MEMÓRIAS DA VIDA NO HOSPITAL - 4ª PARTE

Passado o trauma causado pelo procedimento da colocação do dreno na cabeça, a vida entrou num ritmo mais tranquilo enquanto os médicos definiam quando iam fazer a cirurgia para a retirada do tumor e do cisto, que estavam bem crescidinhos. O primeiro estava com cerca de 4 cm e o segundo com 6 cm.

Eu passava a maior parte do tempo na cama, levantando apenas para ir ao banheiro ou, de vez em quando, tentava caminhar um pouco pelos corredores do 5º andar. Sempre acompanhado por Terezinha, que não descolava com medo de uma queda do seu maridão.

Sempre tomava um banho logo de manhã, também com a ajuda de minha companheira.

Perto do meu leito, desde os primeiros dias no hospital, estava internado um homem de nome Heleno, natural de Capoeiras, como eu, mas que já há algum tempo residia em Garanhuns.

Sua situação era delicada e sua mulher, um filho e uma filha se revezavam como acompanhantes. No rosto da esposa do meu conterrâneo estava estampada a preocupação e o sofrimento pela situação do marido, que tinha um problema sério na coluna.

Seus filhos moravam e trabalhavam no Recife. Eram dois jovens muito simpáticos e cheguei a travar alguns diálogos com eles, principalmente o rapaz. Ela era loira, usava óculos e parecia um pouco com minha filha Roberta, que é professora em escolas do Recife e Olinda, concursada nas duas prefeituras.

Heleno, que se não estou enganado ainda é parente da professora Maria Almeida, foi depois transferido para outro hospital e não tive mais notícias dele e dos familiares. Deus cuide dele e dos seus onde estiverem, pois demonstraram ser pessoas muito boas, marcados por aquela doença inesperada que me parece já tinha consumido muitos recursos do casal.

Quem ficou mais tempo ao meu lado como vizinho de leito, Heleno à esquerda e ele à direita, foi um rapaz de 25 anos de nome Kleberson. Motorista, morador do Cabo de Santo Agostinho, o jovem tinha levado uns tiros numa parada de ônibus e pelo menos um dos disparos pegou na cabeça. A bala estava alojada no seu crânio e os médicos consideravam arriscado tentar extraí-la.

No início Kleber estava sem poder andar, tendo dificuldades na alimentação, mas com o tratamento foi melhorando muito passou a comer normalmente e levantava da cama, com a ajuda da mãe, Lucimar, para tomar banho ou atender qualquer outra necessidade.

Tanto o Kleberson quanto Lucimar eram bem humorados, brincalhões e sempre tiravam "sarro" com  comigo e Tereza. Levavam muito para o lado do sexo, e ele costumava dizer que quando eu estivesse bom, em casa, ia “tirar o atraso” com minha companheira e talvez o negócio esquentasse tanto que fosse capaz de “furar a parede”.

Todos na enfermaria riam muito com essa tiradas do Klebinho, que nem parecia estar preso no leito de um hospital, tal o bom humor.

REFEIÇÕES - No Hospital da Restauração são servidas várias refeições aos pacientes, durante o dia e à noite. Vinha um café da manhã reforçado com leite, suco, biscoito, papa e muitas vezes iogurte. Por volta das 10h serviam um lanche e ao meio dia o almoço. Arroz, carne, peixe, legumes e frutas, invariavelmente. Tinha ainda o lanche da tarde e o jantar. Sucos, sopas, mingau, chá, bolo, frutas mas todo o alimento era sem gosto, não colocavam uma pitada de sal na minha comida por conta da hipertensão e raramente eu conseguia engolir tudo.

Comia pouco porque a comida do hospital não era gostosa e também porque estava me engasgando muito e ficava tossindo sem parar depois dos engasgos.

Por conta da doença e da alimentação insuficiente perdi muitos quilos e fiquei magrinho mesmo, principalmente depois da cirurgia derradeira.

Os acompanhantes desciam pelo elevador, três vezes ao dia, para no restaurante do térreo tomar o café da manhã, almoçar e jantar. Terezinha sempre ia acompanhada de Lucimar e de outras mulheres que estavam no HR como acompanhantes de algum paciente. Segundo minha mulher a refeição deles era farta e saborosa, não havia muito o que reclamar.

Imagine você, caro leitor, que trabalheira para administrar o conhecido Hospital do Recife. A informação que tive lá dentro foi que a unidade de saúde tem mil leitos.

Assim, eram em torno de mil refeições todos os dias, repetidas quatro ou cinco vezes, fora o que era preparado no restaurante para os acompanhantes.

Tudo isso bancado pelo governo, sem que ninguém pagasse um centavo pelo serviço. Vendo por esse prisma, o fato da comida dos pacientes não ter gosto é o mínimo. E pelo que sei não existe alimento saboroso em hospital nenhum, mesmo os que têm “cara de hotel”, como o Santa Joana, que fica pertinho do HR.

Um dos pacientes que mais preocupava todos, na enfermaria 505, era um jovem moreno conhecido como Marcinho, que tinha sido vítima de um acidente de moto.

Ele estava muito ruim quando chegou.  Sem falar, se alimentando somente por sonda e com os movimentos dos braços e pernas prejudicados. A mente também não parecia muito sã.

Seu estado de saúde era tal que sua mulher Silvia quando estava de acompanhante às vezes perdia a paciência.

Ninguém imaginava que Márcio fosse sair ileso daquele hospital, porém o rapaz surpreendeu médicos, enfermeiros, companheiros da enfermaria e a própria família quando começou a se recuperar, principalmente quando falou a primeira vez proporcionando uma grande alegria a moça que o acompanhava neste dia, não lembro bem, mas acho que ela era sobrinha dele ou da esposa.

Ainda fiquei no hospital a tempo de ver Marcinho ter alta. Saiu andando, lúcido, sorrindo, com a cabeça que quase tinha sido destroçada no acidente completamente curada, inteira.

Era uma felicidade, para nós que estávamos ali, impacientes por não poder sair para canto nenhum, ver um companheiro ser liberado, voltando para casa comemorando o “milagre” de continuar vivo.

Eu ficava imaginando quando poderia também sair e rever minha casa, meus filhos, os irmãos e mamãe. A saudade era grande demais, mas naquele local não dava nem para ficar pensando muito nos familiares.

E ainda mais que eu ainda iria passar pela maior cirurgia, que inspirava cuidados e os médicos deixavam isso muito claro.

Antes de poder voltar a uma vida de verdade teria que suportar mais algum sofrimento no imenso Hospital da Restauração.

Enquanto o dia de comemorar a liberdade e a cura não chegava seguíamos uma vida comunitária naquela sala grande ocupada por oito leitos.

Conversávamos, brincávamos, sorríamos, trocávamos ideias, fazíamos planos. 

Ninguém ali pensava em morrer, se despedir deste mundo. Estávamos ali exatamente para ser curados e seguir em frente, pois a doença, a prisão temporária num leito de hospital, deixa muito claro o quanto a vida é boa.

E todos estavam a fim de viver por inteiro, sem nenhum espaço para amargor ou tristeza.

(continua...)


Um comentário:

  1. Tenho acompanhado esta série fantástica! E preciso que os leitores deste blog, façam suas declarações: elogios ao HR , O amor da família, especialmente a perseverança do paciente..que graças a Deus nos blindar com estes relatos...

    ResponderExcluir