Governo Municipal

Governo Municipal
Juntos por uma Grande Cidade

Governo do Estado

Governo do Estado
Governo do Estado

domingo, 30 de abril de 2017

A CHEGADA DE ANTÔNIO CARLOS BELCHIOR NO CÉU


Por Roberto Almeida

Belchior chegou no céu num dia 30 de abril. Há anos estava cansado de andar com os pés cheios de poeira, tinha esquecido o coração selvagem, resolvera os problemas de alucinação,  e agora ansiava por viver tudo outra vez.

Longe de casa, a sua simpática Sobral, no Ceará, resolveu partir desta para outra no interior do Rio Grande do Sul, terra de Elis Regina, que tornou conhecida no Brasil inteiro umas de suas melhores canções, “Como Nossos Pais”.

Poeta, compositor inspirado, cidadão consciente, o artista cearense por certo andava desiludido da vida, ainda mais com tantas turbulências no país chamado Brasil.

Tudo tem sua hora e um dia todos temos que dar adeus à divina comédia humana.

Assim fez o artista, que nunca envelhece, como nos ensinou outro poeta, este da Bahia.

E num dia nublado, cinzento, não apropriado para entusiasmos exacerbados, Antônio Carlos chegou ao céu depois de viver o seu tempo na terra, em meio a secas, jogos de futebol, oportunismos políticos, missas nas igrejas e formigas trafegando sem porquê, enquanto o sangue ainda jorra nos jornais.

Tão logo chegou ao paraíso, um lugar totalmente diferente deste, do lado de cá, Antônio Carlos Belchior foi recepcionado por um coral de anjos e levado ao grande salão de artes do céu.

Talvez por que tenha partido a menos de oito dias, Jerry Adriani foi o primeiro com quem o cearense deu de cara no imenso salão celestial.

Dois estilos diferentes, duas vertentes diferentes da música popular brasileira, nem por isso os dois cantores deixaram de expressar a alegria do encontro e se abraçaram com emoção.

Jerry com aquele sorriso cativante, Belchior com a expressão séria que o caracterizou em vida, sem que os olhos conseguissem esconder que no fundo da alma era apenas um cidadão comum, um sujeito bonachão.

Se o ídolo da Jovem Guarda não era tão da sua turma, o mesmo não se pode dizer de Raul Seixas, que veio logo a seguir e embora tenha feito parcerias com Adriani, quando viveram a existência terrena, filosoficamente estava mais próximo do homem nascido em Sobral.

Raul reinventou a música popular brasileira, com seu “Ouro de Tolo” e foi um dos poucos artistas que teve a coragem de fazer um canto para sua própria morte. “Que venha vestida de cetim, com a sua mais bela roupa”, disse ele na surpreendente canção.

Não há dúvida que o maluco beleza foi um místico, lunático às vezes, que passou por todas as religiões, porém sem deixar de iluminar os céus com sua cabeça privilegiada, o coração noturno e a procura de Deus em todas as coisas.

Belchior, mas pé no chão, fez música sobre a hora do almoço e cantou até os exilados, que em sua época de pop star tiveram que sair do país e foram sofrer na França, sentindo frio e saudades da América do Sul.

Foi singular o encontro do cearense e do baiano e eles se entenderam como irmãos, ficando logo claro que no céu seriam grandes parceiros,  para toda a eternidade.

Aí chegou Gonzaguinha, ao lado do pai, e os dois lembraram do tempo em que não faziam outra coisa senão viajar e viajar pelo imenso brasilis.

Provavelmente por ter morrido no Rio Grande do Sul, não demorou muito Antônio Carlos se deparou com o escritor Érico Veríssimo, autor de O Tempo e o Vento, Caminhos Cruzados, Noite, O Resto é Silêncio e tantos outros livros que encantaram a vida do cantor na sua adolescência.

Belchior aproveitou para confessar ao escritor que era seu fã, enquanto este disse que gostava muito de suas composições, pelas suas preocupações metafísicas e seu viés escancaradamente humanista.

“Acho que nos identificamos. Meu trabalho na literatura e o seu na música se encontram nas paralelas”, comentou o Veríssimo.

Gonzagão perguntou pelo Fagner, com quem fez alguns duetos maravilhosos na vida puramente física e Gonzaguinha, bem leve, comentou que o céu ganhava muito com a chegada de Belchior, garantindo que por certo até Jesus ia ficar radiante perante o reforço do time da MPB no paraíso.

Quando chegou a Elis Regina o autor de Mucuripe não conseguiu conter as lágrimas. A “Pimentinha” estava do mesmo jeito, sorridente e com a mesma voz de brilhante que conquistou o Brasil nos anos 70.

Quase não conseguiram se desgrudar, após fortes abraços e beijos, contudo chegavam outros e outras que partiram bem antes e Belchior não queria discriminar ninguém, convencido de que o céu não tem espaço para preconceitos.

