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segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

MEMORIAL DE DEZEMBRO - Roberto Numeriano



Não tenho ilusões de final de ano.
Não guardo orações especiais a Deus.
Se Deus me escuta, saberá entender o meu silêncio.
Também não faço planos.
Muito menos, fantasio qualquer amor ideal.
Se acaso alguém no tempo me deixou para trás,
        não me quedo em ressentimentos.
Tampouco aceito o dedo acusador de culpas que jamais serão minhas.
Reservo-me apenas o livre-arbítrio de sonhar,
antes que os fascistas batam à minha porta
Decretando o fim irrevogável das utopias.
Guardo-me ainda das ilusões de regenerar
        a humana espécie de seus pecados capitais.
(Quem sou eu, de mísera alma, a pretender
recriar o meu próximo, que às vezes nem enxergo
Nas multidões cheias desse vazio de existir?).
Não me iludo com planos de sociedades, secretas ou anônimas,
        se sei que o dinheiro é arma de qualquer negócio.
Não imagino messias redentores à esquerda,
        muito menos à direita.
Não pretendo cabalar o divino, esconjurar demônios,
        profetizar tempos de vacas magras ou gordas.

O que faço é me calar nestes dias de dezembro.
E vagar pelos céus agrestes meu olhar mesmo.
Vislumbro planetas, a lua melancólica, as estrelas no tropel das constelações.
As horas, então, inexistem.
Os segundos são quimeras.
Sequer eu existo.
E me quedo sorrindo para o céu profundo,
        resplendendo num fulgor negro de luzes.
Penetro assim o eterno, manto incorpóreo infenso
aos calendários, às memórias de família, aos amores perdidos,
Às mortes e nascimentos.

Talvez Deus aí habite.
Talvez a vida aí pulse.
E todo dia seja 31 de dezembro.
E toda eternidade seja 1º de janeiro.

Recife/PE, 20/12/2018.


*Roberto Numeriano é escritor e autor dos romances Nuvens Vermelhas, Céu de Santo Amaro, As Águas do Fim do Mundo e Folhas Mortas.

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