A GERAÇÃO DE EURÍPEDES

Um conto de Roberto Almeida

Foi no Recife, na Rua da Soledade, em frente a um sobrado utilizado como pensão para "moças direitas", vindas do interior, que recebeu a notícia da partida brusca de Miguel Calado.

Roberta, preocupada com as provas do vestibular, o sonho da universidade batendo forte no peito, pareceu nem crer na informação da mãe.

Ora, tenho todo o tempo pela frente, ainda desconheço a maioria dos bairros desta cidade imensa, vou percorrer ainda tantos caminhos, como pode alguém morrer agora, de maneira inesperada?

E Miguel Calado devia ter menos de 50 anos. Um homem mordaz, crítico, irônico, abusado até, para alguns... Como podia ir assim, antes do tempo, sem doença crônica visível, sem sofrer acidente, mais de 10 filhos pequenos para acabar de criar...?

Muitos anos depois, já formada, morando em outra cidade - Vila da Prata presente em todos os dias de sua vida -, ela lembraria que ele tinha sido apenas o primeiro a partir, sem avisos. 

Nem mesmo o sol quente de Ponta Negra, as dunas, o sorvete deliciosamente gelado, aos domingos, na área litorânea de Natal, seriam capazes de apagar aquelas lembranças.

Os velhos se foram um a um, numa rapidez impressionante. Como se o tempo tivesse perdido o freio. E os cabelos brancos aparecendo, atrás de pregar alguma peça. 

Mesmo que quisesse esquecer e renegar suas origens, estava lá sua mãe, seguindo a mesma vida de sempre, rodeada pelas comadres. E a irmã, funcionária da prefeitura, a enviar regularmente cartas (isso tudo foi muito antes do surgimento das tais de redes sociais) retratando as maldades dos colegas de repartição. Informando das políticas pequenas do lugarejo, das demissões e transferências patrocinadas pelos eternos coronéis.

Preferia, mesmo, lembrar Vila da Prata com os olhos de menina. Os velhos nas calçadas, como irmãos, e a criançada correndo atrás de bola, brincando de barra bandeira, milu, peteca, bandido e ladrão. 

Numa de suas férias, na casa dos pais, Roberta pôde ver de perto a despedida de Hermes Borrego, o segundo a deixar a confraria dos pioneiros de Vila da Prata.  Este, ao contrário de Miguel, não foi consumido nas intriguinhas da prefeitura, pois era homem de posses. Deixou para os filhos muitas casas e terras.

Foi abatido pelo cigarro e riu até o fim da própria doença, chegando a solicitar um dia uma espécie de prêmio aos vendedores da Souza Cruz. Pela força de vontade em teimar no vício. 

Quando o pai, olhos lacrimejando, confirmou o fim da via crucis do velho coronel, Roberta lembrou dos seus 14 anos e de uma festa no clube.  Hermes, com sua figura imponente, dominava o salão, distribuindo bebidas, confete, serpentina e as hoje proibidas lança-perfume. 

Uma das amigas de infância, Anita, ligava sempre,  de Salvador. Falavam da vida, de empregos. Os filmes, os livros, e nunca deixava de fazer uma referência qualquer aos rumos da terra natal. Ou ao passado das duas jovens no "Pequeno Cachoeiro" de Pernambuco. 

Augusto Bezerra, pai de Anita, era rechonchudo, brincalhão. Eternamente jovem, resolveu voltar a estudar depois que a escola de primeiro grau maior chegou à vila, nos final dos anos 60. 

O telefone tocou às 23 horas, quando Roberta estava assistindo um filme na TV. Já pensando em ir dormir, preocupada com as aulas do dia seguinte.

A voz da amiga parecia mais distante do que de costume e percebeu no primeiro instante um toque de tristeza. Seu Augusto, traído pelo coração estancara repentinamente toda a sua alegria, deixando a mulher, os filhos, a população do vilarejo e dos arredores decididamente mais pobre de esperança. 

Nem soube o que dizer, lembrando de fatos antigos, ditos engraçados; quando os velhos pareciam imortais, os jovens não sofriam do mal da solidão e o mundo parecia melhor. 

Quando pequena, apreciava as festas do mês de junho, as fogueiras e os balões. Sofria com medo das bombas e o temor aumentou quando jogaram uma delas (por pura maldade) na calçada da casa dos pais, provocando-lhe feridas no corpo em formação. 

Um dos tipos da pequena comunidade que mais chamava a atenção era o Ulisses. Nome de herói, de personagem de livro, em Vila da Prata não passava de um modesto contador de histórias, meio acomodado, no período junino fabricando fogos de artifício. 

