quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

JORNALISTA PORTUGUESA ACHA QUE DISCURSO DE JAIR BOLSONARO LEMBRA ANTÔNIO DE OLIVEIRA SALAZAR



Por Ana Sá Lopes

Bolsonaro traz para ideologia oficial do Brasil tudo aquilo que foi a cartilha da ditadura portuguesa, o mesmo ódio às "ideologias", a religião como parte do Estado, a defesa dos valores das famílias ultraconservadoras, o mesmo horror aos "vermelhos".

Os dois discursos que ontem Jair Messias Bolsonaro fez na tomada de posse prenunciam o pior. Já sabíamos, evidentemente, desde o início da campanha, mas o capitão reformado entendeu não desiludir quem o elegeu para o cargo de Presidente do Brasil. O elevado grau de aprovação com que Bolsonaro chega ao Planalto é, evidentemente, um susto para quem defende a liberdade e a democracia no sentido ocidental do termo. 

Para nós, portugueses, assistir ontem aos discursos de Bolsonaro, trouxe reminiscências dos discursos de um homem que saiu do poder em 1968, embora isso tivesse acontecido por doença: Oliveira Salazar. Bolsonaro traz agora para ideologia oficial do Brasil tudo aquilo que foi a cartilha da ditadura portuguesa, o mesmo ódio às "ideologias", a religião como parte do Estado, a defesa dos valores das famílias ultraconservadoras, o mesmo horror aos "vermelhos".

Há uma frase que não poderia nunca ter sido usada durante a ditadura, porque naquele tempo a expressão "ideologia de género" era desconhecida, mas é todo um programa: "Vamos unir o povo, valorizar a família, respeitar a religião, a nossa tradição judaico-cristã, combater a ideologia de género, conservando os nossos valores. O Brasil voltará a ser um país livre de amarras ideológicas". A ideologia dos que são "contra os políticos" foi expressa por Salazar na sua época - aliás, a sua ascensão ao poder e o golpe de 20 de Maio de 1926 tiveram, como tem agora Bolsonaro, um esmagador apoio popular. 
Tudo naquela cerimónia de posse foi um monumento à tragédia anunciada: o discurso do número 2, o general Hamilton Mourão, foi um regresso às cavernas que o povo aplaudiu em delírio; o fim do discurso de Bolsonaro, quando ergue a bandeira brasileira em conjunto com Mourão e grita: "Esta é a nossa bandeira, que jamais será vermelha, só será vermelha se for do nosso sangue derramado para a manter verde e amarela".
Bolsonaro vem preencher um anseio profundo da população, o da segurança seja de que maneira for. "Temos o desafio de enfrentar a ideologia que descriminaliza bandidos, pune polícias e destrói famílias, vamos restabelecer a ordem no país", disse ontem, já depois de ter prometido liberalizar o acesso às armas. O anseio da "ordem" também foi o que levou Salazar ao poder. A democracia brasileira é demasiadamente jovem, mas também as democracias jovens podem morrer. 
*Reproduzido do jornal português "Público".

Um comentário:

  1. Oliveira Salazar e Hitler são os guias do BolsonASNO... Ana Sá Lopes sabe muito bem o que está dizendo... Os nossos irmãos portugueses têm pensamento político civilizado... Mesmo antes do truculento Salazar, Portugal teve o monarca Dom Carlos I, que foi liberal... Até ser assassinado, junto com seu filho, Dom Luís Filipe, em 1º de fevereiro de 1908. E foi assassinado justamente por ter perfil liberal... Isso desagradou os donos de escravos em geral. Porque mesmo a escravidão já tendo sido abolida naquele país, existia a escravatura de fato, em todas as colônias e no próprio Portugal... E resultou na morte de pai e filho... Para que o príncipe Luís Filipe não pudesse assumir, como legítimo herdeiro do trono português. Dom Carlos, ao assinar um decreto preparado por seus correligionários, declarou: "Assino a minha sentença de morte, mas os senhores assim o quiseram." – 2. E a nós brasileiros, restam tempos sombrios, doravante. /.

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