Passado
o trauma causado pelo procedimento da colocação do dreno na cabeça, a vida
entrou num ritmo mais tranquilo enquanto os médicos definiam quando iam fazer a
cirurgia para a retirada do tumor e do cisto, que estavam bem crescidinhos. O
primeiro estava com cerca de 4 cm e o segundo com 6 cm.
Eu
passava a maior parte do tempo na cama, levantando apenas para ir ao banheiro
ou, de vez em quando, tentava caminhar um pouco pelos corredores do 5º andar.
Sempre acompanhado por Terezinha, que não descolava com medo de uma queda do seu maridão.
Sempre
tomava um banho logo de manhã, também com a ajuda de minha companheira.
Perto
do meu leito, desde os primeiros dias no hospital, estava internado um homem de
nome Heleno, natural de Capoeiras, como eu, mas que já há algum tempo residia
em Garanhuns.
Sua
situação era delicada e sua mulher, um filho e uma filha se revezavam como
acompanhantes. No rosto da esposa do meu conterrâneo estava estampada a
preocupação e o sofrimento pela situação do marido, que tinha um problema sério
na coluna.
Seus
filhos moravam e trabalhavam no Recife. Eram dois jovens muito simpáticos e
cheguei a travar alguns diálogos com eles, principalmente o rapaz. Ela era
loira, usava óculos e parecia um pouco com minha filha Roberta, que é
professora em escolas do Recife e Olinda, concursada nas duas prefeituras.
Heleno,
que se não estou enganado ainda é parente da professora Maria
Almeida, foi depois transferido para outro hospital e não tive mais notícias
dele e dos familiares. Deus cuide dele e dos seus onde estiverem, pois
demonstraram ser pessoas muito boas, marcados por aquela doença inesperada que
me parece já tinha consumido muitos recursos do casal.
Quem
ficou mais tempo ao meu lado como vizinho de leito, Heleno à esquerda e ele à
direita, foi um rapaz de 25 anos de nome Kleberson. Motorista, morador do Cabo
de Santo Agostinho, o jovem tinha levado uns tiros numa parada de ônibus e pelo
menos um dos disparos pegou na cabeça. A bala estava alojada no seu crânio e os médicos consideravam arriscado tentar extraí-la.
No
início Kleber estava sem poder andar, tendo dificuldades na alimentação, mas
com o tratamento foi melhorando muito passou a comer normalmente e levantava da
cama, com a ajuda da mãe, Lucimar, para tomar banho ou atender qualquer outra
necessidade.
Tanto
o Kleberson quanto Lucimar eram bem humorados, brincalhões e sempre tiravam "sarro" com comigo e Tereza. Levavam muito para o lado do sexo, e ele
costumava dizer que quando eu estivesse bom, em casa, ia “tirar o atraso” com
minha companheira e talvez o negócio esquentasse tanto que fosse capaz de “furar
a parede”.
Todos
na enfermaria riam muito com essa tiradas do Klebinho, que nem parecia estar
preso no leito de um hospital, tal o bom humor.
REFEIÇÕES - No
Hospital da Restauração são servidas várias refeições aos pacientes, durante o
dia e à noite. Vinha um café da manhã reforçado com leite, suco, biscoito, papa
e muitas vezes iogurte. Por volta das 10h serviam um lanche e ao meio dia o
almoço. Arroz, carne, peixe, legumes e frutas, invariavelmente. Tinha ainda o
lanche da tarde e o jantar. Sucos, sopas, mingau, chá, bolo, frutas mas todo o
alimento era sem gosto, não colocavam uma pitada de sal na minha comida por
conta da hipertensão e raramente eu conseguia engolir tudo.
Comia
pouco porque a comida do hospital não era gostosa e também porque estava me
engasgando muito e ficava tossindo sem parar depois dos engasgos.
Por
conta da doença e da alimentação insuficiente perdi muitos quilos e fiquei
magrinho mesmo, principalmente depois da cirurgia derradeira.
Os
acompanhantes desciam pelo elevador, três vezes ao dia, para no restaurante do
térreo tomar o café da manhã, almoçar e jantar. Terezinha sempre ia acompanhada
de Lucimar e de outras mulheres que estavam no HR como acompanhantes de algum
paciente. Segundo minha mulher a refeição deles era farta e saborosa, não havia
muito o que reclamar.
Imagine
você, caro leitor, que trabalheira para administrar o conhecido Hospital do
Recife. A informação que tive lá dentro foi que a unidade de saúde tem mil
leitos.
Assim,
eram em torno de mil refeições todos os dias, repetidas quatro ou cinco vezes, fora o que
era preparado no restaurante para os acompanhantes.
Tudo
isso bancado pelo governo, sem que ninguém pagasse um centavo pelo serviço.
Vendo por esse prisma, o fato da comida dos pacientes não ter gosto é o mínimo.
E pelo que sei não existe alimento saboroso em hospital nenhum, mesmo os que têm “cara
de hotel”, como o Santa Joana, que fica pertinho do HR.
Um
dos pacientes que mais preocupava todos, na enfermaria 505, era um jovem moreno
conhecido como Marcinho, que tinha sido vítima de um acidente de moto.
Ele
estava muito ruim quando chegou. Sem falar, se alimentando somente por sonda e
com os movimentos dos braços e pernas prejudicados. A mente também não parecia
muito sã.
Seu
estado de saúde era tal que sua mulher Silvia quando estava de acompanhante às
vezes perdia a paciência.
Ninguém
imaginava que Márcio fosse sair ileso daquele hospital, porém o rapaz
surpreendeu médicos, enfermeiros, companheiros da enfermaria e a própria
família quando começou a se recuperar, principalmente quando falou a primeira
vez proporcionando uma grande alegria a moça que o acompanhava neste dia, não
lembro bem, mas acho que ela era sobrinha dele ou da esposa.
Ainda
fiquei no hospital a tempo de ver Marcinho ter alta. Saiu andando, lúcido,
sorrindo, com a cabeça que quase tinha sido destroçada no acidente
completamente curada, inteira.
Era
uma felicidade, para nós que estávamos ali, impacientes por não poder sair para
canto nenhum, ver um companheiro ser liberado, voltando para casa comemorando o
“milagre” de continuar vivo.
Eu
ficava imaginando quando poderia também sair e rever minha casa, meus filhos, os
irmãos e mamãe. A saudade era grande demais, mas naquele local não dava nem
para ficar pensando muito nos familiares.
E
ainda mais que eu ainda iria passar pela maior cirurgia, que inspirava cuidados
e os médicos deixavam isso muito claro.
Antes
de poder voltar a uma vida de verdade teria que suportar mais algum sofrimento
no imenso Hospital da Restauração.
Enquanto
o dia de comemorar a liberdade e a cura não chegava seguíamos uma vida
comunitária naquela sala grande ocupada por oito leitos.
Conversávamos,
brincávamos, sorríamos, trocávamos ideias, fazíamos planos.
Ninguém ali pensava em
morrer, se despedir deste mundo. Estávamos ali exatamente para ser curados e
seguir em frente, pois a doença, a prisão temporária num leito de hospital,
deixa muito claro o quanto a vida é boa.
E
todos estavam a fim de viver por inteiro, sem nenhum espaço para amargor ou
tristeza.
(continua...)

Tenho acompanhado esta série fantástica! E preciso que os leitores deste blog, façam suas declarações: elogios ao HR , O amor da família, especialmente a perseverança do paciente..que graças a Deus nos blindar com estes relatos...
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