Assim, saudou com carinho o Jessé, este cantarolando “Porto e Solidão”, interrompido, no entanto por Cássia Eller, ela ainda parecendo uma garotinha.

Reginaldo Rossi,  Paulo Sérgio, Leandro e Evaldo Braga chegaram abraçados, o primeiro vestindo não se sabe por que uma roupa de garçom, enquanto o segundo, sussurrando, soltava as primeiras estrofes da última canção.

Os da velha geração também apareceram e Belchior sentiu-se feliz ao ver que estava na companhia de Vicente Celestino, Silvio Caldas, Eliseth Cardoso, Noel Rosa, Ataulfo Alves, Pixinguinha, Francisco Alves e Orlando Silva.

“Quanta gente boa, meu Deus!”, soltou o compositor, ainda mais que não mais que de repente Clara Nunes, Vander Lee, Cazuza e Renato Russo também vieram lhe abraçar.

Chico Anísio veio contando piadas, fazendo tipo e o clima ficou ainda mais descontraído pela entrada em cena dos meninos traquinos do grupo Mamonas Assassinas.

Foi um desfilar de artistas que não acaba mais e tudo era alegria, festa, comemoração.

Mesmo os santos, como Francisco de Assis, pareciam estar de bem com a vida eterna, bem humorados... E todos contribuíram para que a tristeza não encontrasse guarida, a saudade fosse guardada num matulão emprestado por Marinês e Jackson do Pandeiro, num clima verdadeiramente amistoso que irmanou cada um deles, vivendo numa intensidade até então desconhecida, num lugar sem espaço para a tristeza e a dor. E que era possível cantar sem riscos, com público garantido e uma gente educada aplaudindo sem parar.

Tudo lindo, divino, maravilhoso e melhor ainda porque agora seria pra sempre. Nunca, nunca ia acabar.

“Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho, deixe que eu decido a minha vida...”


Salve Belchior!

*A maioria das frases e expressões aspeadas ou em itálico se referem a títulos ou versos de canções de alguns dos artistas citados.

**Foto: O Globo.

6 comentários:

  1. Excelente, meu caro Roberto. Há muito não lia algo tão interessante e inteligente. Formidável!

    Fernando Rodolfo

    ResponderExcluir
  2. Obrigado Rodolfo! Amigo, você sabe bem que às vezes a gente escreve com a alma. Hoje foi um desses dias. Abraço.

    ResponderExcluir
  3. Já diz o poeta que, matamos o tempo e o tempo nos enterra. POIS BEM!!! Todos nós temos nossas máquinas do tempo. Algumas nos levam pra trás, são chamadas de memórias. Já há outras que nos levam para frente é o que podemos chamar de, tempos que vivi, mas continuam presentes... Corria o ano e só Deus sabe qual, e estava eu no Terraço Churrascaria de Garanhuns assistindo ao show de Belchior. Naquele local, com pouco mais de 200 pessoas, ESSE GÊNIO parecia um cantor comum...

    Ao término do show, me dirigi ao seu camarim e, com anuências dele e do colunista social Saulo Paes que o acompanhava lhe dando guarida, adentrei no ambiente e ele estava jantando ou bebericando vinho tinto com peixe assado. Ao me apresentar como colunista de um jornal local ele sorriu pra mim, convidou-me a sentar à mesa para saborear o vinho e peixe, agradeci, esperei terminar para entrevistá-lo.

    Entreguei a um dos meus ídolos musicais de todos os tempos um papelote, datilografado (isso mesmo, datilografado!!!), com cinco perguntas. Ele as leu, quando percebi que na última ele franziu a testa e, indagou-me: Como você sabe disso? Quem lhe contou?!?!?! Respondi-lhe: sou seu fã e tenho muitas coisas suas guardadas numa caixa de papelão em um quartinho de minha casa.

    Laconicamente, me falou!!! Colunista, envie suas perguntas por E-MAIL que as responderei, aqui não vou me pronunciar porque pode haver deturpação do que eu falar, aliás, já sou vítima disso. Mande-as por E-MAIL!!! Daí, perguntei: ENVIAR PRA QUEM?!?!?! Ele respondeu, pelo computador, entendeu?. Agradeci, sai de fininho e a entrevista não saiu. Naquele momento, para mim, a INTERNET estava engatinhando.

    P.S.: Como Raul Seixas, o GÊNIO Belchior se vai, mas sua obra, de grande alcance social e filosófico, é imortal, imortal, imortal!!! THANK YOU, BELCHIOR!!!



    ResponderExcluir
  4. Por eu ser fã incondicional de um dos maiores GÊNIOS letrista que este país já pariu, quase sempre costumo dizer que, há certo texto, que a gente ao acabar de lê-lo, fica a pensar: “COMO NÃO FUI EU A ESCREVER ISSO", de tanto que traduz o nosso(o meu) pensamento. Milton Nascimento fez uma música sobre isso: “Certas canções que ouço / Cabem tão dentro de mim / Que perguntar carece / Como não fui eu que fiz?”... O TEXTO ACIMA - É BRILHANTE, MELODIOSO, IRREPREENSÍVEL, DE PARABÉNS O AUTOR!!!