Trabalhava então com a mulher, as filhas e um filho. Passadas as festas voltava a perambular de casa em casa, fazendo relatos. Substituía, na prática, a televisão e os jornais ainda ausentes do cotidiano do lugarejo. 

Do desaparecimento trágico der Ulisses soube por um jornal da capital. Explodira junto com a mulher e quatro filhos, às vésperas do São João, deixando a comunidade consternada e cravando a primeira página nos principais matutinos da capital. 

À margem do clube dos refinados, Ulisses iria fazer falta. Pelas tiradas espirituosas, pelas informações do jogo do bicho, pela cabeleira negra como a pele e a despreocupação com os bens nascidos.

Zé Preto se foi logo depois, sem alardes, como em vida. Quando foi comunicada pela mãe da viagem do padrinho, chorou um pouco, sem conseguir explicar a saudade dele e dos outros, inexplicavelmente arrancados do convívio do chão querido.

Ao contrário de Ulisses, tão esfomeado de palavras, Zé Preto parecia nunca abrir a boca, concordando sempre com a assertiva da mulher e das filhas. Apenas sorria e até o riso era curto, comedido, como se tivesse medo de se revelar através do contrário da dor.

Na viagem entre Natal e João Pessoa, pensava nos problemas de agora. As aulas, os jovens rebeldes, as cidades, a fumaça expelida pelos veículos e chaminés, as crianças pedindo dinheiro ou comida nos sinais de trânsito. 

O cinema, o teatro, a beleza do mar.

Os supermercados exorbitando nos preços, a prisão em função do futuro, as perguntas sem resposta em meio a arranha-céus, que surgiam sem parar em Natal, Maceió, Salvador, Recife.

Imagina em São Paulo, Nova Iorque, Londres, Paris.

O telefone toca, estridente, e o carro faz um rápida parada. Na pista duplicada há menos perigo e a facilidade do acostamento. 

A irmã gosta de ligar nessas ocasiões, acompanha minuciosamente os acontecimentos positivos e negativos da vila.

Geraldo, o mais politizado dos velhos, foi levado às pressas para o hospital de Granito, a cidade mais próxima.

Apesar dos médicos, dos remédios, das máquinas de oxigênio, não resistiu. 

O terceiro e último grande susto, os filhos já chorando, dona Aline viúva. Como Maria, Sônia, Natália e Carlota. 

Mês da agosto é de frio e desgosto, como costumava lembrar a mãe, cheia de respeito ao padre e aos ensinamentos da vida.

Geraldo foi embora em agosto. Dé Teixeira, Doca e Arnaldo também. 

Seu Dé,  alto, voz de trovador, acostumado a trabalhar com o ferro e o aço, pegando no pesado, assustando os menores ao andar arrastado, trajes desgastados, manchados de poeira, suor e graxa. Como os de Doca, o inventor, o Professor Pardal de carne e osso de Vila da Prata. 

Dé e Doca foram pobres a vida toda. Felizes por não carregar tantas bagagens, livres como as matas que contornavam o vilarejo.

Arnaldo, ao contrário, evoluiu de fiscal de rua a parlamentar, foi presidente da Câmara e quando cansou da vida pública instalou um empório na Rua do Açude. Comprou carro e ensinou os meninos a arte de comprar e vender.

Sentiu a morte de cada um. Pensar que eles nunca mais estariam presentes na festa do padroeiro, nas conversas da porta da bodega, nos invernos rigorosos, nas pegas de boi, nos comícios, nos campeonatos disputados no estádio municipal, no açougue, no mercado de farinha, nas reclamações da época de seca, nas feiras...

Pensava também nas Marias, Joana, Julinha, Santina, Severina, Arlinda, Adelaide... As viúvas de Vila da Prata. Mais tristes depois da viagem de cada companheiro de uma vida. Porém lúcidas, inquietas, cheias de fé e vontade de viver, apesar de tudo. Com muito mais ainda a oferecer ao lugarejo. 

...

Antes não havia celular, nem telefone convencional, parabólica, DVD, TV por assinatura, controle remoto, Netflix, WhatsApp, carro com alarme e vidro elétrico. Nada disso existia.

Hoje carregamos tudo isso na cabeça e não podemos viver sem os confortos da vida moderna. Perdemos o sono se falta o ar-condicionado ou pelo menos o ventilador de teto, instalado no quarto do apartamento.

O despertar na madrugada, com o chamado do telefone na sala, é sinal de coisa ruim.

