A PEDAGOGIA DOS VINHOS - Por Pedro Henrique Teixeira


Dedicado a Gilvan Passos

Pobres de nós ocidentais contemporâneos que perdemos o valor dos sentidos para a educação, para o cultivo de si. Pobres de nós que reduzimos nossa capacidade de aprender. Somos apenas visão e audição. Somos apenas olhos e ouvidos que aprendem, somos seres mutilados por opção. 

Que pena colocarmos o peso da nossa experiência subjetiva no mundo em cima de dois sentidos, quando temos cinco formas de captação da realidade, cinco antenas de captação do mundo, de elaboração da nossa inteligência, cinco formas de cultivo de nossa alma. A construção do nosso eu é complexa, deveria ir além da cadeira na escola, de ouvir o professor, de vê-lo na frente do quadro: “Afinal, a vida psíquica requer bem mais do que isso: requer uma interação entre o eu e o mundo, entre o corpo e o mundo, entre a mente e o mundo, entre o cérebro e mundo, sem o qual, não teríamos condições de dar descrições nem do mundo nem de nós mesmos” (Para uma neurobiologia do eu: uma contribuição às teorias da subjetividade, 2010).

Foi o que aprendi com um enólogo; aliás, enólogos são seres capazes de nos mostrar que aprender com nossos outros sentidos, envolver nossos corpos com a pedagogia da vida, do mundo, é ato educativo possível. 

Aprendi que os vinhos servem para ressaltar nossos sentidos e não para entorpecê-los; que a dose certa, os aromas pertinentes em cada momento podem abrir em nós, percepções da realidade que nossos cérebros teriam que estar muito bem treinados para perceber sem a magia dos líquidos fermentados de Dionísio. 

Essas fermentações já foram usadas como alucinógenos, unguentos para as feridas dos soldados romanos, que a ocupação romana se dava com plantações de uvas nas terras conquistadas, que essas fermentações já serviram de estimulantes para os atores do teatro grego, para a cristianização das festas pela multiplicação da alegria, no milagre festivo que só alguém como Jesus poderia proporcionar, que os vinhos são a representação do próprio sangue do cordeiro na limpeza das impurezas dos pecadores, que se pode chegar até Deus através de uma taça cheia dessa bebida encantada nas barricas da magia. 

Aprendi que podemos perceber melhor o mundo melhor se adicionamos ao nosso processo de apreensão da vida pelo olfato, treinando-o nos vinhos, refinando sua percepção, relacioná-las aos aromas de nossa memória afetiva, para sentirmos todos os cheiros que compõem nossas vidas. Perdemos tantos aromas por deixar nossos olfatos adormecidos, perdemos de aproveitar mais essa parte do existir. 

Aprendamos o vinho para entendermos de geografia, de climas, de história, entendermos que cada terra dá as uvas a sua própria identidade, que cada cultura olha para seus vinhos a partir de suas próprias vivências, que podemos dar a volta ao mundo dentro de uma adega. Bebamos vinho para aprender as sutilezas do sol, dos ventos, as sutilezas dos invernos e dos verões nos parreirais da educação humana. 

António Damásio (neurocientista português) nos indica que nossa própria identidade é formada pela “memória do próprio corpo” (idem), ou seja, “tudo aquilo que o corpo foi e tem sido na sua relação com o conjunto de interação entre ele e o ambiente interno e externo”, nos indica ainda que “a subjetividade depende, em grande parte, das alterações que têm lugar no estado do corpo durante e após o processamento de um determinado objeto” (idem), quer seja aquilo que tocamos, cheiramos, olhamos, abraçamos, tudo isso, de certa forma, nos faz cultivarmos nossas almas. 

Eu abracei a pedagogia do vinho. Eu agradeço pelos ensinamentos dos vinhos. 

SOBRE GILVAN PASSOS:

Gastrólogo, graduado pela UnP (Universidade Potiguar – Laureate International Universities), e pós-graduado em Docência no Ensino Superior pela UnP; Consultor em Vinhos, Diplomado no Nível III “International Higher Certificate Wine by Wine & Spirit Education Trust (Londres) e pela International Sommelier Guild (Estados Unidos); Certificado como Winemaker (enólogo amador com produção de um vinho) pela Escola do Vinho de Bento Gonçalves – Serra Gaúcha (Brasil), e Expert em Champagne pela École du Vin de France (Paris); colunista da Revista Deguste. Autor do livro Despertar para o vinho e produtor do vídeo Viagem ao universo do vinho. Trabalhos realizados em hotéis, restaurantes, importadoras, lojas, vinícolas no Brasil e exterior.

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