Governo de Pernambuco

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VICENTE CELESTINO; O ÉBRIO QUE JAMAIS BEBEU EM TODA SUA VIDA

Por Altamir Pinheiro

Para começo de conversa, assim como Elvis Presley, Vicente Celestino era abstêmio. Os dois tinham pavor a bebida alcoólica, o máximo que bebiam era uma única taça de vinho.  Em sua biografia consta que é  de sua autoria a música que o tornou conhecido através dos tempos: "O Ébrio", que foi transformado num dos filmes de maior bilheteria do país em 1946, dirigido por sua esposa Gilda de Abreu. Também são suas as músicas "Ouvindo-te", "Coração Materno", "Patativa" e "Porta Aberta". Tendo cantado sempre no Brasil, foi ídolo de quatro gerações e cantou, sempre em seu estilo com o vozeirão de tenor, mesmo músicas mais modernas e de caráter intimista, como canções de bossa nova "Se Todos Fossem Iguais a Você". Em pleno tropicalismo.

O jornalista e escritor  capoeirense radicado há muito tempo  em Garanhuns, Roberto Almeida,   que é um bom crítico de cinema,  música e literatura, através de suas pesquisas nos confirma que  Antônio Vicente Celestino nasceu no Rio no final do Século XIX  e morreu em São Paulo, às vésperas de completar 74 anos, em 1968. O artista, que tinha voz de tenor e muitos o queriam vê-lo cantando ópera, teve uma das carreiras mais longas do Brasil. Foram 54 anos interpretando suas canções pelo país, sem nunca ver diminuída sua popularidade. Cantou em festas, serenatas, restaurantes, até passar pelo teatro e chegar à popularidade com o lançamento dos primeiros discos. Gravou na fase “mecânica” da canção, depois na fase “elétrica”, produzindo 137 discos em 78 rotações, 31 LPs e mais 10 compactos, com mais de 300 músicas.

Falando-se de O Ébrio, no telão, a película cinematográfica O Ébrio é um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema brasileiro. Estima-se que tenha sido vista por mais de 12 milhões de pessoas desde seu lançamento. Baseia-se na canção homônima de Vicente Celestino  que tocou  nas rádios pela primeira vez no ano  de 1936. A música completou 85 anos de lançada e o filme 75. O Ébrio, que teve como protagonista o próprio Vicente Celestino e na direção, sua esposa Gilda Abreu, lançado no final do ano de 1946, diga-se de passagem,  foi um dos filmes mais populares do Brasil, ficando duas décadas em cartaz e também o filme brasileiro do qual mais cópias se tiraram na época (500). No período de lançamento, superou com facilidade a bilheteria em Farrapo Humano, de Billy Wilder.

No campo musical, sua inigualável voz de tenor, fizeram com que o povo o elegesse como “A Voz Orgulho do Brasil”. Vicente Celestino tinha um potencial de voz  tão grande que nos teatros que ele se apresentava não usava microfone. Aliás, como nos conta o publicitário Túlio Ceci Villaça, em estúdios ele dava as costas ao microfone e cantava para as paredes para não haver interferência no som. Afinal,  na época não tinha tantos recursos e nada de tecnologia. De longe um dos  mais importante intérprete da música popular brasileira, possuía uma  voz de tenor. Quer dizer, a única maneira de conseguir gravar sem abandonar seu estilo foi virar de costas, e passar a gravar voltado para a parede.

Naquela época, cantor que se prezava  tinha voz e não precisava de calça jeans justa e camisa xadrez com mangas dobradas nem se dopar com anabolizante, tinha que ter gogó. No caso do Ébrio ou de toda  música boa ela  é atemporal. Tanto faz  se estamos  ouvindo em 2021 ou 2071, é indiferente. É por essas e outras que a letra  de O Ébrio é uma  pérola!!! Quem presta atenção nesta música, fica emocionado e muitos chegam a chorar. Ela tem uma declamação no disco original que traz toda a história do Ébrio. A pena que faz é essa baita voz ser  esquecida no tempo em  um país sem memória. Na Argentina, Carlos Gardel teve seu reconhecimento,  já no Brasil  Vicente Celestino foi quase que esquecido.

