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terça-feira, 27 de outubro de 2015

O PÃO DO POBRE

Por Júnior Almeida

Tem um ditado que diz que "quando o pão do pobre cai, só cai com a manteiga pra baixo". Isso quer dizer que o que está ruim pode piorar, ou que quando se tá mole, o de baixo caga no de cima, ou que a água só corre pro mar. São ditados equivalentes, que dizem algo mais ou menos parecido. Tempos atrás existia uma casa em Capoeiras, lá pros lados da caixa d'água da Compesa, de muros bem altos e um quintal enorme. Nessa casa funcionava uma rinha de galos. Nos finais de semana o ambiente lotava, com pessoas de toda região, os ditos "galistas" e simples expectadores, para assistir os penosos se digladiarem até a morte, nesse dito  esporte, sangrento e contraventor, pois brigas de galos são  proibidas no Brasil. 

Pois bem. Assim como cavalos, touros e vacas têm seus tratadores para se apresentarem melhor em exposições, os atletas das rinhas, os galos, também têm seus cuidadores, assim como boxeadores e lutadores de UFC. São pessoas dedicadas a tosar os animais, fazer exercícios nos mesmos, alimentar de maneira diferente dos demais galináceos, dá banho de sol e treinar os galos uns com os outros, colocando pra brigar, mas sempre com o cuidado de colocar luvas e máscaras de couro para que eles não se machuquem. Isso nos treinos, por que nas brigas valendo dinheiro, é justamente ao contrário. Os esporões dos galos são serrados e cauterizados seus cotocos com cigarro, para em seu lugar serem colocados esporas de metal bem afiadas. Os treinadores de galos sabem com precisão qual posição de armar a espora de aço para que o estrago seja maior no galo oponente.  

Num determinado final de semana a casa onde ocorriam as brigas de galo de semana estava cheia. Convites foram feitos aos adeptos do "esporte" de várias localidades e várias brigas caras estavam programadas. Tinha um rapazote em Capoeiras, que era conhecido simplesmente como "Neguinho", que ganhava alguns trocados tratando dos galos de quem podia pagar um treinador. Esse tratador tinha um galo que ganhou do patrão, e o treinou desde quando esse ainda era um pinto. Ele sabia que o animal era de raça pura, e preparou bem o galo, talvez mais que os outros que não eram seus. Neguinho colocou o galo debaixo do braço e foi pra rinha. Como não tinha dinheiro pra nada, esperava que alguém apostasse por ele, e se seu galo ganhasse, com certeza ele teria alguma recompensa. 

Ao chegar, um galista menos miserável que ele gostou do animal, e ofereceu 5 reais por ele. Na época, 5 reais devia valer uns 20 reais de hoje. Não sei bem. Neguinho não pensou duas vezes, e vendeu o galo pelo dinheiro oferecido e ficou onde estava, ao redor do círculo em alvenaria onde outros bichos se matavam. Pouco tempo depois chegou outro criador de galos, e perguntou se o galo que o rapaz segurava estava à venda. Esse disse que sim, que vendia por cinquenta reais. O Neguinho ouvindo aquilo, arregalou os olhos parecendo não acreditar no que ouvia.  Mais admirado ficou quando o homem abriu a carteira e pagou o dinheiro pedido pelo galo. Neguinho olhava revoltado a conclusão do negócio, pensando ele que tinha ficado só nisso. Algum tempo depois, chegou uma turma de criadores vindos da região do Tará, e perguntaram se o galo que estava com o novo comprador era pra vender. Esse disse que vendia, que era um galo bom, e que por quinhentos reais o galo seria dele. Não deu outra: O negócio foi feito. O neguinho se revoltou. O novo dono era um sujeito de posses, acostumado a jogar alto nas rinhas. Mandou preparar logo o animal, e resolveu testá-lo. Não deu outra. O galo era bom. Na primeira água (round), logo nos primeiros minutos, o galo matou o outro, arrancando-lhe a cabeça. A multidão foi ao delírio com isso. Algazarra danada e todos vibrando com o sangue derramado do pobre galo perdedor. Ninguém viu, mas parecia que o galo morto tinha um parente ali. O Neguinho tava tão triste, que só faltava chorar. A um amigo confidenciou: 

- Pobre é lasca mesmo. O galo na minha mão só vale cinco reais, mas na mão de quem tem dinheiro o mesmo bicho vale quinhentos.

Para completar a revolta do tratador, ele ouviu quando uma pessoa perguntou o preço do galo, e a resposta que o animal agora custava um mil e quinhentos reais.

Esses dias uma história parecida, mas que retrata essa moleza de quem já tem pouco: Na zona rural de Capoeiras tem um cidadão com quatro filhos, três com algum patrimônio, e um mais sacrificado. Esse com um "pedacinho" de terra já da divisão da herança, do pai vivo, mas idoso. Esse que era o lascado dos irmãos resolveu vender a terra que tinha a outro, para com o dinheiro comprar um carro para carregar estudantes e fazer frete. Vendeu a terra e comprou o carro. Mas como diz o título do texto, ele era o pobre, e seu pão caiu com a manteiga pra baixo. Com a vinda da energia eólica pra nossa região, a terra que ele vendeu vai ser indenizada em sete vezes o valor que ele vendeu, sendo que a terra continua com o dono, e duas torres que vão ser instaladas no terreno vão pagar por mês ao novo proprietário, 20% do valor que ele vendeu. Isso durante 10 anos. Imaginem o que passa na cabeça de quem vendeu.

2 comentários:

  1. parabéns pelo o texto sempre gosto de lê os seus textos, já faz algum tempo que você escreveu um texto sobre algumas personalidade que possuíam apelidos fizeram parte da historia de capoeira fiquei muito feliz de recordar dessas pessoas que no tempo de infância cheguei a dividir o mesmo espaço.

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  2. Boa Júnior: Gostoso de ler. Quando você não fale em política é ótimo. Assim como um grande cara e um sempre ímpar rubronegro! Um grande abraço.

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