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domingo, 24 de março de 2019

UM CAUSO NA NOVA COMARCA DE CAPOEIRAS


Por Junior Almeida

É muito comum na justiça brasileira, alguns juízes acumularem funções em seus fóruns. Eles se desdobram para atender as varas de família, eleitoral, criminal e cível. Capoeiras, como a imensa maioria das cidades do interior do país, isso é rotina, desde que foi criada a sua comarca. Adalberto Bezerra de Melo, antigo oficial de cartório da cidade, empresta o seu nome ao fórum local, onde funcionam além das varas de justiça, promotoria e dois cartórios.


Iniciado pelo então prefeito Manoel Reino, o fórum local só foi inaugurado na gestão de Carlos Batata em 18 de agosto de 1989. Nos primeiros dias de funcionamento era muito comum de pessoas irem visitar as dependências do novo órgão, apenas para ver a novidade. Nos primeiros julgamentos que aconteceram em Capoeiras, as bancas da sala de júri ficavam lotadas de curiosos assistindo os debates de advogados e promotores. Tudo era novo. Em rodinhas de bate papo, se discutia dentre outras coisas, as penas aplicadas a quem tinha caído no banco dos réus. Para a administração da época, ter uma comarca no município era motivo de orgulho, mais ainda tendo um juiz morando na cidade.


O fórum de Capoeiras, era para o executivo local a confirmação que o progresso estava chegando à nossa terra. Para as pessoas que deixariam de resolver seus problemas com a justiça em cidades mais distantes como São Bento do Una, Garanhuns e outras, também a comarca era uma conquista importante. Só que para a maioria das pessoas, que viviam de maneira simples na roça, o fórum era um prédio como qualquer outro.


A construção, a festa pomposa de inauguração, e mesmo toda aquela badalação com os julgamentos, não iria mudar em nada a vida daquelas pessoas. Entre os que pensavam assim, existia em um dos mais de cem sítios do município um agricultor que vivia da roça e de uns bichinhos que criava. De oito em oito dias ia à feira de Capoeiras vender a sua pequena produção de queijo e fazer a feira de casa. Vez por outra ia à Garanhuns, comprar alguma coisa que não tivesse em sua terra. Pai de três filhas moças, esse roceiro vivia sossegado até o dia em que um rapaz filho de um compadre e vizinho de suas terras veio de São Paulo para passar uns tempos com o pai. O moço de 24 anos vivia daqui pro Sudeste e, nessa vinda começou a namorar com a filha mais velha do agricultor, que na época tinha 19 anos. 


No começo tudo bem, pois os vizinhos eram amigos, e faziam muito gosto nesse namoro, mas, com o passar do tempo, o pai da moça começou a desconfiar que o namoro estava avançado demais para seu gosto. Conversou com a esposa, e foram às perguntas a filha. No início ela negou, mas diante da forte pressão, confessou ter “se perdido” com o namorado. Ele, o pai, entrou em desespero, pois achava que aquilo seria uma desonra pra ele e sua família. A filha chorando com medo do pai, disse que não queria, que praticamente tinha sido obrigada a transar com o namorado.


-“Entonce” foi “estrupo”. Tá vendo “muié”? Aquele cabra safado “estuprou” a nossa “fia”. Pegou ela a pulso!  Disse o aflito agricultor, a ouvir as palavras de sua filha.


Ao saber da notícia da filha desvirginada, o agricultor resolveu ir à casa do compadre e vizinho tomar satisfações com o responsável pelo fato. Chegando lá, na boquinha da noite, o rapaz não estava em casa, e o roceiro resolveu relatar o ocorrido ao pai dele.


-Compadre fulano, minha “fia” foi ofendida. Seu “fio” foi quem comeu. O que é que nós vamos fazer com eles? Quis saber o aflito Homem.


A revelação pareceu não ter surpreendido o pai do Dom Juan, que como se esquivasse da situação, foi logo dizendo que os dois eram maiores de idade, que sabiam o que estavam fazendo, e que o seu filho tinha sido chamado para um novo emprego em São Paulo, que tinha, inclusive viajado naquela manhã para a Capital Bandeirante. Com a conversa do compadre, o roceiro se aperreou mais ainda e, resolveu que aquilo não poderia ficar assim.


Saiu da casa do vizinho muito transtornado, pensando em fazer besteira. Passou a noite em claro, chegando a chorar pela filha não ser mais virgem. De manhã cedinho, se banhou e foi à cidade procurar resolver a questão na justiça. Primeiro foi na delegacia, ao lado do mercado de cereais, mas como estava fechada, resolveu ir ao fórum dar queixa ao juiz. Atendido pelos funcionários do fórum, ele disse do que se tratava, e algum tempo depois falou com o magistrado. Ao juiz o roceiro disse que sua filha tinha sido seduzida, praticamente pega à força, que queria que o rapaz fosse acusado de estupro. O doutor juiz, pacientemente, explicou para o agricultor, que teria que ouvir a outra parte, que ele juntasse as suas testemunhas do fato, que em duas semanas ouviria todos e decidiria o que seria feito. 


Ele voltou pra casa, e nessas duas semanas não falou com seu vizinho. O clima era de hostilidades entre as duas famílias. A jovem “ofendida” só chorava. Mais de saudade do namorado, e a frustração de não tê-lo como marido, do que com a perda da virgindade. No dia marcado as duas famílias e mais alguns vizinhos estavam no fórum, menos o rapaz que viajara pra São Paulo. Ao todo umas vinte pessoas estavam no corredor do fórum para resolver a questão.


Ninguém se encarava. Na hora de entrar na sala do juiz, apenas os dois casais, pais dos namorados. A moça desvirginada, suas duas irmãs, três tias e mais alguns vizinhos, bem como uma boa parte da família do rapaz ficaram de fora, para que se fosse necessário, entrar aos poucos na sala de audiência. O magistrado mandou primeiro os pais da moça desvirginada falar, e o pai insistiu na tese do estupro, a mãe amenizou, e deu a entender que a filha fora seduzida. O juiz ouviu, e em seguida mandou o outro casal falar. Esses alegaram a maior idade do filho e também da moça filha do casal de vizinhos. Ao ouvir a versão dos compadres, o pai da moça exaltou-se dizendo ser mentira o que o homem falava. Um bate boca iniciou-se, só terminando com a fala firme do juiz, que ameaçou prender todo mundo. Depois dos ânimos acalmados, o doutor quis adiantar a audiência, e falou:


-Mande entrar a testemunha arrolada.


O pai da noiva parecia espantado com as palavras do juiz, chegou a arregalar os olhos, mas não disse nada. Ficou calado. A secretária do magistrado foi à antessala e chamou uma testemunha. Uma jovem que era vizinha dos dois casais que ali estavam, e era também prima da moça desvirginada. Ela foi conduzida à mesa para prestar o seu depoimento. Vendo a sobrinha na sala o pai da moça “ofendida” deu um pulo da cadeira que estava sentado, e muito agitado falou:


-“Dotô”, tá errado! A rolada não foi nessa aí não. Essa aí é minha sobrinha. A rolada que o cabra deu foi na minha “fia”, não na minha sobrinha!

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