domingo, 31 de outubro de 2010

GRANDES NOMES DA MPB XLIV (44)

MARIA RITA

Esta semana estava no carro, entre Garanhuns e Lajedo, e o som modesto, de mais de 10 anos, tocava um CD com uma seleção de Paulinho da Viola. Só grandes cantores interpretando o mestre do samba: Beth Carvalho, Emílio Santiago, Caetano Veloso, Djavan, Nara Leão, Elis Regina...

“Olá, como vai? Eu vou indo e você tudo bem? Tudo bem eu vou indo pegar meu lugar no futuro, e você?

A música Sinal Fechado, já consagrada na voz do próprio Paulinho, Fagner e Chico Buarque é ainda mais encantadora na voz única de Elis Regina. Nem parecia que eu já tinha ouvido essa canção tantas vezes. Tanto a letra, como a interpretação arrojada da “Pimentinha” ainda conseguem emocionar.

“Tanta coisa que eu tinha a dizer
Mas eu sumi na poeira das ruas...”

Especialmente neste trecho a voz de Elis, numa entonação especial, atinge aquela perfeição fora do comum, coisa dos deuses, quem sabe?

Elis, já abordada nesta série sobre MPB, morreu em 19 de janeiro de 1982. Logo estará fazendo 30 anos, hoje a idade do meu filho Luiz Fernando, o Lulinha, que tem uma filha perto de completar 10 aninhos.

Eu também tenho algo a dizer
Mas me foge à lembrança
Por favor, telefone, eu preciso
Beber alguma coisa, rapidamente...

Observei, tocado pela emoção passada pela artista: “Ainda é a melhor cantora do Brasil”. Não estou sozinho ao pensar assim. Hoje abro sites na internet, folheio livros e revistas e encontro muita gente boa escrevendo “foi, sem dúvida, a maior cantora brasileira de todos os tempos”.

Elis nos deixou cedo. Ficaram, no entanto, as interpretações inesquecíveis de Travessia (Milton Nascimento), Romaria (Renato Teixeira), Como Nossos Pais (Belchior), Dois pra lá, dois pra cá (João Bosco e Aldir Blanc), A Cartomante (Ivan Lins), As Curvas da Estrada de Santos (Roberto e Erasmo Carlos), Saudosa Maloca (Adoniram Barbosa), Carinhoso (Pixinguinha), Tatuagem (Chico Buarque), Se eu quiser falar com Deus (Gilberto Gil), Mucuripe (Fagner), Águas de Março (Tom Jobim)... Tem tanta coisa boa que daria um livro.

Elis Regina nos deixou também (ela e o músico César Camargo Mariano), a Maria Rita. Aí o casal, o encontro dos genes, ou um sopro de Deus, como que nos trouxe de volta a melhor voz feminina da música popupular brasileira. Ela ainda não é igual a mãe, mas quem sabe um dia chega lá. De todo modo está muito acima da média e em menos de 10 anos de carreira já se consolidou com um dos grandes nomes da nossa boa MPB.

Maria Rita Costa Camargo Mariano nasceu em São Paulo, no dia nove de setembro de 1977. É formada em Comunicação Social e Estudos Latino-Americanos nos EUA. Com tanta voz, tanto talento, filha de pai músico e mãe cantora, só decidiu seguir a carreira artística aos 24 anos de idade.

Possivelmente o fato de ser filha de Elis, a fama de sua mãe como a melhor cantora do país inibiu um pouco Maria Rita. Esta confessou numa entrevista que só tomou a decisão quando tinha a resposta para a pergunta: “Por que cantar”? Talvez tivesse de passar mesmo por esse dilema, pela responsabilidade de enfrentar estúdio, palco, público, crítica, um país inteiro que não esquecia da excepcional intérprete da bossa nova, do samba, do pop, da MPB.

Mas em 2002, antes mesmo de lançar qualquer disco no mercado, Maria Rita já recebia um prêmio de uma associação de críticos do Sudeste como “cantora revelação do ano”. No ano seguinte, lançou o primeiro CD, com o seu nome, e se transformou num fenômeno de vendagem de discos: foram mais de um milhão de cópias, coisa de Roberto Carlos até os anos 80. Na década atual, com a pirataria dominando, a moçada baixando música pela internet, vender isso tudo nas lojas não é para qualquer um.

A artista estourou no Brasil e também no exterior. Logo sua voz chegou a Portugal, Argentina, Colômbia, Chile, Venezuela, México, Itália, Suíça, Suécia, Holanda, Inglaterra, Coréia e Japão. Maria Rita conquistou o mundo.

Com o primeiro disco ganhou o Grammy Latino de 2004 nas categorias Revelação do Ano, Melhor Álbum e Melhor Canção em Português (pela música “A Festa). Aí começou a colecionar prêmios, se apresentar nos palcos das principais capitais brasileiras e nas cidades européias.

Em 2005 lançou “Segundo”, o novo CD, conseguindo repetir o sucesso do primeiro. Participou, na seqüência, de discos de diferentes artistas, como Gilberto Gil, Paralamas do Sucesso, O Rappa e até da argentina Mercedes Souza, que morreu algum tempo atrás.

“O Samba é Meu”, terceiro disco da cantora, vendeu mais de 200 mil cópias (ficou entre os 10 mais de 2007) e recebeu o prêmio Multishow como o melhor do ano.

Maria Rita parece fisicamente com Elis Regina, só que é mais bonita tanto de rosto quanto de corpo. O timbre de voz é extremamente parecido com a da mãe e há momentos que você fica na dúvida: quem está cantando das duas? O repertório é de primeira: como já começou madura ela não perdeu tempo com experiências desnecessárias e só gravou música de craques.

A artista tem uma presença de palco incrível, um visual exuberante, passa muito energia e quando está cantando, soltando sua bela voz que nos trás ecos de passado - sem deixar de representar o presente e o futuro - não podemos evitar o deslumbramento, a admiração. A vemos como uma estrela, uma deusa, uma cantora mandada por Deus para preencher uma lacuna que ficou durante anos na música popular brasileira.

Elis Regina partiu cedo. Ficaram os registros de sua arte e talento. E ficou a sementinha. Como se Elis continuasse por aí. Mas não é ela, é a continuidade, é Maria Rita. Uma cantora que com muito charme e talento já ocupa um lugar de honra na galeria de Grandes Nomes da MPB.

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