sábado, 22 de dezembro de 2018

GARANHUNS "ACESA" PARA O NATAL - Por Gerson Lima


 Ao começar o mês de dezembro, a Rádio Difusora laçava no ar seus inúmeros anunciantes propagando suas mensagens natalinas. O fundo musical era sempre extraído dado disco Harpa Natalina e as vozes dos comunicadores da época revezavam-se com os mais efusivos votos de Boas Festas e Feliz Ano Novo. 

Esse era o primeiro sinal de que o Natal se aproximava. Então, tudo virava preparativos num burburinho de gente correndo para as Casas Zé Araújo, aproveitando-se dos “queimas” promocionais, a nossa Black Friday de décadas atrás. 

Ali se comprava chitões, Terbrim, Mescla, Popelini e o Tergal sempre deu boas calças e paletós. A preferência do Linho ficava entre os mais caprichosos e abastados. O mesmo se dava na Loja G. Cunha. A mando das costureiras, os aviamentos podiam ser comprados em Michel Zaidan ou Jaime Pinche. Os homens preferiam muito a Sapataria Moderna que expunha logo na entrada do estabelecimento, na esquina com a Rua Dom José, Chapéus Prada enquanto a vitrine era repleta de sapatos Vulcabrás. Já os Capotes Serranos eram expostos no Armazém Avenida,bem ao lado da Casa Combate que por si pendurava guarda chuvas e sombrinhas coloridas, além de chapéus de marca mais simples. 

Quem podia comprava na Loja Jóia Magazine as famosas camisas Volta ao Mundo. Elas existiam em mangas compridas e curtas, branquinhas e bonitas. Já os móveis e eletrodomésticos ficavam por conta de  Ferreira Costa e S. Moraes. 

Na Livraria de Manoel Golveia, viam-se expostos os mais belos cartões de Natal. Era ético, solidário e cheio de ternura enviá-los a amigos e parentes saudando ao Natal e Ano Novo. No espaço da Avenida Santo Antonio tudo ia se apertando com o pessoal do Parque Serrano instalando os brinquedos na parte superior da avenida. Assim também iam providenciando os donos de barracas de jogos, comidas e bebidas. 

Costumava-se reservar uns trocadinhos para perdê-los nos bingos chamados num microfone enrolado com uma flanela e alguns varavam a madrugada sem apontar ganhadores. O artesão Pantaleão dava os últimos retoques nas figuras que compunham o  Presépio. O  quadro do Nascimento de Jesus era colocado na plataforma da Loja Flores de Abril e sempre chamava a tenção pelo tamanho e perfeição das figuras. 

A  essa altura a Prefeitura já estendia os cordões de lâmpadas por toda a Avenida Santo Antônio. Dependendo do capricho do prefeito, estrelas, anjos e sinos confeccionados em compensados eram afixados nos postes  do centro da cidade. Duas torres de madeira e carregadas de lâmpadas coloridas afixadas em bocais de louça anunciavam a chegada do Natal e do Ano Novo. 

A festa estava pronta e o resto era com o povo. E a população fazia a sua parte convergindo para o coração da cidade nos dias cruciais da festa. No beco em frente ao Cinema Jardim, instalavam-se as barracas mais populares e já a partir das cinco da tarde o cheiro de caju, manga, abacaxi outras frutas, misturavam-se ao de tripa, passarinha e carnes diversas assando. Então, o Alto Falante da Roda Gigante, tascava uma música de vez de Roberto Carlos e as sequencias musicais eram entrecortadas pela voz fanhosa do locutor que, trancado numa cabine de lata atendia aos bilhetinhos apaixonados:“ Atenção, muita atenção  A. M.S, que está de blusa azul e  saia plinçada. Escute esta linda gravação como prova de meu amor. Assinado: .L. J.S. 

O estribulim era uma espécie carrossel empurrado à mão. No centro um sanfoneiro e seus ajudantes puxava o fole e quanto mais bebiam os empurradores, o troço rodava numa velocidade deixando impossível ficar em pé quem dele descia após a corrida. A Banda Manoel Rabelo já estava lá no centro do Largo do Colunata, com seus músicos de quepe brilhoso e fardamento impecável azul marinho, sob a batuta dos maestros que se sucederam ao longo dos anos. 