    P.S.: - Lendo este esplendoroso artigo fiquei envaidecido como o Roberto dá o seu toque final na última frase do texto que ficou, simplesmente, irradiante!!! Não me envergonho de afirmar que o meu divórcio com uma cidadã que é merecedora do meu maior respeito, sinceramente, tinha como pano de fundo e tudo a ver com essa frase, MAGNÍFICA!!! Só Belchior era capaz de tamanha maestria...


    ResponderExcluir
  5. ISSO É OBRA DE GÊNIO!!!

    Balada de Madame Frigidaire

    Belchior

    Ando pós-modernamente apaixonado pela nova geladeira.
    Primeira escrava branca que comprei, veio e fez a revolução.
    Esse eterno feminino do conforto industrial injetou-se em minha veia, dei bandeira!
    e ao por fé nessa deusa gorda da tecnologia gelei de pura emoção!


    Ora! desde muito adolescente me arrepio ante empregada debutante.
    Uma elétrica doméstica então… Que sex-appeal! Dá-me o frio na barriga!
    Essa deusa da fertilidade, ready made a la Duchamp, já passou de minha amante
    Virou super-star, a mulher ideal, mais que mãe, mais que a outra… Puta amiga!


    Mister Andy, o papa pop, e outro amigo meu xarope se cansaram de dizer:
    Pra que Deus, Dinheiro e Sexo, Ideal, Pátria, Família pra quem já tem frigidaire?
    É Freud, rapaziada! Vir a cair na cantada dum objeto mulher.
    Eu me confundo, madame! E a classe média que mame se o céu, a prazo, se der!


    Que brancorno abre e fecha sensual dessa Nossa Senhora Ascéptica!
    Com ela eu saio e traio a televisão, rainha minha e de vocês.
    Dona frigidaire me come… But no kids double income! Filho compromete a estética!
    Como Edipo-Rei momo, como e tomo tudo dela… Deleites da frigidez!

    Inventores de Madame Frigidaire, peço bis! Muito obrigado!
    Afinal, na geladeira, bem ou mal, pôs-se o futuro do país.
    E um futuro de terceira, posto assim na geladeira, nunca vai ficar passado.
    Queira Deus que no fim da orgia, já de cabecinha fria, eu leve um doce gelado!

    Mister Andy, o papa pop, e outro amigo meu xarope, se cansaram de dizer:
    – Pra que Deus, Dinheiro e Sexo, Ideal, Pátria, e Família pra quem já tem frigidaire?

    É Freud, rapaziada! Vir a cair na cantada dum objeto mulher…
    Mas que trocadilho infame! La vraie Ballade des Dames du Temps Jadis… au contraire!

    QUEM SE PRENDER ATENTAMENTE A SUTILEZA DA LETRA VERÁ QUE É UMA GENIAL CRITICA ÁCIDA A CLASSE MÉDIA CONSUMISTA E ALIENADA DE ENTÃO. OUÇA-A:

    https://www.youtube.com/watch?v=js9CIyvm9rE


    ResponderExcluir
  6. ISSO É OBRA DE GÊNIO!!!

    E Que Tudo Mais Vá Para o Céu

    Belchior

    Um dia você me falou, em Andaluzia e em Valladolid
    Granada fica além do mar, na Espanha
    Molhou em meu vinho seu pão
    E também me falou em coisas do Brasil
    O FMI, Tom, poeta tombado na guerra civil

    O homem da máquina então, então me falou
    Vá embora poeta maldito!
    O teu tempo maldito também já terminou

    E eu fui embora sorrindo, sem ligar pra nada; como vou ligar
    Para essas coisas quando eu tenho a alma apaixonada?

    Mas teu cabelo é mais negro que o negro
    Da asa da graúna, de um negro mais sutil
    Preto como os tipos pretos que compõem a palavra anil

    E à noite eu entro no CinemaScope
    Tecnicolor, World Vision, daqueles de cowboy
    De que vale a minha boa vida de playboy?
    E eu compro este ópio barato
    Por duas gâmbias, pouco mais
    Mas como dói... Eu entro num estádio e a solidão me rói

    E eu quero mandar para o alto
    O que eles pensam em mandar para o beleléu
    E que tudo mais vá para o céu

    E eu quero mandar para o alto
    O que eles pensam em mandar para o beleléu
    E que tudo mais vá para o céu
    E que tudo mais vá para o céu
    E que tudo mais vá para o céu


    P.S.: - Mais uma musica com ar de brasilidade e genialidade do LP paraíso de 1982

    https://www.youtube.com/watch?v=W6lNlWcxYY8

    ResponderExcluir