quarta-feira, 18 de março de 2015

JORNALISMO PERDE PAULO SÉRGIO SCARPA


Do JC Online:

O jornalista Paulo Sérgio Scarpa, que por muitos anos foi titular da coluna Repórter JC, faleceu na tarde desta terça-feira (17), no Hospital Esperança, de complicações devido a um câncer. Scarpa, que ia completar 67 anos no dia 1º de abril, nasceu em Itanhandu (MG). Há 30 anos, veio trabalhar no Recife, na sucursal do jornal Folha de São Paulo. Em 1993 foi contratado pelo Jornal do do Commercio. Dizia ser apaixonado por Recife e por Pernambuco. O jornalista descobriu o câncer na laringe em 2011 e chegou a ser considerado curado da doença. No ano passado, no entanto, o tumor reapareceu no pulmão. Segundo a família, o corpo será cremado no Cemitério Morada da Paz, após uma cerimônia reservada.

Ao lado do irmãos nos momentos finais, a pedagoga Regina Scarpa lembrou que o jornalista era apaixonado por ópera e literatura. "No apartamento dele há mais de sete mil livros", revela. Regina conta que o irmão lutou contra o câncer até o fim. Ele chegou a manter um blog, o Viva o câncer, nos dois primeiros anos da doença para estimular as pessoas. "O lema do meu irmão era: meus livros, meus discos, meus filmes e nada mais", lembra.

Scarpa estava aposentado desde 2013. Participou de vários projetos editorias de prestígio no Jornal do Commercio, como o que resultou no livro A Nova República, Visões da Redemocratização, em 2006. Era também presença frequente nos debates políticos e culturais nas rádios do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação. Em 1994, integrou a equipe que ganhou o Prêmio Esso Regional Nordeste, com a série "Pernambuco no centro do golpe". Scarpa trabalhou no SJCC entre os anos de 1993 e 1996 e em seguida de 1997 a 2013. 


Muito querido pelos colegas, vários escreveram testemunhos sobre o trabalho de Paulo Sérgio Scarpa:

Ivanildo Sampaio, coordenador do Comitê Editoral do Sistema Jornal do Commercio

"Culto, versátil, dedicado, ético e com uma imensa capacidade de escrever sobre os mais variados temas com a mesma segurança e conhecimento. Assim era Paulo Sérgio Scarpa, um “lorde”  apaixonado pela boa mesa e pela música erudita,  que chegou em Pernambuco para trabalhar na Sucursal da Folha de São Paulo, e que em duas oportunidades foi nosso companheiro na Redação do JC – depois de ter adotado o Recife como a cidade onde viveria até seus últimos dias. Todos vamos sentir falta de sua solidariedade e do seu talento"

Cícero Belmar, atual titular da coluna Repórter JC 

"Uma das grandes paixões de Scarpa foi a Literatura. Era um grande leitor. Gostava dos clássicos aos modernos. Amava Clarice Lispector. Certa vez ele me contou sobre o encontro com a escritora. Na época, ainda morava em São Paulo, começando como repórter da Folha de São Paulo. Mas estava de férias no Rio. Foi à lista telefônica e encontrou o número. Ela mesma que atendeu. "Eu disse que o meu sonho era conhecê-la. Respirei. Pensava que ela iria colocar obstáculos. Mas ela disse: Pode vir. Na hora que quiser", ele me disse. Foi ao bairro de Botafogo, converou por quase uma hora e no final, pediu para ela autografar "A Hora da estrela". Clarice escreveu: “A Paulo Sérgio, meu novo e grande amigo de repente, a quem desejo além da busca o encontro. Ofereço com um abraço, Clarice Lispector”. Era 17 de julho de 1969. Esse relato serviu para uma crônica que eu escrevi e que ele ficou emocionado ao ler". Cícero Belmar 

