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sábado, 1 de julho de 2017

SESSENTA ANOS DO ASSASSINATO DE DOM EXPEDITO LOPES

Por Junior Almeida

Há exatos 60 anos as pessoas do mundo inteiro recebiam perplexas uma notícia oriunda de Garanhuns, que as deixaria inteiramente chocadas, que nas "Terras das Sete Colinas", só o episódio da hecatombe em 1917, tinha causado tanta comoção e repercussão. Trata-se da notícia da morte do 50 bispo de Garanhuns, Dom Expedito Lopes, assassinado a tiros pelo seu subordinado, o desequilibrado padre Hosana de Siqueira.

Casos como esse são raros na história, sendo o crime de Garanhuns apenas o terceiro conhecido no mundo. O primeiro foi em Paris, em 1857, quando um padre de nome Louis Verge matou a punhaladas, na igreja de Santa Madalena o arcebispo Dom August Sibour. O segundo foi em Madrid, capital da Espanha, em 1886, quando o abade Galleote Costela assassinou a tiros o bispo de Madrid, Dom Martinez Izquierdo, e o terceiro, a morte de Dom Expedito, assassinado pelo padre Hosana de Siqueira, que levou o nome de Garanhuns para as páginas policiais dos jornais do mundo inteiro.

Padre Hosana de Siqueira Silva era pároco de Quipapá, que pertence a Diocese de Garanhuns, e vivia amancebado sua prima, que alguns diziam ser sobrinha, Maria José Martins, inclusive essa morando com ele na casa paroquial daquela cidade. Todos na localidade sabiam sobre o dito romance, mas, por temerem o temperamento forte e comportamento violento do padre, a maioria das pessoas se calava.

Além de viver maritalmente com uma mulher, o religioso também era relapso com suas obrigações sacerdotais, deixando de celebrar missas nas capelas das comunidades rurais, revoltado os fiéis. Padre Hosana na época estava mais interessado em cuidar do rebanho de uma fazenda que tinha comprado em um município próximo, do que do rebanho da Igreja, o rebanho do Senhor.

Dom Expedito Lopes ficou sabendo das falhas do subordinado, das faltas nas missas e o romance com a prima, e chamou o padre Hosana para esse lhe desse explicações. O sacerdote mentiu. Negou que tivesse um romance com sua prima. Segundo o padre Hosana, ele era vítima de infames boatos, espalhados por pessoas que queriam o afastar da paróquia de Quipapá, principalmente do sacristão Luiz Gonzaga de Oliveira. O bispo exigiu o imediato afastamento do padre e a moça, essa já grávida de Hosana. No seu ultimato, Dom Expedito ameaçou suspender de ordens o padre Hosana, que sem opção, retirou a “prima” de Quipapá.

Como diz o ditado popular de que “pau que nasce torto nunca se endireita”, sem demora padre Hosana colocou outra mulher na casa paroquial, uma moça de nome Quitéria, sendo essa, mais jovem e mais bonita do que a prima Maria José, que já não vivia mais em Quipapá. Não demorou e Dom Expedito ficou sabendo do novo romance do padre, e o convocou imediatamente uma conversa definitiva.

O bispo deu quinze dias para que Hosana resolvesse a delicada situação, afastando de vez Quitéria da casa paroquial e de sua vida. O intransigente padre Hosana não obedeceu, e no dia 10 de julho de 1957, dia seria publicado o ato episcopal suspendendo as ordens sacerdotais do padre Hosana, ele armado com um revólver Taurus, calibre 32, se dirigiu à Rádio Difusora de Garanhuns, atualmente Rádio Jornal, na praça do relógio de flores, onde pretendia “limpar seu nome”, rebatendo as acusações do bispo que segundo ele, eram caluniosas.

Na Rádio Difusora, padre Hosana não teve voz, pois os funcionários da emissora não permitiram que ele falasse. Enfurecido, o religioso foi até o centro da cidade a fim de acertar suas contas com o bispo.  No Palácio Episcopal, vizinho a Catedral de Santo Antônio, a porta foi aberta pelo próprio Dom Expedito, que foi atingido de pronto pelos disparos do [revólver calibre] 32 do padre Hosana. Algumas versões dão conta de que os dois sacerdotes discutiram feio antes dos tiros, porém, a versão mais aceita é a primeira.

Dom Expedito foi levado às pressas para o Hospital Dom Moura, mas não resistiu aos ferimentos, morrendo na madrugada do dia 2 de julho de 1957. Em seu leito de morte, o bispo piauense ainda brincou com os onze padres que o acompanhavam, dizendo:

        -Já viram, que coisa feia um bispo gemendo?


TESTAMENTO

Com a morte de Dom Expedito, foi divulgado depois o seu testamento, encontrado em seus aposentos, não se sabendo exatamente o momento em que ele foi escrito. Dizia o documento:

Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo, declaro que, tendo nascido pobre, vivi sempre pobremente, esperando morrer ainda mais pobre, de coisa alguma disponho para legar. Tudo quanto se encontra sob meu nome pertence à Diocese, com exceção de alguns pequenos objetos cujo destino será indicado abaixo e dos meus livros que deverão constituir a biblioteca do Seminário de Nossa Senhora Medianeira, de Oeiras (PI).

Aceitando desde já, com o mais completo e absoluto espírito de filial submissão, a morte que Nosso Senhor me houver designado, ofereço minha vida pela glória de Deus e salvação das almas.

1 - A minha cruz peitoral que me foi oferecida pela Paróquia de Sant'Ana, Licânia, bem como o anel oferecido pelo Seminário de Sobral, deverão ser restituídos aos mesmos como lembranças do seu 1º Bispo.
2 - A cruz peitoral do diário, o anel e o báculo deverão ser entregues ao Museu Diocesano de Oeiras, juntamente com as mitras que me foram oferecidas pela prefeitura daquela cidade.
3 - Ao Papai e aos meus irmãos sejam entregues a imagem de Nossa Senhora de Fátima, o meu relógio de bolso, os meus terços e o crucifixo.
4 - O dinheiro existente no cofre corresponde aos diversos saldos constantes do livro de conta corrente e o restante pertence à Obra das Vocações Sacerdotais.
5 - Na esperança de vir a morrer sem dinheiro, sem dívidas e sem pecados nada mais tenho a pedir senão que rezem muito para que Nosso Senhor nos conceda santos sacerdotes.

Dom Francisco Expedito Lopes.

*Um dos bons livros sobre o triste episódio, é "A Bala e a Mitra" (foto 2), de Ana Maria César, filha do juiz do caso.

**Outras informações sobre o caso no Facebook da Catedral de Santo Antônio clicando aqui.

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