sexta-feira, 19 de junho de 2015

HISTÓRIAS DO HR: Os companheiros de enfermaria

 
Na foto, o Hospital da Restauração.

Aqui vai a primeira de uma série de postagens que visa levar ao leitor um pouquinho de como é a rotina de um hospital,  de levar para outras pessoas um pouco da essência de quem ali conheci. Falava com meu pai no hospital de fazer algo assim, e agora coloco a mão na massa. Embora possa destoar um pouco do conteúdo do blog, as histórias são interessantes e visam mostrar um pouco da personalidade humana, e de como podemos ser maravilhosos nos momentos de dificuldades. Espero que gostem.


 "Quando entrei pela primeira vez na enfermaria 503, no quinto andar do HR, fui abordado por algumas pessoas, acompanhantes - como eu - de outros pacientes, que me davam as boas-vindas e procuravam fazer amizade comigo. "Você é o famoso Tiago? Sua mãe e seu pai falaram muito de você". Esse primeiro contato tão carinhoso foi uma prévia demonstração de como as pessoas que ali temporariamente "residiam" podiam ser extremamente solidária. Uma pequena demonstração de como o ser humano pode ser fantástico.
 Olhei ao redor e vi nove pacientes, contando com meu pai. Nove histórias diferentes, nove famílias vinculadas pelo temor com a saúde de seus familiares. Não citarei nomes, seria uma grosseria com meus amigos de enfermaria, mas explicarei a situação de cada paciente para que o leitor se situe com a gravidade da situação dos pacientes que ali se encontravam.
 No leito 1, encontrava-se um senhor alto e forte, que tinha uma cicatriz que atravessava toda sua cabeça de forma vertical. Vi ele ter uma recuperação fantástica, em um dia ele estava de cama, recém-chegado de cirurgia, sem forças para nada. No outro dia, levantou-se para tomar banho sem a ajuda de ninguém, com mais dois dias a enfermeira deu-lhe uma bronca, pois ele me ajudou a levantar outro paciente em sua cama, mesmo recém-operado. No mesmo dia desta bronca, o paciente do leito 1 teve alta.
 No leito 2, encontrava-se um jovem vítima da violência em nosso Estado. Não cheguei a perguntar sua idade, mas não deveria estar muito longe da minha, 23 anos. Este paciente tinha três balas alojadas no corpo, uma na mão, uma no crânio, e outra na coluna. Ainda assim teve sorte, o colega que se encontrava com ele no momento de violência não resistiu aos ferimentos. Este paciente vai precisar de cirurgia para remover dois dos projéteis, o terceiro, o da coluna, vai permanecer lá, tendo em vista que o paciente poderia perder a capacidade de andar se realizada uma cirurgia para extração da bala alojada em sua coluna.
 No leito 3, encontrava-se meu pai, o jornalista que é dono deste blog, e aguardava a cirurgia para remoção de tumor.
 No leito 4 encontrava-se um senhor da idade do meu pai, mas que estava devastado pela doença. O homem tinha câncer em estado terminal. Leucemia de acordo com alguns acompanhantes, câncer nos ossos de acordo com outros. Nunca perguntei a natureza exata do estado de saúde do senhor para sua família. Não acho que seria um assunto do qual eles gostariam de falar, e detestaria ser incômodo.
 No leito 5, encontrava-se um jovem acompanhado de sua mãe. Vou citar seus nomes, pois sei que estes não se incomodariam. No leito 5 estava o jovem Émerson, acompanhado de sua mãe, a senhora Joselma. Foram eles uma das primeiras pessoas a me receberem, e se me impressionei pela bondade vista no hospital, muita desta bondade partiu destes dois. Émerson aguardava a realização de um exame que necessitava de internação. Mas, era comum ouvir enfermeiras, médicos e acompanhantes se surpreenderem ao saber que ele era paciente, tamanha era sua disposição. Émerson conhecia a todos na enfermaria, e a todos procurava ajudar, com palavras e gestos. Ajudava a subir um paciente na cama, vigiava este quando seu acompanhante saia para almoçar, rondava os corredores e outras enfermarias fazendo amizades com outros pacientes. Uma figura fantástica e difícil de esquecer. Assim como sua mãe, a irmã Joselma, que como seu filho a todos consolava, a todos ajudava. Seja dando comida aos pacientes que precisavam de mais cuidados, seja consolando os acompanhantes e pacientes com suas sábias palavras. Na terça-feira, recebi a confirmação que meu pai iria ser operado, e estando esgotado, caí em uma crise nervosa no momento de comunicar a família, chorando como criança. Foram Émerson, sua mãe e outra acompanhante - esta confesso não saber o nome - que me consolaram, e me falaram da importância de ter forças em um momento como aquele. Se Émerson e sua mãe lerem esta postagem, gostaria que eles soubessem que se existe vida após a terra, e lá existir um céu. Este dois tem lugar garantido lá. Raras vezes encontrei duas pessoas tão boas, dois anjos.
 No leito extra, ficava um senhor que também teve extraordinária recuperação. Foi submetido a cirurgia por apresentar sintomas graves. Não se recordava de quem era, nem reconhecia sua família, esqueceu caminhos facilmente percorridos. Foi operado, e com três dias teve alta, parecendo um novo homem.
 No leito 6, estava um homem que sofreu um terrível acidente de moto.  Ao fazer uma curva, se deparou com um caminhão estacionado na contramão, e chocou-se com ele à toda velocidade. Não foi possível ver o caminhão devido a um ponto cego na curva. Justamente por este ponto cego, o caminhão não poderia estar estacionado ali. Eu vi o raio-x do crânio deste homem, e posso afirmar que sem dúvidas é um milagres que ele esteja vivo e caminhando para plena recuperação. O raio-x mostra diversas fraturas por todo o crânio. Do maxilar à sua parte superior. Essas fraturas levaram à cirurgia que deixou várias cicatrizes em sua cabeça, mas que sem dúvida salvou sua vida.
 No leito 7, estava um homem que após uma queda de uma rede, durante uma brincadeira, perdeu o movimento das pernas. Incrível como algo tão banal possa levar a tamanho dano. Fiquei impressionado com o caso deste homem, é o tipo de coisa que você lê em jornal, mas é completamente diferente quando se depara com ele pessoalmente. A este amigo, espero que ele tenha plena recuperação, e logo volte a andar.
 No leito 8 encontrava um senhor que havia sofrido um AVC e feito uma operação neurológica após este. Um senhor muito simpático, assim como sua família. Vi certo dia de minha estada, este senhor passar mal durante todo o dia, e vomitar mais do que imaginei ser possível. Algo angustiante, e que marcou também meu pai que falava constantemente que quando ouvia o senhor vomitar, lembrava de seus enjoos causados pelo tumor, e sentia empatia por ele."


NOTA:  Estes eram os nove pacientes da enfermaria 503. Achei importante detalhar a vida deste que em tão pouco tempo de convívio marcaram a minha vida, a de meu pai, e a de minha mãe. É uma forma um tanto pessoal de homenageá-los, contando suas histórias. Para que assim, outras pessoas saibam o que aconteceu com eles, tenham empatia, e quem saibam façam uma oração pedindo por sua merecida recuperação.

Tiago Almeida

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