Natural de Morrinhos (GO), cidade de 44 mil
habitantes a pouco mais de 100 km de Goiânia, Odair José apareceu na cena
musical brasileira quando a Jovem Guarda vivia seus últimos momentos.
Como Fernando Mendes e Paulo Sérgio, em suas
primeiras músicas seguia a linha de Roberto Carlos.
Só que os três eram menos “sofisticados” e
conseguiram atingir mais o povão do que o do então rei da música popular
brasileira.
O primeiro sucesso de Odair, “Minhas
Coisas” tinha muito a pegada de RC e já revelava o grande frasista que
consagraria o estilo do cantor goiano.
“Meu violão caiu de cima do armário, suas cordas
rebentaram, pondo fim a minha voz/o meu relógio com você se acostumou, depois
que ficou sabendo nada mais ele marcou”, escreveria o autor da canção, que tocou
bem nos rádios, na época.
Antes do sucesso com "Minhas Coisas", o
artista goiano gravou a música "Uma Lágrima", uma linda canção, com
um toque de poesia, que foi regravada em 2006 por Pato Fu, numa bela
versão.
Na década de 70 foi que Odair José se tornou
conhecido em todo o Brasil, com músicas falando de sexo, de prostituição, do
controle da natalidade e da vida das empregadas domésticas.
Ronnie Von, hoje apresentador de programa de
televisão, ao entrevistar o compositor de "Cadê Você" algum tempo atrás,
rasgou elogios ao compositor e o avaliou com um "cronista dos
comportamentos sociais"
“Deixe essa vergonha de lado, pois nada disso tem
valor, por você ser uma simples empregada, não vai modificar o meu amor”, foi o
refrão de um dos maiores sucessos de Odair, que a partir daí foi rotulado como
“o cantor das empregadas”.
Ele foi ainda mais longe quando compôs uma música
dedicada às prostitutas.
Na canção, conta a história de um cara que vai a um
puteiro pela primeira vez apenas em busca de sexo, volta porque sentiu saudades
e então anuncia: “Eu vou tirar você desse lugar e não me interessa o que os
outros vão pensar”.
Caetano Veloso, cantor e compositor
intelectualizado, um dos nomes mais respeitados da MPB, surpreendeu o Brasil no
início dos anos 70, ao dividir o palco com Odair cantando exatamente essa
música: “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar”.
Apesar de ser um cantor popular, com repertório
romântico, Odair José teve problemas com a censura quando estava no auge da
carreira. Teve mais de uma música proibida pela ditadura militar, como a
conhecida “Pare de Tomar a Pílula” (Uma Vida Só), que não agradou o governo por
protestar contra o uso de anticoncepcionais, quando as autoridades estavam
distribuindo comprimidos para controlar a natalidade.
Além de Deixe Essa Vergonha de Lado, Eu Vou
Tirar Você Desse Lugar e Uma Vida Só, Odair José compôs quando estava na
onda a celebrada “Cadê Você”, que seria regravada por Leandro e Leonardo, nos
anos 90, e também por Roberta Miranda.
Outros hits do cantor são "Tentei de
Esquecer", "Eu Você e a Praça" (regravada por Zeca Baleiro),
"Eu Queria Ser John Lennon", "Cristo Quem é Você" e
"Até Parece um Sonho", tema da novela Cabocla, que foi exibida pela
TV Globo.
"Cadê Você" é uma música muito simples,
com apenas três acordes e que fez sucesso tanto com o autor, quanto com os
outros intérpretes.
O fato é que Odair, hoje com 72 anos,
mas ainda em atividade, tem mais de 50 anos de carreira e em cinco décadas
gravou 37 discos, compôs mais de 400 músicas e foi um dos artistas destacados
no livro “Eu Não Sou Cachorro Não”, do jornalista e historiador Paulo César
Araújo.
Em 2006 o artista natural de Morrinhos foi
homenageado por 18 artistas do rock pop nacional que fizeram um tributo ao
“cantor brega”.
No álbum estão nomes como Pato Fu (Uma Lágrima)
Mombojó, Paulo Miklos (Vou Tirar Você Desse Lugar), Eu Você e a Praça (Zeca
Baleiro) e Mundo Livre S.A (Deixe essa Vergonha de Lado).
Zeca Baleiro, o grande nome da MPB, que
despontou nos anos 90, não apenas participou desse tributo, como produziu um
disco de Odair em 2012, dividiu palco com o goiano e compôs uma canção em que
chama o autor de “A Noite Mais Linda do Mundo” de poeta.