Roberta atendeu assustada, ainda sonolenta, a voz da irmã revelou em prantos a dor daquele momento:

- ...Foi agora há pouco, nos meus braços - desabafou, desesperada. 

O pai sempre fora caladão, discreto, incompreensivelmente diferente da maioria dos homens do lugar. Trabalhara no campo, como vendedor numa loja de tecidos. Até estabelecer o próprio negócio. Com muita luta e sacrifício, economizando cada moeda, educou os filhos nos bons colégios de Granito. E quatro deles fizeram universidade. 

Ele se orgulhava dos meninos e da menina. Parecia uma criança quando foi às ruas, quase de casa em casa, para anunciar que sua moça tinha sido aprovada com louvor no vestibular.

Agora, o pai faria companhia a Miguel Calado, a Hermes Borrego, Dé Vieira, Ulisses, Doca, Arnaldo Teixeira, Augusto Bezerra, Zé Preto...

- Deus, nunca mais!

Pegou a estrada de madrugada mesmo, as lágrimas rolando pela face, uma angústia no peito, um vazio, a certeza de que algo dentro dela se partira.

Imaginou que podia ter convivido mais com o pai, ter sido mais presente, estar por perto na hora da partida.

Agora não teria mais sua mão, os seus olhos tranquilos, o seu olhar seguro sobre o mundo.

O quanto ele terá sonhado nesta vida? Quais os planos que fez e não conseguiu realizar? Estaria o pai satisfeito com os seus meninos, os caminhos que eles seguiram?

Nunca mais acompanharia pela televisão a seleção brasileira disputando uma Copa do Mundo. Nem atenderia um dos seus fregueses em seu empório, na Semana Santa, garantindo ser o peixe de boa qualidade. Nunca mais trocaria de carro, nem dirigiria o Fiat Uno até a capital, extremamente cuidadoso. E não visitaria mais os filhos, cada um correndo em busca do futuro, o suor escorrendo de tanta luta, somada ao calor intenso do litoral.

Pobre papai, de olhos tão tristes. Pobre mamãe, que ficou só. Pobre de nós,seus filhos, perdidos e agora sem ele para nos ajudar. 

Passados sete anos, numa viagem a Fortaleza, Roberta é avisada pelo telefone (sempre este aparelhinho, útil,  às vezes tão inconveniente e cruel),   da despedida de Andrezo Tenório. Ele que fora um dos primeiros administradores da vila. Um homem simples, de bom coração, sem deixar que o cargo lhe subisse à  cabeça. 

Que há anos estava de cama, sem poder caminhar pela ruas, como nos tempos em que determinou a construção do colégio e do clube municipal, este último exaltando na denominação a data de aniversário da independência do Brasil.

Não esteve em Vila da Prata, quando do último adeus a Andrezo, como não pudera se despedir pessoalmente de Miguel, Ulisses, Geraldo, Dé Vieira, Doca...

Mas, ao pensar em Andrezo, lembraria quando na igreja (sete anos atrás), uma das filhas do ex-prefeito da vila fez no altar a leitura de uma carta emocionante.

Palavras bonitas, sinceras, de um homem que estava preso a uma cama, sem deixar de acompanhar os fatos que se desenrolavam na comunidade. 

Ele, possivelmente, já devia imaginar que em menos de cinco ou dez anos estaria novamente ao lado do amigo.

Na certa o relembrava moço, chegando ao arruado. Namorador, embora sisudo. Sério, honesto.

Andrezo, através da filha, falava por todos de sua geração. E escolhia a figura de Eurípedes como símbolo daqueles que nos anos 40 e 50 eram jovens, divertindo-se no carnaval, nos arraiais juninos e nos campeonatos disputados no campinho por trás do colégio. 

Já se foram quase todos. Um dos últimos foi Paulo Preto. Até pouco tempo, aos 108 anos, numa cadeira de rodas, lúcido, sem querer ir embora. Lembrando de quando chegou à vila, menino de calças curtas, uma árvore plantada nas proximidades da cacimba, as casas brotando em redor da misteriosa fonte de água barrenta, sagrada, que prendia as pessoas ao lugar.

Impaciente com o calor sufocante, estressada com o trânsito repetitivo de todo santo dia, irritada nas intermináveis filas dos supermercados, cansada das caras mau humoradas e sem tesão para os mesmos filmes americanos ou os amadorismos do teatro local, Roberta resolveu dar um tempo. 

