A frase acima é uma das mais conhecidas da escritora Clarice Lispector.
Quem leu alguns dos seus livros, conhece a sua história, sabe que essas poucas palavras dizem muito sobre ela.
Muitos escrevem para garantir a sobrevivência, mas contar histórias, fazer jornalismo diário, produzir contos e romances podem estar além da necessidade de garantir o pão na mesa.
Viver é difícil, embora seja melhor do que sonhar, como dizia o Belchior.
Por isso muitos procuram válvulas de escape. Uns se refugiam nas igrejas, outros fumam, bebem, são viciados em sexo, outros consomem arte como se estivessem sempre com fome.
E há os que, como Clarice, escrevem como se estivessem recolhendo náufragos, no fundo buscando a própria salvação.
A escritora que nasceu na Ucrânia e sequer chegou a pisar no solo da mãe pátria, porque a colocaram no colo e a trouxeram para o Brasil, merece ser lida e estudada.
Ela era judia, perdeu a mãe e os pais cedo, sofreu, casou com um diplomata, ficou anos nos exterior, deixou tudo para trás e voltou para o país que considerava seu, com dois filhos ainda pequenos.
Estreou ainda jovem, com o romance "Perto do Coração Selvagem".
Causou espanto na crítica literária e nos meios culturais.
A compararam com escritores que ela sequer tinha lido, estranharam a falta de enredo e a linguagem rebuscada, filosófica, para muitos hermética.
Por ser mulher de diplomata e viver fora, passou anos sem publicar.
Mais de 10 anos depois dos primeiros dois livros, quando já tinha retornado para o Brasil, para nunca mais sair, é que conseguiu publicar o romance "A Maçã no Escuro" e os contos de "Laço de Família".
A obra de Clarice Lispector me parece toda ela uma reflexão.
Uma mulher que procurou o sentido da vida, que se revelou descrente e depois buscou Deus, ficou próxima da divindade.
"Viver não é relatável. A realidade não tem sinônimos".
Escreveu também Clarice. Que sofreu com a perseguição aos judeus, a morte dos pais, as dificuldades que a vida oferece, a má vontade de parte da crítica e dos editores.
Mas Clarice Lispector, que se considerava pernambucana e brasileira, se tornou um ícone da literatura mundial.
Seus livros foram adaptados para o cinema e ela se transformou numa espécie de fenômeno pop, sendo a escritora que mais tem frases citadas nas mídias sociais.
Escrever é mesmo uma religião.
Um ofício nobre, infelizmente reconhecido por poucos, num mundo que teme as palavras, por isso se volta cada vez mais para o passado, como se quisesse retornar à linguagem exclusivamente oral.

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