UM DISCURSO INFLAMADO NA CAMPANHA ELEITORAL DE 1988


Por Junior Almeida 

O veterinário Antônio Carlos Vieira dos Santos foi o sétimo prefeito eleito de Capoeiras, município emancipado de São Bento do Una em 21 de dezembro de 1963. 

Os dois primeiros, Gabriel Bezerra, que nem chegou a assumir, e o seu sucessor, Álvaro Tenório, o Alvinho, não se submeteram ao crivo popular. Foram nomeados pelo governador de Pernambuco da época. 

Pois bem. 

Por Carlos ser o primeiro candidato da terrinha com nível superior, passou a ser chamado pelos seus correligionários de “Doutor Carlos”. 

A acirrada campanha de 1988, contra o então gestor Manoel Reino e seu indicado à prefeitura, José Valtaso, o Válter Elias, fez com que o então candidato da oposição se apertasse, financeiramente falando.  

Então, sem ter como bancar certos pedidos dos eleitores, passou a distribuir as batatas doces que eram plantadas em terras de sua família. 

Foi o suficiente para que os seus adversários jocosamente o apelidassem como “Doutor Batata”. 

Existia até uma canção,  cantada no palanque da situação, que em seu verso principal dizia:

        Mas como foi

        Mas como é

        Doutor Batata aqui

        Não vai botar o pé...

O violeiro Gilberto Cavalcante, de São José do Egito, também fazia seus versos para o candidato da situação e, ao som da viola, também cantava:

        Jarnolfo Pedro Araújo

        Desse partido eu não fujo

        Por que não sou inocente

        Vou mostrar pra essa gente

        Que batata dá azia

        Indigestão, febre agonia

        Diarreia e bucho inchado

        É como diz o ditado

        Que pra tudo tem um dia [...]

A poesia era engraçada, mas nem todo mundo aceitou tal brincadeira. 

Por tais versos, e outros mais, que com muito bom humor atacavam o adversário, o artista popular foi pego numa noite, não se sabe por quem, em uma das ruas escuras da cidade, e levou a maior sova. Covardia. Coisas da má política.

Os eleitores de Doutor Carlos tomaram a provocação do lado de Válter, de os associarem a uma batata e, reverteram a gozação, adotando o nome jocoso, como principal do seu grupo, que passou a se denominar “turma da batata” ou “batateiros”. 

Com o decorrer da campanha, a oposição crescia dia a dia, fazendo com que a situação passasse a bater mais pesado no adversário em seus discursos e, foi justamente numa fala do candidato a prefeito Válter, que o chamado “Doutor Batata” foi chamado de corrupto. 

Tal xingamento precisaria de uma resposta, como entendia a oposição, então, o escolhido para rebater a agressão, foi um candidato a vereador, muito ligado ao futuro prefeito. 

O sujeito gordo, que usava chapéu de massa com uma peninha e de voz anasalada tinha pouca instrução, mas muita garra ao defender seus ideais, então, cheio de vibração, ao microfone, o candidato bradou:

       - Valtu, oh Valtu! Você dizê que Dotô Carro é corrupo, Valtu?! Isso é uma colunga, Valtu. Uma Colunga!

*Na ilustração Odorico Paraguaçu, personagem criado por Dias Gomes na novela O Bem Amado. Era corrupto e falava o linguajar típico do matuto do interior.

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