Pois bem, o  baiano Gerivaldo Neves que é Juiz de Direito e Psicólogo, levanta uma tese bastante interessante quando afirma com todas as letras que geralmente  as pessoas são solidárias, PRINCIPALMENTE A ALA MASCULINA, tanto na traição quanto no alcoolismo. Basta ver que, há 85 anos, o cantor Vicente Celestino gravou uma canção que se transformaria em um clássico de estrondoso sucesso por várias décadas: Na letra e melodia de O Ébrio muitas gerações de ébrios por este Brasil afora se solidarizaram com a história desse homem e cantaram essa música com forte emoção, como se fosse a sua própria história.

O Ébrio, em sua letra   nos mostra que ela  retrata a história de um cantor de sucesso que teve muitas mulheres, mas que terminava fugindo com outros homens, apesar de lhe jurarem amor eterno.  Nos versos finais da canção, um último pedido: “Quando eu morrer, à minha campa(lápide) nenhuma inscrição. Deixai que os vermes pouco a pouco venham terminar este ébrio triste e este triste coração. Quero somente que na campa em que eu repousar, os ébrios loucos como eu venham depositar os seus segredos ao meu derradeiro abrigo e suas lágrimas de dor ao peito amigo”.

Noutra canção mais recente, também cantada  por ébrios e abstêmios, o pernambucano de Recife,  Reginaldo Rossi,  narra a história de um homem que recebeu uma carta de seu grande amor avisando que iria se casar e, por isso mesmo, em uma mesa de bar, adverte ao garçom: “E pra matar a tristeza, só mesa de bar. Quero tomar todas, vou me embriagar. Se eu pegar no sono, me deite no chão”.

Para ficar apenas em clássicos da música brasileira, Waldick Soriano, também em uma mesa de cabaré, lamenta ao garçom amigo que a formosa dama de vermelho já lhe pertenceu, como se fosse um objeto, e agora morre de ciúmes até do perfume que ela deixa no salão. Novamente, o pedido ao garçom: “Apague a luz da minha mesa, eu não quero que ela note em mim tanta tristeza. Traga mais uma garrafa, hoje eu vou me embriagar. Quero dormir para não ver outro homem em meu lugar”.

Na verdade, o álcool e a embriaguez servem de consolo para homens traídos e abandonados por suas mulheres. Nessas canções, as razões das mulheres não existem e os homens são apresentados como pobres coitados que precisam afogar suas mágoas na cachaça. Até mesmo as antigas marchinhas de carnaval fazem referência à cachaça e ao comportamento de se embriagar como algo natural e divertido. Alguns exemplos: “Pode me faltar o amor (Disto eu até acho graça), só não quero que me falte a danada da cachaça”, na marchinha “Cachaça não é água”, e “Não vai dar? Não vai dar não? Você vai ver a grande confusão que eu vou fazer bebendo até cair. Me dá, me dá, me dá, oi! Me dá um dinheiro aí!”.

Finalmente, a melodia O Ébrio  é de um sentimento de muita profundidade.  A  letra, de poesia espetacular e a voz dele é  de um poder e beleza formidáveis, pois, em nossa retina fica  a imaginar  de esplendor, a magnitude da canção, a voz impressionante que o Vicente Celestino tinha e a mensagem que não deixa de ser atual 85 anos depois de gravada. Vicente Celestino teve suas músicas regravadas por grandes nomes, como Caetano Veloso, Marisa Monte e Mutantes. Essa música conta uma história, nada diferente da vida de muitos que se jogaram na bebida, por algum momento de desilusão. Tornou-se num  verdadeiro hino  dos abandonados, traídos, tristes e infelizes que dormem nas calçadas frias  das marquises da vida...

https://www.youtube.com/watch?v=BFOO-HFoMSg

3 comentários:

  1. Ótimo artigo Altamir. Sou fã de Vicente Celestino, que comecei a ouvir na infância, em Capoeiras. O filme O Ébrio lembro que assisti no Cine Jardim. Das regravações de músicas famosas na voz do tenor, gosto muito de Caetano cantando Coração Materno, Elba Ramalho interpretando Patativa, Ednardo na versão roqueira de Rasguei o Teu Retrato e Martinho da Vila arrasou cantando Noite Cheia de Estrelas.

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  2. A leitura enriquece o nosso ego.É bom e faz bem ao nosso espírito ler histórias verdadeiras contadas por pessoas muito mais experiente do que nós.Navegar é preciso e ler é muito mais. Parabéns!

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  3. Caro jornalista, quem sou para te dar informação, mas Vicente Celestino cantava de costa para o microfone para que o grave vozeirão não quebrasse o cristal de captação dos microfones. Este foi o recurso encontrado pela sua gravadora diante dos frequentes prejuízos causados pela potência da sua voz.

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