Odair também já dividiu o palco com a roqueira
baiana Pitty e durante o show cantaram músicas dele e pelo menos uma dela,
"Me Adora”, aquela com o verso "diga que me acha foda".
Voltando lá atrás, novamente, em 1977 Odair
José gravou o disco, uma “ópera rock”, intitulado “O Filho de Maria e José”.
"Maria e José se amaram e um lindo menino
nasceu
Depois eles dois brigaram e o menino sofreu
Maria seguiu seu caminho, José voltou pra Belém
E o pobre menino sozinho sofreu mais que ninguém
Seis meses na casa da mãe, seis meses na casa do
pai
E nessa roda da vida, a vida vai..."
Já na música título, como o leitor pode observar na
letra acima, ele toca numa questão delicada, mexendo com um dos dogmas da
religião cristã.
O cantor desagradou seu público, a crítica e
principalmente a Igreja Católica, que deve ter tido vontade de excomungar o
“cantor das empregadas”.
Duas décadas depois o disco seria visto com outros
olhos e recebido elogios de parte da crítica. “Eles não entenderam na época”,
diria Odair numa entrevista.
O que chama a atenção no artista goiano é que ao
contrário de outros grandes nomes do brega, como Reginaldo Rossi e Agnaldo
Timóteo, ele não é arrogante, não se acha o máximo e tem um discurso
inteligente e coerente.
Nos últimos anos , deu diversas entrevistas em
programas como o Estação Plural (TV Brasil), o já citado Ronnie Von, Jô Soares Onze e Meia,
Danilo Gentil, TV Cultura, sempre demonstrando ter conhecimento tanto de música
quanto da realidade social do país.
Numa dessas entrevistas, por exemplo, ele falou que
quando fez a música revelando a realidade das empregadas domésticas elas eram
como que “invisíveis”, verdadeiras escravas e só recentemente foram
reconhecidas e ganharam alguns direitos trabalhistas.
Ele disse também que quando compôs “Pare de Tomar a
Pílula” o assunto era tabu e atualmente até adolescentes vão à farmácia comprar
anticoncepcionais.
Enfim, o artista que começou seguindo a linha de
Roberto Carlos, chegou a gravar composições de Raul Seixas e foi rotulado como
brega, chegou aos 70 anos produzindo, participando de show até no Teatro
Municipal de São Paulo, como aconteceu na Virada Cultural de 2013, e
gravando discos novos, apesar da falência da indústria fonográfica.
Não faz muito tempo ele voltou a polemizar com “A
Moça e o Velho”, abordando o preconceito de idade na relação amorosa. No
CD de 2012 gravou músicas de Carlinhos Brow e Chico César, em 2015 lançou o
álbum “16” e no ano seguinte colocou no mercado “Gatos e Ratos”. Os dois
discos com um som mais rock roll, que podem surpreender quem só conhece o Odair
cantando para prostitutas ou empregadas domésticas.
O disco "16" tem uma
curiosidade. Na capa, em letra de máquina de escrever, o compositor
revela que nasceu num dia 16 de agosto. No dia 16 de abril de 1964
saiu o primeiro álbum dos Rolling Stones e no dia 16 de agosto de 1977 morreu
Elvis Presley.
São citados diversos outros fatos importantes que
aconteceram no dia 16, daí o título dado ao CD.
Odair José não gostou de ser chamado de “cantor das
empregadas”, quando fez sucesso com a música homenageando as domésticas, nem
aprovou o título de “Bob Dylan brasileiro”, quando lançou a ópera rock “O Filho
de Maria e José”.
Não aceita nem mesmo o rótulo de brega, que
considera pejorativo. Ele diz que admira Chico Buarque, o qual considera o
maior compositor brasileiro, mas sabe que muita gente gosta da música dele
(Odair) e não curte o trabalho do autor de A Banda, Cálice e Carolina.
“Brega é uma coisa malfeita, sem qualidade, e isso
tenho certeza não faço”, disse Odair José numa de suas entrevistas.
Aliás, ele gosta ou tenta se definir. Já fez isso
até numa música, intitulada “Assim Sou Eu”.
“Um andar apressado,
Um olhar tão distante
Um sorriso apagado,
Uma tristeza constante
Um rosto sofrido de alguém que muito
vive
Assim sou eu...
Esse é o Odair José

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