Deixou o carro na garagem do prédio, as roupas nas malas e gavetas, as poucas joias em cima da cômoda. Mesmo os livros e discos, muitas vezes importantes, ficaram jogados na estante. Pegou um táxi, um ônibus na rodoviária, retornando sem avisos, no caminho de Pernambuco.

A mãe recebeu Roberta com um terno sorriso e só depois perguntou por que a filha  chegara assim, como que de sobressalto. 

E o emprego, os compromissos, acontecera alguma coisa?

Nada não, apenas estava com saudade. Parece até que nunca cortei o cordão umbilical, nem mesmo saí do útero materno. 

Triste sina. Mesmo no dia de chegada, logo depois dos cumprimentos, da expressão da felicidade materna, Roberta tomou conhecimento do adeus definitivo dado pelo povo ao senhor Lourenço Cordeiro.

Recordava dele do mesmo jeito que lembrava do seu pai. Os dois com a cabeça branca, o mesmo tipo físico, o mesmo esforço para educar bem os filhos. 

Eurípedes mais sério, mais distante.

Seu Lu um conhecido brincalhão, espirituoso. 

Os dois tiveram bodega, a mesma origem rural e na vila trataram de empurrar os filhos por caminhos diversos dos seus. 

Os filhos de Lourenço Cordeiro: o dono do bar, alegre como pai, dois deles ganhando a vida como motoristas, as meninas trabalhando como professoras, um deles seguindo as pegadas dos meninos de seu Eurípedes, conseguindo cursar faculdade de direito na capital.

Roberta deixou a mãe cuidar dos afazeres da casa, a labutar na cozinha, e procurou a janela da sala. Abriu o postigo e olhou minuciosamente a rua. A praça nova, mesmo esboçando certa graça, não dizia muito de sua infância e a ausência de moleques na calçada mostrava as mudanças ocorridas na vila.

Ela, então, os olhos marejando, viu aquilo que o coração pedia: tudo como antigamente, o palanque da pracinha refeito, bancos de sentar, meninos e meninas correndo livremente e os velhos tirando um dedo de prosa por perto.

Estavam juntos novamente: Miguel, piscando os olhos, sempre crítico; Hermes cheio de si, com ares de dono do pequeno vilarejo; Augusto redondo e bonachão, Zé Preto calado e Geraldo dando risadas espalhafatosas, depois de mais uma de suas piadas.

Doca ajeitava os óculos, Dé Vieira batia com um martelo numa barra de ferro, enquanto Ulisses parecia anotar tudo num caderno invisível para transformar em notícia que seriam espalhadas nos quatro cantos de Vila da Prata.

Pôde ver também Adalberto (um pouco mais magro e de óculos), Superpino, Seu Farias, Olegário, Lau, Né Barra (o marcador de quadrilhas juninas), o sempre bem humorado José Baié, Genésio, o Coronel João Cícero, Dona Josefa,  Nanu e a boa a negra Olívia.

Elói acompanhado da filha Maria, de Lia e perto deles um grupo de gente mais jovem, alguns vítimas de assassinatos violentos, que chocaram a província: Adelson, Olavo, Jailson, André, Natércio, Toinho e Zenildo. 

Ainda viu, em meio aos velhos da Geração de Eurípedes, um outro bando de jovens que se despediram precipitadamente - cada um a seu tempo - da bucólica Vila da Prata: Zé Braz, Vardinho, Cícero, Heleno, Everaldo, Demi, Pedrinho, Ivan, Marcondes, Wellington,  Heleno Gordo, Neilton Dêinha, Lecinho, Arnon, Valdeci, Valdésio... O palanque quase não conseguia abrigar todos eles. 

Será que Deus resolvera convocar uma reunião para  discutir a próxima festa do padroeiro? E assim juntara aquela gente novamente, sem se importar com datas e a idade de cada um?

Eurípedes apenas ria, tímido, na companhia de Lourenço e Andrezo, este outra vez o líder moderado, o administrador, capaz de comandar sua tropa naquele último encontro, no palanque recém construído. 

Eles não pareciam estar preocupados com o que acontecia à sua volta.  Mas olharam a janela e viram Roberta. Acenaram e sorriram, como se dissessem que estava tudo bem. 

Ela como que entendeu. E engoliu o choro, sem saber se era possível, diante daquela visão, estancar a tristeza e a saudade grande daquele povo simples.

A mãe chegou e as duas se abraçaram, como se uma entendesse a outra.

Como se naquele dado instante adquirissem a consciência de que os filhos e netos substituem os velhos, e é só isso mesmo, aí está todo o sentido da vida.

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