domingo, 31 de outubro de 2010

PORQUE A ESPERANÇA VENCEU OUTRA VEZ

Não era para ser uma campanha entre esquerda e direita, como no passado, uma vez que as ideologias não podem ser encaradas da mesma maneira de algumas décadas atrás. Além disso, os dois candidatos militaram do lado das forças e progressistas e populares, nos anos 60 e ambos sofreram de uma maneira ou de outra os efeitos do golpe militar de 1964. Com a redemocratização, ambos se aliaram novamente no campo esquerdista, tendo Serra passado pelo PMDB e migrado para o PSDB, quando este partido foi criado. Dilma se filiou ao PDT de Leonel Brizola e depois, com Lula, terminou virando petista. Com essa trajetória de cada um, poderíamos ter tido uma campanha mais civilizada, mais propositiva e que não aceitasse táticas e estratégias da época de guerra fria que envolveu os Estados Unidos, a antiga União Soviética e consequentemente o mundo todo.

O ex-governador de São Paulo, que começou a fazer política como presidente da UNE e esteve na defesa do presidente João Goulart em 64, desde 2002, quando disputou a primeira eleição presidencial, contra Lula, optou por dar uma guinada à direita. Em 2010, quando se apresentava como candidato mais preparado e experiente, começou a cometer uma série de erros que resultariam na sua derrota. Demorou muito a se decidir e quando enfim anunciou sua candidatura se atrapalhou todo na indicação do vice. Escolheu Álvaro Dias, do Paraná, mas como o irmão deste resolveu disputar o governo daquele estado em aliança com o PT, mudou seu companheiro de chapa, ficando então o deputado Índio da Costa, que nem conhecia.

A campanha de Serra, que parecia centrada no início, tanto que ele fez um discurso memorável em Brasília, quando da homologação do seu nome, começou a tomar outros contornos a partir da presença de Índio da Costa na cena política. O deputado do DEM do Rio de Janeiro começou a fazer declarações de cunho fascista e terrorista que espantaram os setores mais conscientes da sociedade brasileira. O pior é que o tucano candidato a presidente ao invés de chamar seu comapnheiro a atenção (não precisava ser de público, naturalmente) endossou o discurso reacionário do rapaz, que mais parece um Ronaldo Caiado de sotaque carioca.

A condenação do alinhamento político de Lula com outros governantes latino americanos, como Evo Moralez, da Bolívia, foi outro erro político de Serra, que aí também se voltou mais para a direita. Chegando a fase dos programas eleitorais, explorou de maneira oportunista a religião e a questão do aborto, este último colocado na agenda com força já no final do primeiro turno. Para seu azar, ex-alunas de sua mulher, Mônica Serra, revelaram que esta já tinha provocado a interrupção de uma gravidez, no início dos anos 90, quando o casal vivia uma situação difícil. Imediatamente o ex-governador mudou o foco da discussão, mas o estrago já estava feito.

A vitória de Dilma Roussef tem muito a ver com o carisma do presidente Lula, com os êxitos do seu governo, mas poderia ter sido evitada se José Serra tivesse permanecido na linha "paz e amor" do começo. Deputado, senador, prefeito, governador e ministro, com muito maior desenvoltura para falar e enfrentando uma mulher completamente inexperiente em disputas eleitorais, o tucano podia sim ter chegado mais longe. Ao se aliar a setores mais conservadores, assumir o discurso de candidato dos patrões e dos ricos, ao repetir o discurso do medo, o oposicionista deu ao atual presidente da República tudo que ele queria: transformar a eleição numa espécie de plebiscito entre a Era FHC e a atual, numa disputa entre o povo e as elites, progressistas e conservadores, direita e esquerda. 

Como diria  o ex-frei Leonardo Boff, numa manifestação pró-Dilma levada à televisão, "em 2002 a esperança venceu o medo e desta vez o amor vai vencer o ódio".

Serra conseguiu, graças aos erros no encaminhamento da campanha, trazer de volta para o palanque do PT muita gente que ficou decepcionada com o partido após o episódio do mensalão e suas alianças com Renan, Sarney e até o Collor. Vieram os professores das universidades, os intelectuais, os artistas, setores da classe média. Muitos que nem iam se empenhar na campanha, como em 2002, terminaram dando tudo de si para evitar "retrocessos".

