MEMÓRIAS DA VIDA NO HOSPITAL - 5ª PARTE

Como já informei nesses relatos, a maioria das pessoas que vai parar no 5º andar do Hospital da Restauração é vítima de tiro ou acidente de moto. Mas também temos os pacientes que estão em tratamento por conta de um Acidente Vascular Cerebral (AVC), a retirada de um tumor ou caso inesperado, como o de um rapaz de Belo Jardim que levou uma queda do skate, bateu com a cabeça e ficou seriamente lesionado.

Ele foi internado na enfermaria 505, tendo como acompanhante a sua mãe, Neide, que tinha deixado outros dois filhos em casa para cuidar do seu garotão. Este era muito simpático, usava cabelos longos encaracolados e estava sempre sorrindo, como se não tivesse lhe acontecido nada.

Infelizmente, a queda do brinquedo teve sérias consequências e pelo menos um dos olhos foi afetado de modo irreversível, deixando ele com apenas 50% da visão.

A maioria dos pacientes tinha mais de uma pessoa para cuidar de si. Lucimar se revezava com as filhas para acompanhar Kleber, Silvia, sua mãe ou uma sobrinha estavam ao lado de Márcio e assim por diante.

Apenas no meu caso Tereza “segurou a barra” quase que o tempo todo sozinha e só teve uma pequena folga quando Roberta ficou uma noite comigo e na semana em que fui operado ela veio para Garanhuns recuperar as forças e ficar com Carolina, com apenas 15 anos e sem a presença dos pais durante todo aquele período.

Minha pequena sofreu calada e ainda hoje está lutando para se recuperar daquela guinada inesperada em sua vida, quando tudo parecia se “desmanchar no ar”.

Carol fez o 1º ano do ensino médio no Colégio Quinze e seu rendimento caiu de junho em diante. Adoeceu várias vezes, em determinadas ocasiões ficou meio depressiva e faltou muito às aulas.

Deve ter sido muito difícil toda aquela situação para ela, numa fase da vida – a adolescência – em que as coisas já são muito complicadas.

Temi muito que minha caçula não conseguisse passar de ano, mas felizmente apesar de todas as dificuldades ela ao final foi aprovada e em 2016 fará o segundo ano e peço a Deus que o ano seja melhor para ela e toda nossa família. Sem tantos sustos e sofrimentos.

Mas voltando a Neide, a mãe de Belo Jardim que cuidava do filho, ela parece que não tinha ninguém para ajudá-la naquela difícil missão. Estava dia e noite com o seu rapaz, normalmente “leve”, bem humorada e apenas uma vez a vi estressada, por conta do trabalho extenuante junto ao seu paciente.

Neide tinha um corpo bonito, pernas e coxas grossas e fazia questão de realçar as formas usando umas roupas, tipo bermuda ou short, bem coladas à pele. Não tinha como não notar a presença daquela mulher se movimentando na enfermaria do hospital, sempre com blusas ou calças coloridas que davam um tom mais alegre à enfermaria que estávamos internados.

Como Maria, citada num dos primeiros relatos dessa história, Neide não deixou a vaidade feminina de lado por estar num hospital e explorou – no bom sentido – o corpo bonito o quanto pôde enquanto esteve acompanhando o filho na sua saga pelo HR.

Quando tive alta e saí do Restauração mãe e filho de Belo Jardim ainda estavam lá, mas também já com dia certo para poder voltar para casa. Devem estar aqui por perto, na Terra do Bitury e peço a Deus por eles, que também foram boas companhias na enfermaria 505 e Neide muitas vezes esteve ao lado de minha mulher na hora das refeições do restaurante no andar térreo.

Foi a belo-jardinense, por sinal, que por conta do comportamento determinado de Terezinha, que às vezes parecia uma espécie de líder naquele ambiente, a “nomeou” como chefe do setor. Disse que as decisões por lá tinham de passar por minha mulher, que ela era o juiz (assim mesmo, no masculino) do lugar.

Talvez para suportar melhor o sofrimento, a angústia, a espera, a comida ruim, a falta de liberdade e as incertezas, todos ali precisassem brincar um pouco. Não tanto os pacientes, em geral fragilizados pela doença, mas pelo menos os acompanhantes, que afinal de contas estavam inteiros e tinham desejos, ambições, planos e projetos de vida.

Por aí acredito que se explica a alegria e a sensualidade, escancarada ou mal disfarçada, de pessoas como Neide e Maria.

RELIGIÃO – No Hospital da Restauração também há uma religiosidade muito grande em torno das pessoas que correm perigo de vida. Tanto entre os pacientes quanto no meio dos visitantes, que são muitos, e vários deles vão ao HR somente para rezar, fazer orações pelos doentes.

E ficou muito claro nos 45 dias que passamos na unidade de saúde recifense, como a presença da religião ali foi exclusiva dos evangélicos.

Apareciam, principalmente nos finais de semanas, integrantes de igrejas evangélicas até para celebrar cultos em plena enfermaria, orando pela recuperação dos doentes.

Por lá nunca apareceu um padre ou freira, os católicos foram totalmente ausentes, dando a falsa impressão que os evangélicos já são maioria no Brasil. Eles crescem cada vez mais na periferia, porém estão longe disso. Mas a Igreja do Santo Papa que se cuide.

E entre os pacientes também havia uma forte presença dos integrantes da Assembleia de Deus outros ramos do protestantismo.

Havia até um casal, eles bastante jovens ainda, que pareciam disputar quem tinha mais fé, ou quem sabia mais da bíblia.

O rapaz, mais um vítima de tiro na cabeça, ficava o tempo todo recitando versos do livro sagrado, ouvindo músicas religiosas e na prática fazendo pregações “em nome de Jesus Cristo, o salvador”.

Ela, um dia, de forma inesperada se aproximou do meu leito e disse, com ar profético: “Irmão Deus tem um plano para você. Tudo que você está sofrendo vai passar. Acredite que você vai ficar bom”.

Eu fiquei apenas calado, ouvindo, refletindo, admirado daquela demonstração de fé, que às vezes, infelizmente, pode descambar também para uma espécie de fanatismo ou alienação.

De todo modo, a irmã pode está inteiramente correta.

Como dizia Shakespeare “existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”. Deus é um grande mistério e tudo pode realmente estar traçado nas estrelas ou no coração do universo.


(continua).

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