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domingo, 18 de setembro de 2011

GRANDES NOMES DA MPB - 79º

MPB-4

Como escrevemos anteriormente, nesta série, nos anos 60 e 70 dois grupos se destacaram gravando preferencialmente MPB. Do Quarteto em Cy, formado por mulheres, tratamos a semana passada. Hoje, a vez é do vocal de homens, criado em 1965, inicialmente com os seguintes integrantes: Aquiles, Ruy, Miltinho e Magro.

É importante frisar que embora a partir dos anos 80 o Quarteto e o MPB-4 tenham sumido da mídia, eles continuam em atividade, cada vez mais afinados, se apresentando em shows e gravando músicas da melhor qualidade.

Tanto as moças quanto os rapazes se dedicaram durante estes mais de 40 anos a interpretar canções dos melhores compositores do país, com destaque para Chico Buarque, João Bosco e Aldir Blanc, Noel Rosa, Gonzaguinha, Ivan Lins, Pixinguinha, Edu Lobo, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, dentre outros.

Estudantes de engenharia e direito, foi difícil para os rapazes tomar a decisão de trocar a futura profissão, tão promissora, pela carreira artística. Seus familiares, naturalmente, lamentaram a decisão. Mas a música estava no sangue e Miltinho, Magro, Ruy e Aquiles seguiram em frente.

Desde o início, formaram uma parceria forte com Chico Buarque. Não apenas cantavam músicas do cantor e compositor, mas também se apresentavam juntos em muitos shows. Críticos chegaram a escrever, brincando, que o autor de A Banda era o quinto integrante do grupo.

O primeiro LP do grupo foi lançado em 1966 com o título MPB-4. Trazia, entre os destaques, as músicas “Lamento” e “Teresa Tristesa”. No ano seguinte, o segundo álbum, que incluiu “Cordão da Saideira, “Gabriela” e “Quem te viu e quem te vê”. Em 1968, mas um disco e dificuldades com a censura. A ditadura militar chegou ao auge com a edição do AI-5, artistas conscientes e engajados passaram a enfrentar dificuldade, tanto que Chico deu uma escapada à Itália para se proteger dos que mandavam no país.

Nos anos 70 o MPB-4 incorporou novos compositores ao seu repertório. Continuaram gravando Chico Buarque e Milton Nascimento, descobriram Aldir Blanc e lançaram novos discos. E apesar do obscurantismo da época faziam shows pelo Brasil, sempre com um público cativo, principalmente entre os universitários.

Tive oportunidade de ver o Quarteto em Cy e o MPB 4 pelo menos uma vez, ambos no velho Teatro do Parque, no centro do Recife. Naquele tempo não tinha ar-condicionado, as cadeiras eram desconfortáveis, porém nós, jovens universitários,  ficávamos embevecidos com aqueles conjuntos de vozes.

Nunca esqueci a interpretação das meninas para Mulheres de Atenas e Funeral de Um Lavrador, embora já se tenham passado mais de 30 anos. Fiquei tão entusiasmado, na época, com a minha paixão juvenil, que na mesma semana comprei o disco Quarteto em Cy ao Vivo. Guardo este vinil comigo até hoje, com sua capa belíssima.

Mas voltemos ao MPB-4. Os rapazes tinham uma parceria tão sólida com Chico Buarque que se apresentaram com o compositor carioca até em outros países. Estiveram em Portugal, na Argentina e outros vizinhos sul americanos. Naqueles anos de chumbo todos enfrentavam dificuldades, principalmente de ordem financeira e até empréstimos a bancos tiveram de fazer para seguir carreira, segundo confessaria o próprio Ruy Faria, um dos cabeças do conjunto apaixonado por música popular brasileira.

Somente a partir da edição da Lei da Anistia, em 1979, viria o sossego contra as perseguições dos censores pagos pelo Governo.

Interessante é observar que o MPB-4, como o quarteto feminino, Chico Buarque, Caetano Veloso, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Nara Leão, Gal Costa, Maria Betânia, todo esse pessoal que fazia e gravava música de excepcional qualidade, tinha espaço nas rádios, principalmente nas capitais. Recife, por exemplo, durante muito tempo teve pelo menos duas rádios executando apenas o fino da MPB.

Mesmo as rádios comerciais, embora tocassem muito Roberto Carlos e outros artistas da Jovem Guarda, nos anos 60; Benito de Paula e The Fevers, na década seguinte, abriam espaço para os baianos, os bons cantores e compositores paulistas e cariocas, depois os cearenses, e também os pernambucanos, como Luiz Gonzaga, Alceu Valença e o Quinteto Violado.

Alceu mesmo, de São Bento do Una para o mundo, ainda em 1982 fazia grande sucesso nas emissoras de rádio, mesmo as do interior. Seu disco Cavalo de Pau, daquele ano, foi um dos maiores êxitos comerciais do início dos anos 80. E um trabalho impecável, com músicas que viraram clássicos da música nacional.

Nos anos 80 o MPB-4 lançou trabalhos infantis, um deles em parceria com o Quarteto em Cy, participaram do especial da TV Globo “Arca de Noé”, cantando a música O Pato. “Lá vai o pato pata aqui pato acolá...”. Em 1989 lançaram o disco “Amigo é Pra Essas Coisas”, dessa vez já com filhos dos integrantes do grupo participando da banda de acompanhamento.

Na década seguinte lançaram discos como Samba da Minha Terra, Cantar ao Vivo e Melhores Momentos. Fizeram ainda dois trabalhos com o quarteto feminino, registrados nos discos Bate Boca, de 1997 e Somos Todos Iguais, de 1998.

Na década passada gravaram novamente com o Quarteto em Cy. Um dos discos, de 2004, tem o sugestivo nome de “Vinícius e a Arte do Encontro”. Em 2006 lançam o DVD “MPB-4 40 anos”, com participação de Chico Buarque, Milton Nascimentos, Cauby Peixoto e Roberta Sá.. Em 2008, pela Biscoito Fino, gravadora que apóia os artistas da música popular brasileira, gravaram um CD e DVD ao vivo, junto com Toquinho, outro cantor e músico importante na história da música nacional.

Com mais de 40 anos de estrada, com algumas mudanças na formação, ao longo do tempo, o MPB-4 não pode ser esquecido quando se fizer o registro da história da música popular brasileira. O fato desses rapazes (e das moças) andarem meio esquecidos é lamentável. Isso certamente acontece porque o rádio e a televisão, nas últimas décadas, fecharam as portas para a boa música. Abriram as porteiras para o falso sertanejo, o forró eletrônico, o axé, os Luan Santana da vida e exilaram dentro do próprio país o que temos de melhor.

Existe, no entanto, muita gente por aí que conserva a curiosidade, o bom gosto, que aprecia uma voz afinada e uma letra bem elaborada. Essas pessoas, se não ouvem MPB-4, Quarteto em Cy, Chico Buarque e João Bosco nas rádios procuram esses artistas nos shows. Ou os encontram na internet. Eles estão vivos e ainda fazendo história.

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