Marcelo Pereira, editor do Caderno C

"Paulo Sérgio Scarpa era o maior entusiasta da ópera e da música erudita entre os jornalistas que passaram pelo Jornal do Commercio, nos últimos 30 anos. Seus olhos brilhavam e ele transpirava de excitação quando anunciavam que o Recife iria receber concertos ou festivais como as séries do Virtuosi e a Mostra Internacional de Música de Olinda (Mimo), mas lamentava a falta de investimento na qualificação da Orquestra Sinfônica do Recife, a mais antiga do País. Logo Scarpa se colocava à disposição para entrevistar os organizadores e as atrações. Sempre que possível, ele mesmo se prontificava a fazer a cobertura. Mesmo não sendo o Caderno C a sua editoria de origem, Scarpa se sentia como um dos integrantes da equipe, bem mais jovem que ele. Era talvez o mais vibrante e comprometido. Mais do que a música para concerto, era a ópera sua grande paixão. Sabia de cor as principais obras do repertório do teatro lírico. Quando os grandes espetáculos passaram a ser exibidos no cinema, muitos deles diretamente de Londres e Nova Iorque, ao vivo, Scarpa parecia ter aquela alegria da infância, quando ia para os teatros em São Paulo, acompanhado do avô, e que sedimentou a sua formação de apaixonado melômano".

Janaína Lima, jornalista e amiga

"A primeira vez que vi o Gordo ele não falou comigo. Não nos conhecíamos ainda, foi numa coletiva lá na Blue Angel Benfica, algo relacionado a economia. Ele já assinava coluna no JC. Prestei atenção naquele homem agitado, de rosto vermelho, mal empacotado no paletó claro. Nunca poderia imaginar que ali estava um dos meus professores no jornalismo. Chamava Paulo Sérgio Scarpa de Gordo, “meu  Gordo fofo”, e ele era a única pessoa que podia me chamar de Gorda.

Pegou na minha mão quando comecei a cobrir artes cênicas pelo Caderno C. Me ensinou sobre Cacilda, Zé Celso, Dostoiévski, Shakespeare... Adorava falar sobre o Teatro de Arena, sobre a efervescência teatral de São Paulo, nos tantos anos em que morou lá. Para tentar mostrar que eu estava começando a entender algo da cena, narrava para ele as peças que via no Festival de Teatro de Curitiba... o Gordo teria adorado ir a Curitiba. Juntos, fomos a inúmeras edições do Festival Recife do Teatro Nacional. Dividíamos a cobertura ou apenas nos deliciávamos assistindo e discutindo depois as peças. Era a nossa farra.

Falávamos também sobre cachorros (foi ele quem me acompanhou quando fui buscar o meu primeiro, Chico, que ele batizou); comidas de todo o tipo (era cozinheiro de mão cheia), sobre a solidão e o amor que ele sentia pela mãe. Era um apaixonado por ela.

De vez em quando, escrevíamos a quatro mãos. Em 2000, fizemos uma série sobre os 150 anos do Teatro Santa Isabel. Foram muitas manhãs no Arquivo Público buscando dados históricos, levantando detalhes sobre a construção, cuja reforma se arrastava há uma década. Foi um dos meus trabalhos mais gratificantes no jornalismo. Guardo o jornal impresso e lembro a nossa dificuldade em colocar um ponto final no assunto. Todo mundo ia embora da redação e ficávamos ali, discutindo, escrevendo juntos, rindo, agoniados por ter que contar tanto no espaço reduzido do papel jornal.

Scarpa era respeitado como poucos. Dos políticos aos diretores de teatro, atores, colegas de profissão, vendedores de livraria e de lojas de discos – a coleção dele de livros, CDs e vídeos é enorme, assim como a de obras de de arte popular.

Andava sempre com a bolsa cruzada no corpo, até quando pegava carona. Fui vizinha de bairro do Gordo. Lembro como se fosse hoje do salmão com molho de maracujá e das peras flambadas que ele fez num aniversário meu. Estava recém-separada e, de novo, ele estava ali segurando minha mão. Esteve tantas vezes. Foi também meu professor na vida.

A última vez que nos vimos, foi em abril de 2014, assistimos a uma peça no Hermilo, ele já sem conseguir falar direito, mas bonito, de barba branca, sorridente e feliz. Meu Gordo fofo, hoje os “bravos” são para você. Teu espetáculo foi lindo."

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