Advogado,
empresário, ex-vereador do município, Givaldo Calado também é um homem das
letras, que gosta de ler e escrever. E tem um ótimo texto. Em artigo escrito
com exclusividade para este blog o garanhuense aborda a delicada
questão da Academia de Letras da cidade, que vive um momento difícil, com um
grupo acusando o atual presidente, João Marques, de práticas ilegais para se
perpetuar na direção da Casa Literária.
Givaldo, em seu
artigo, defende a volta da Academia às suas origens e salienta a sua importância
para o município. Confira.
“A
Academia de Letras Garanhuns deve ser tratada com respeito ao seu passado.
Passado, que projeta um grande futuro...” - diz Givaldo
Perguntaram-me sobre “o que estaria
ocorrendo com a Academia de Letras de Garanhuns, uma vez que correm notícias na
cidade que teria havido reformas de seus estatutos, sem a consulta de seus
quadros. Que teriam sido afastados e desprestigiados alguns acadêmicos
históricos, com propósitos inconfessáveis”. Enfim, que estaria ocorrendo “uma
série de irregularidades” naquela Casa de Cultura. Que tem tudo para ser uma
das referências maiores da nossa cidade. O que já o é.
Disse que não estava sabendo nada de
oficial, a respeito. E não estava. Na época. Mas que iria apurar. Que custava
acreditar em qualquer daquelas notícias, por entender absurdas, mas que julgava
saídas de mentes poucas desejosas de verem o crescimento de Garanhuns.
Notadamente, através desse viés mágico e único que é a cultura de sua gente.
Mas dizia, na época, que iria me inteirar para poder conferir minha posição
mais embasada a respeito.
Não quis tratar desse assunto de forma
pública pela sua delicadeza. Sobretudo, para preservar a imagem da Academia e
de seus acadêmicos. Da Academia e de seus patronos. Da Academia e de sua
história. Que vem de longe. Vem de 1978. Do centenário da nossa cidade. Com
Rilton Rodrigues da Silva, Humberto Alves de Moraes, Antônio Gonçalves Dias,
Aurélio Muniz Freire, João Calado Borba... Vem de mais longe, ainda. Vem da
década de 1950. Com Geraldo de Freitas Calado, Erasmo Bernardino Vilela,
Ronaldo Souto Mayor...
Quando criaram o Grêmio Cultural Ruber van der Linden...
Mais tarde a nossa Academia de Letras de Garanhuns. Fundada e instalada por
aquelas personagens, na presença, dentre outras, do Cônsul da Costa Rica, José
de Abreu Santos, do Bispo da Diocese de Garanhuns, Dom Tiago Postma, Ivaldo
Rodrigues Dourado e tantos e tantos outros, sob a presidência do então Prefeito
do Município, Ivo Tinô do Amaral.
Foi linda. Muito linda! A solenidade de
instalação da Academia de Letras de Garanhuns, naquela noite fria de 04 de
fevereiro de 1978. Ali, na Rua XV de Novembro, 287- eterna sede da cultura
garanhuense. Por isso ouso dizer que a Academia
de Letras Garanhuns deve ser tratada com respeito ao seu passado. Passado, que
projeta um grande futuro para nossa cultura e para nossa cidade.
Outra época, li em João Ribeiro, o
seguinte: “Se a Academia não presta, então também o Brasil não presta”.
Penso que João Ribeiro foi infeliz porque tanto a Academia de Letras do Brasil
presta como o Brasil presta. Tanto que sobrevive, a nossa ABL, há décadas. E
sobreviverá a séculos. Quiçá milênios.
Igualmente, penso com relação a nossa
Academia e a nossa cidade. Que só nos dão orgulho. Sobretudo, pelo que dizem de
lá de fora. Da nossa Academia. Da nossa cidade. “Uma cidade que tem uma Academia
de Letras é uma cidade diferente”.
Ah! Como ouço dizerem! Ah! E como me
orgulho disso! “Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a
pena ter nascido”, disse, um dia, o poeta Fernando Pessoa. Quem sabe
para que pudéssemos, agora, repetir suas palavras, pensando na nossa Academia
de Letras de Garanhuns.
Pugno por uma Academia no modelo da
Academia Francesa, iniciada no século XVII. No modelo da Academia Brasileira,
iniciada no século XIX. Onde seus membros estejam à disposição permanente do
serviço à cultura. Sem apegos a cargos nela disponíveis. E sem interesses inconfessáveis. Pugno por
uma Academia que esteja perto da população, a ela ajudando no correto exercício
da nossa língua. Pugno pelo academicismo expresso no lema “Ad immortalitem”. E
com sucessão através da vontade do conjunto dos acadêmicos pelo voto direto e
secreto da maioria de seus membros, como, de resto, acontecem em todas as
grandes Academias.
Não posso, portanto, está feliz com as
notícias que, hoje, me chegam. Agora, pela imprensa. E que me dão conta daquilo
que me falavam, há meses. Com um agravante. Tudo já corre na justiça. Nos
tribunais.
É triste, para mim. É trinte, para
Garanhuns. Para a memória dos seus fundadores, inclusive daqueles de lá de
trás, que sonharam com essa ferramenta de cultura na, já, Garanhuns
Universitária e Cultural a que se referia o estadista Agamenon Magalhães. Muito triste! Não foi para isso que
ingressei naquela noite de três de dezembro de 2005, na Academia de Letras de
Garanhuns, para ocupar a Cadeira de número 22, que tem como patrono a figura
extraordinária do Monsenhor Aldemar da Mota Valença.
Não! Não posso estar feliz! Quando ainda há
pouco autorizei a impressão da 4ª Edição do meu trabalho “Padre Adelmar e a Academia de
Letras de Garanhuns”, apresentado naquela “Bela. Noite de Academia”. Ela, tomada pelos seus acadêmicos. E
de acadêmicos do Recife e de Maceió. E da sociedade de Garanhuns. Alegre e
feliz. E o nosso presidente a dizer, com sua voz macia, modulada e
magnetizante, no encerramento: “Sofri também, confesso. No meu canto,
sentado, vertia lágrimas. A emoção presidiu-me... À Academia compete,
entretanto, engrandecer e imortalizar. Givaldo Calado de Freitas tem essa
missão, como acadêmico... Compete a todos ler e guardar. Direta ou
indiretamente, como se fossem todos da Academia. E que amem esta terra e que
reconheçam seus brios. Guardem-no”.
Serei sempre acadêmico. No modelo francês.
No modelo brasileiro. Já o disse - pelo menos, pugno. Foi para isso que
aceitei, humildemente, depois de tanto relutar, ir para a Academia. Naquela
noite fria de Garanhuns.
A Academia, no entanto, tem que voltar as
suas origens. E vai voltar. Esse é o sentimento. Para o seu bem. Para o bem de
Garanhuns. E Garanhuns não a quer perder. Não admite perdê-la. Porque ela, hoje,
mais do que nunca, é a grande referência cultural de nossa cidade. Uma grande e
importante referência. Com desdobramentos inimagináveis. E estes apontam e
perseguem para o desejado desenvolvimento da nossa
cidade.
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