CRÔNICA - NO TEMPO DOS QUINTAIS


Há uma música belíssima de Sivuca, em parceria com Paulinho Tapajós, intitulada  "No Tempo dos Quintais".

Essa canção foi gravada pelo próprio Sivuca, genial artista paraibano, num dueto memorável com Fagner.

O compositor e multi-instrumentista manda bem, apesar de não ter tantos recursos vocais, mas quem arrasa mesmo é o cearense. 

Acredito que foi uma das melhores interpretações de sua carreira.

A letra começa como se fosse um conto de fadas, com o "era uma vez..."

Aí vem: "Um tempo de pardais, de verde nos quintais, faz muito tempo atrás, quando havia fadas".

É um poema, de grande qualidade.

Prossegue com os versos: "Num bonde havia um anjo pra guiar, outro pra dar lugar, pra quem chegar sentar, de duvidar, de admirar".

E mais: "Havia frutos num pomar qualquer de se tirar do pé, no tempo em que os casais podiam mais e namorar, nos lampiões de gás sem os ladrões atrás, tempo em que o medo se chamou jamais".

A gravação é dos anos 80 e já naquela época, num tom saudosista, o letrista lembra de tempos mais tranquilos, sem tantos ladrões, quando o medo era menor, pois havia "fadas e quintais".

Belchior também cantou os quintais, que muitos, principalmente nas grandes cidades, não sabem o que é.

No Recife, Salvador, no Rio de Janeiro ou em São Paulo os arranha céus expulsaram os quintais, os anjos quase desapareceram e os ladrões agem impunemente.

Felizmente nesta Garanhuns bucólica, de clima amenos, são muitos os quintais.

E até vez por outras aparecem pardais, ou pombos, com sorte até se vê um canário, uma rolinha ou até mesmo um galo-de-campina - o cardeal do Nordeste - fora da gaiola.

Não há mais bondes ou trens, os militares acabaram com as ferrovias para dar mais espaço aos automóveis.

E nos ônibus lotados os homens poucas vezes cedem o lugar aos mais jovens ou mesmo a uma mulher grávida.

Sim, existe mais conhecimento. As telas dominaram o mundo e trazem a notícia para dentro de casa, vemos tudo em tempo real.

Mas é triste constatar que sabem menos embora julguem saber de tudo. Há menos educação, menos cordialidade, menos romantismo.

Até a Copa do Mundo virou puro entretenimento e este ano, no Brasil, abrirá espaço para as celebridades vazias e sem ética.

Saudade dos quintais, dos lampiões de gás... Que os mais jovens deem um Google para saber o que eram.

*Foto ilustrativa: Super Rádio Tupi

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