Percebi isso muito bem na sexta-feira passada, quando uma caminhada no Recife, com a presença do presidente Lula (a candidata não estava), arrastou, segundo cálculos da Polícia Militar, mais de 100 mil pessoas pelo centro da capital pernambucana. Há quanto tempo não se vê isso na Veneza Brasileira? Acho que só em 1979, na volta de Arraes, em 86, quando o socialista disputou a eleição para retomar o governo, e em 1989, ano em que Lula enfrentou Fernando Collor. 

O fato é que pela primeira vez uma mulher chega à presidência do Brasil. Nunca tinha sido candidata nem a síndica de prédio. Se atrapalhou na maioria dos debates em que esteve presente, na televisão. É feia, roliça, mal feita, não tem carisma nenhum. Tem jeito de antipática, de durona. Dilma Roussef, no entanto, apesar de tudo, derrotou o homem das mil e uma utilidades. O cara que já exerceu os cargos mais importantes do país, excetuando a presidência, e que teria sido responsável pelos medicamentos genéricos, seguro desemprego, o bolsa alimentação (que deu origem ao bolsa família), FAT, Pronaf e tanta coisa mais que se a gente for a fundo ele ajudou Pedro Álvares Cabral a descobrir o Brasil.

Não existe mais ninguém matuto. Os idiotas perdem espaço. Todo mundo está ficando a cada dia mais sabido um pouqinho. Quem não comia carne, não tomava leite e iogurte e hoje tem direito ao consumo como qualquer pessoa da classe média, não tinha porque mudar os rumos de um governo que lhe ofereceu o mínimo necessário e dignidade. O discurso do Serra, então, embora bem ensaiado, não conseguiu convencer milhões de brasileiros, principalmente os mais pobres do Nordeste e de outras regiões do país.

Lula venceu Fernando Henrique. Dilma venceu Serra. A esperança triunfou mais uma vez. E o amor venceu senão o ódio, pelo menos a intolerância e a mentira.

Vamos torcer para que dê tudo certo. Que o Brasil continue no rumo dos últimos anos. Com educação de qualidade, melhorias na saúde, menos corrupção, a redução ainda maior das desigualdades e a eliminação da miséria. Não estamos sonhando ou querendo muito, apenas querendo ver a realização do que foi prometido.

(No momento em que encerro essa análise, 99,58% dos votos da eleição de presidente estão apurados. Dima tem 55 milhões de voto, contra 43 milhões de Serra. São 12 milhões de diferença, perto de 13% dos votos válidos. Os institutos acertaram em cheio).

**A foto de Dilma Roussef, acima,  é do Portal G1, do Sistema Globo de Comunicação.

2 comentários:

  1. Sempre comentei que Serra tem bagagem política,é preparado para o cargo,inteligente...
    Mais como se diz no jargão popular;em time que está ganhando não se mexe.
    O presidente LULA ao contrário do que disse Jarbas,sai engrandecido e vitorioso, isso quem afirma não sou eu sozinho,mais analistas políticos de todo o país e de vários países do mundo.
    Elegeu sua sucessora,ampliou a base governista na câmara e no senado e conquistou a maioria dos governadores.
    Dilma chega com condições favoráveis para ela exercer um bom governo e avançar nas reformas necessárias e que não podem sair de sua agenda.
    Ela terá também uma riqueza para aumentar a arrecadação e distribuir com a população mais pobre:o PRÈ-SAL,que cada vez mais aumenta as descobertas de jazidas desse importante mineral em nosso litoral,parabéns LULA e parabéns DILMA!!!!!!!!!
    einstein,recife/PE

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  2. Belas Palavras!... A vitória de Dilma no Nordeste não é ignorância política. Não é nada mais do que a gratidão de um povo, que por muitas vezes foi esquecido e que teve sua dignidade resgatada por um governo que gostem ou não, fez por eles o que nenhum outro teve a decência de fazer. Viva Lula, Dilma... Viva o Nordeste!

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