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quarta-feira, 26 de setembro de 2018

A AMEAÇA À DEMOCRACIA BRASILEIRA - Por Michel Zaidan Filho


A opinião pública brasileira está sendo empurrada para uma falsa e artificial contradição ente dois   fundamentalismos: um de direita e um de esquerda.

Esta   leitura é conveniente para aqueles a quem beneficia tal quadro reducionista e equivocado da política   do país. De um lado, nos   acostumamos a interpretar esse   discurso raivoso e do ódio   dos eleitores do   deputado Jair Bolsonaro como uma modalidade de fundamentalismo de direita, ultraconservador, apoiado por algumas igrejas. De outro, um discurso antipetista e antilulista que considera a   candidatura   de   Fernando Haddad (PT) uma mera ventriloquia de LULA e do Partido dos Trabalhadores.

Discurso aparentemente sedutor   que mais   esconde do que revela uma outra modalidade de fundamentalismo, que não é tão evidente   para   a sociedade. O fundamentalismo neoliberal, que está por trás   do   debate dessas   eleições, mas não   aparece nem nos debates nem na propaganda eleitoral. Ora, a destruição de direitos, a   venda do patrimônio público, o ataque frontal às liberdades civis e a liberdade de expressão e do livre pensamento interessa, sobretudo, ao mercado, às empresas, a banca e a burguesia cosmopolita do país.

Neste sentido, o que ameaça mesmo a democracia não é tanto a pantomima de um candidato descontrolado que profere sandices e idéias contra sensuais. 

O maior perigo para a democracia e as liberdades públicas é o que vem atrás, instrumentalizando o discurso da raiva e da frustração política.

Aprendemos que os grandes interesses econômicos não têm pátria nem compromisso com os ideais democráticos, tanto podendo apoiar um general (ou um capital de Exército), como um líder popular, desde que isso não coloque em risco a sua agenda de negócios.

O grande capital nunca fez profissão de fé democrática ou coisa que o valha.  Depende da oportunidade de maximização de seus interesses. Na presente conjuntura   de crise de legitimidade do regime democrático, onde candidatos fazem abertamente propaganda pelo golpe e o descumprimento da Constituição, imagina-se que o portador desses   interesses econômicos pode ser, sim, um candidato que represente hoje a negação de todas   as conquistas sociais e democráticas de 1988. O momento é propício ao   desmonte da institucionalidade democrática e seus avanços políticos. Numa a   democracia se apresentou tão frágil e deslegitimada como agora.

Investimos, com razão, contra o fundamentalismo religioso e de direita que parece crescer em nosso país. De fato, ele representa um enorme obstáculo à realização das promessas democráticas da Constituição de 1988. Mas   não podemos perder   de vista que tanto ele, como o fundamentalismo laico da direita xenófoba, misogínica e homofóbica pode estar a serviço do fundamentalismo do mercado.

Nunca a nossa democracia esteve tão ameaçada como hoje.   Poderia  dizer,  por todos os lados. A frase célebre de Sérgio Buarque de Holanda que diz   ter  sido sempre a   democracia um  profundo mal-entendido no Brasil  poderia ser completada pelo estranho e assustador ressentimento que   se avoluma contra ela, entre nós.

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