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terça-feira, 23 de outubro de 2012

ÍNDIOS BRASILEIROS PODEM PRATICAR SUICÍDIO COLETIVO


Da jornalista e escritora Eliane Brum, no Portal da Revista Época:

- Pedimos ao Governo e à Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas decretar nossa morte coletiva e enterrar nós todos aqui. Pedimos, de uma vez por todas, para decretar nossa extinção/dizimação total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar nossos corpos. Este é o nosso pedido aos juízes federais. 

O trecho pertence à carta de um grupo de 170 indígenas que vivem à beira de um rio no município de Iguatemi, no Mato Grosso do Sul, cercados por pistoleiros. As palavras foram ditadas em 8 de outubro ao conselho Aty Guasu (assembleia dos Guaranis Caiovás), após receberem a notícia de que a Justiça Federal decretou sua expulsão da terra. São 50 homens, 50 mulheres e 70 crianças. Decidiram ficar. E morrer como ato de resistência – morrer com tudo o que são, na terra que lhes pertence.

Há cartas, como a de Pero Vaz de Caminha, de 1º de maio de 1500, que são documentos de fundação do Brasil: fundam uma nação, ainda sequer imaginada, a partir do olhar estrangeiro do colonizador sobre a terra e sobre os habitantes que nela vivem. E há cartas, como a dos Guaranis Caiovás, escritas mais de 500 anos depois, que são documentos de falência. Não só no sentido da incapacidade do Estado-nação constituído nos últimos séculos de cumprir a lei estabelecida na Constituição hoje em vigor, mas também dos princípios mais elementares que forjaram nosso ideal de humanidade na formação do que se convencionou chamar de “o povo brasileiro”. A partir da carta dos Guaranis Caiovás, tornamo-nos cúmplices de genocídio. Sempre fomos, mas tornar-se é saber que se é. 

Os Guaranis Caiovás avisam-nos por carta que, depois de tantas décadas de luta para viver, descobriram que agora só lhes resta morrer. Avisam a todos nós que morrerão como viveram: coletivamente, conjugados no plural. 

Nos trechos mais pungentes de sua carta de morte, os indígenas afirmam: 

- Queremos deixar evidente ao Governo e à Justiça Federal que, por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo. Não acreditamos mais na Justiça Brasileira. A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós. Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos, mesmo, em pouco tempo. Não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy, onde já ocorreram 4 mortes, sendo que 2 morreram por meio de suicídio, 2 em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas. Moramos na margem deste rio Hovy há mais de um ano. Estamos sem assistência nenhuma, isolados, cercados de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Tudo isso passamos dia a dia para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários de nossos avôs e avós, bisavôs e bisavós, ali está o cemitérios de todos os nossos antepassados. Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje. (…) Não temos outra opção, esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS.

Fotos: 1) Os índios que pretendem praticar o suicídio coletivo; 2) A jornalista Eliane Brum

*Lemos mais de um texto sobre esse caso dos índios do Mato Grosso do Sul. Alguns vieram acompanhados de vídeos. A carta dos Guaranis Caiovás emociona e revolta. Enquanto preparávamos esta postagem, só nos vinha a mente a música do Renato Russo: "Que País é Esse?"

2 comentários:

  1. É muito, muito comovente a história dos nossos irmãos índios, será que eles também não fazem parte da humanidade? Confesso que fiz esse comentário com os olhos cheio de lágrimas, como pode acontecer esse tipo de coisa e ninguém não fazer nada!?

    Tem nada não, a justiça de Deus não tarda... "Irá chegar um novo dia, um novo céu, uma nova terra e um novo mar. E nesse dia o negro não terá correntes, o nosso índio será visto como gente e nesse dia o preto, o branco e o mulato todos juntos irão comer num mesmo prato"

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  2. Ê lamentável que não tenhamos respeito pelos verdadeiros filhos da terra Brasil. Tudo isso por causa da ganância, o lucro de alguns em nome do desenvolvimento. Isso é uma falta de vergonha, porque o mundo também nao se manifesta? Acho que já é mais do que na hora. Nossa solidariedade aos nossos irmaos indios!

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