Um dobrado atrás do outro até chegar o momento da Missa do Galo ou da Passagem de Ano. ”Faltam só 10 minutos para virar o ano! Diziam alguns apressados em direção a Catedral de Santo Antônio para assistir a Missa da Virada do Ano. Dito e feito. O sinal era ver a banda se deslocar em marcha, onde mais alto do que os demais integrantes, via-se o bojo da Tuba de “Correntão”, brilhando à base da caprichada pasta de Caool. 

Seguiam decididos em direção ao altar montado na escadaria do Templo. Doze horas em ponto, Garanhuns fechava os olhos num simbolismo unânime em todos os lares. Um minuto apenas de escuridão e que mais parecia uma eternidade em meio a fogos, gritos de euforia, lágrimas, reflexões, sonhos rezados e as melhores expectativas de um ano bom. O Ano velho ia embora em meio à escuridão para nunca mais voltar. 

O ano Novo, chegava com o reacender das luzes,  toque do sino e abraços entre as pessoas com ares de velha amizade. Naquele instante tudo passava a ser novo. Noutro tempo era hoje. Tendo no DNA do Magia do Natal de agora, a ancestralidade desses idos de natais passado.  Só para mostrar  que em Garanhuns essas festividades sempre tiveram algo de telúrico, profano, sagrado e poético. 

Separando os parâmetros de tempo,   permanece o mesmo sentido somados à sofisticação e ao entendimento dos dias atuais. Eis aí a cidade enfeitada, recantos banhados de luz, encantos de toda sorte. A cidade se acende como se reacendem todas as nossas esperanças nessa época do ano. Evitamos discutir a dialética da maior festa do Mundo Cristão, limitando-se ao processo pelo qual se levanta sim, a auto estima de um povo. 

A cidade escancara portas e braços para um abraço a quem chaga. Do alto da torre da Catedral, vejo que Santo Antônio mostra ao Menino Jesus a sua festa de aniversário. Noto uma perninha diante da outra como se o Moleque Divino quisesse espernegar para correr pelas ruas e tocar as luzes numa travessura humana... Burburinham as praças, restaurantes, bares, hotéis. 

A música se espalha no ar onde se canta e dança sem o desassossego da timidez. Há ânimos em todo que parece ganha e tudo vida e vira brinquedo pra a gente brincar, porque não há nada mais doce e infantil para o ser humano do que sentir-se criança outra vez. Vejo nas “selfes” de famílias algo que carrega luz para a retina da alma numa vaidade sem pecados e sem culpa. 

Gostamos de uma Garanhuns exposta ao que tem de melhor. O mais importante é o atrevimento de se mostrar grande, expressiva em suas nuances de cidade bela. A conta à gente faz uma vaquinha e paga. Sempre foi assim até quando não tinha nada. Bem mais que as praças, é bom que nos enchamos de luz e que dos olhos saltem a nítida alegria que possa se derramar rua à fora nesse cortejo que embala a alma de amor intenso. 

Meus aplausos.

*Gerson Lima é radialista. Uma das melhores vozes, um dos melhores textos e um dos comunicadores mais completos de Garanhuns.

Um comentário:

  1. ESSE CABRA É DOS MEUS!!! PROFISSIONAL QUE ESBANJA TALENTO!!! É UMA PENA UMA PESSOA TÃO GABARITADA COMO GERSON LIMA, NÃO SEJA MELHOR APROVEITADO EM NOSSA CIDADE POR QUEM DE DIREITO... QUE PENA!!!

    P.S.: - ÀS VEZES FICO A ME PERGUNTAR: PARECE QUE A INVEJA, AQUI EM GARANHUNS, PERSEGUE O TALENTOSO, E O PIOR: ALÉM DO POUCO-CASO QUE FAZ, AINDA O BOICOTA...

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