que, por sua natureza ou pelo meio empregado, consideram-se aviltantes as ofensas.” (CP: art. 140, § 2º.)

O Código Penal de 1941 estabelece esse crime. É óbvio que, com muito mais razão, os códigos vigentes em 1917 também estipulavam tal crime. – E por ter sido surrado, o capitão Sales Vila Nova foi atingido em sua honra; tendo sido humilhado de maneira aviltante. Daí, sua absolvição!

2. Pessoas alimentadas pelo mal, juntam-se aos maus e se deleitam com a prática da desgraça. – Para os agentes do mal, nada melhor para eles do que uma carnificina em letras garrafais. Foi o que ocorreu em Garanhuns, naquele 15 da janeiro de 1917. – Ademais, os bandidos valentões agrediram mulheres: as filhas e a esposa de Manoel Jardim. Isso foi covardia imperdoável.

Li, em algumas publicações, que o “coronel” assassinado “iria despontar como ‘liderança”’ da região do Agreste. – Quem entende alguma coisa de recursos humanos sabe o que é ser líder e exercer liderança. Ninguém é líder com um chicote na mão, para açoitar os seus “liderados”. – Com um relho na mão, o sujeito só pode ser algoz periculoso. Será só chefe de bandos e quadrilhas. Jamais será líder de uma comunidade.

Ser líder requer capacidade pra liderar; e é necessário que haja aceitação das suas opiniões por parte dos liderados. Opiniões não são ordens! – Essas condições faltam a quem usa o porrete e a espingarda pra resolver conflitos. Que não se confunda capitão do mato com líder. A diferença é tão grande, como gritante foi a estupidez dos que mataram, covardemente, mais de 20 pessoas. A tremenda estupidez deu lugar ao massacre sangrento, coisa que o povo de Garanhuns nunca mereceu.

Antes de ser morto, o “coronel”, disfarçado de “fidalgo”, já acumulava nos ombros, alguns crimes: lesão corporal dolosa contra o capitão Sales Vila Nova (coautoria); grave ameaça ao capitão Vila Nova; e injúria aviltante imposta ao próprio capitão, conforme destacado mais acima. – Todos esses crimes estão no nosso Código Penal. – Eis as sobejas razões que Sales Vila Nova teve pra matar o “coronel” dos valentões, em lugar público na capital do Estado. – Essa é minha opinião, ainda que alguém discorde.
E nem tento entender por que o juiz de direito e o chefe de polícia de Garanhuns passaram a cumprir as ordens da primeira viúva e dos seus asseclas, em vez de cumprirem as leis vigentes. – Isso é tão vulgar que se torna irrelevante, para mim. – É ISSO! /.

*Na foto histórica do Diário de Pernambuco, algumas viúvas e órfãos da Hecatombe de Garanhuns.

3 comentários:

  1. ERRATA - Leia-se: "... violência ou 'vias' de fato... "!! - ObrigadOOO !!

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  2. Isso é Brasil.
    Por isso que eu gosto das redes sociais sem elas ficaria mais difícil o povo saber disto.
    Parabéns Roberto Almeida pela brilhante reportagem.

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    1. Também parabenizo o Roberto Almeida! Não por essa postagem acima... Mas, pelo conteúdo do blogue dele! - 2. Como eu disse outro dia, é único blogue que leio, diariamente!

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