domingo, 19 de janeiro de 2014

A PRAÇA DOM MOURA E O TREM


De Neide de Oliveira Tavares no livro "Lembranças de Garanhuns:

Caminhando devagar pelas ruas de Garanhuns, cheias de altos e baixos e por isso mesmo devagar, subo um pouquinho a ladeira que nos leva à Praça Dom Moura. Ali outrora, havia uma estação de trem. Outrora houve um trem. Esses nos levava até o Recife ou Maceió, num percurso longo e prazeroso, cheio de aventuras e encanto.

O trem chegou a Garanhuns no século XIX, segundo registros da História, em 28 de setembro de 1887. E de acordo com informações da tradicional família Frias, logo foram construídas casas pela Great Western, para os funcionários que prestavam serviços à estação. Informa-nos também que a linha férrea tornou-se ponto de lazer para as famílias de Garanhuns que saíam para passear. Sem falar no que passou a representar para a economia e progresso da cidade. Em 1888, só para exemplificar, tivemos um passageiro ilustre: o Conde d´Eu, esposo da Princesa Isabel, que num trem especial veio visitar a Câmara Municipal, segundo Alfredo Leite, no seu livro "Histórias de Garanhuns".

Na minha infância e juventude o trem fazia parte do nosso dia a dia. Sempre ouvíamos em casa alguém perguntar: "Que horas são? O trem já partiu?" Era um relógio certo, com seu apito longo e saudoso, que se fazia ouvir no momento da partida, de manhã cedo, ou no momento da chegada, à tardinha. Quando às vezes atrasava, sempre sabíamos o motivo, de acordo com o aviso que o maquinista dava em cada estação. Quantas coisas vinham de longe, para o nosso consumo e deleite, trazidos pelos vagões: cartas, encomendas, volumes grandes, etc.

Quando saíamos nas excursões dos colégios, sempre usávamos o trem. Era mais divertido e mais barato. Por duas vezes participei dessas excursões, no Colégio XV, quando estudante.

Uma para a cidade de Maceió, com a quarta série ginasial de 1959, fazendo a troca de trem (baldeação) em Quipapá, acompanhados pela professora Ilídia Vilela. Outra vez com a turma do Curso Pedagógico, em 1961, até a cidade do Recife, levada pelo professor Jaime Pinheiro, que era o conselheiro da nossa classe, formada apenas por sete moças.
...
Um dia, ainda na década de 60, o trem foi embora. Estava dando prejuízo financeiro e a solução era o seu fim. Muita gente foi à estação para a despedida e muitos choraram quando soou o apito pela última vez, saudosamente. Com ele ia embora também parte da vida do garanhuense, faria uma falta imensa, deixando uma lacuna que não seria preenchida.

Quanto ao prédio da estação, um dia um homem foi eleito prefeito de Garanhuns. Um desses homens raros que de vez em quando surgem no ambiente político. Esse homem, um intelectual, de grande sensibilidade, reformou a velha estação, preservou as suas linhas arquitetônicas, a sua fachada, e transformou com inteligência o que é hoje o Centro Cultural, que acomoda também um grande teatro, recebendo o nome do seu idealizador: Luís Souto Dourado.

A Praça Dom Moura não sofreu com a perda da estação. Ao contrário, há sempre grande movimentação, com a instalação de museu, teatro, biblioteca, esta última bastante frequentada pelos estudantes. O passado se integrou ao presente, ao progresso, sem prejudicar a cidade, sendo motivo de orgulho para todos nós. Que o nome de Luís Souto Dourado seja lembrado, nome de raízes fincadas do solo garanhuense por várias gerações.

Em tempo: Dom João Tavares de Moura foi o primeiro bispo de Garanhuns, fato que estudávamos na escola primária. Aqui chegou em 1919 e foi muito estimado pelos adeptos do catolicismo, como também por pessoas de outras religiões. Faleceu em 1928 e foi sepultado na Catedral de Santo Antônio. Em 1930 seu busto - esculpido pelo artista A. Bibiano da Silva - foi colocado na praça que tem seu nome.

(Foto da Praça Dom Moura: do site http://www.skyscrapercity.com/)

6 comentários:

  1. Parabéns, muito bom saber a história de Garanhuns

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  2. Sempre é bom aprendermos mais sobre a rica história q nossa cidade tem....infelismente pontos historicos,casas historicas d nossa cidade foram destruidos......parabéns Neide por seu livro"Lenbranças de Garanhuns"......Paz e benção

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  3. Só um adendo: a baldeação do trem, para quem ia para Maceió, se dava em Paquevira, Distrito de Canhotinho.

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  4. Como não completei meus 30 anos não vivenciei os tempos do trem em Garanhuns. Por isso achei belo o artigo da senhora Neide Tavares a quem não conheço pessoalmente; Garanhuns precisa de quem se preocupe com seu futuro e invista na cidade, faça o município se desenvolver; por outro lado não podemos esquecer o passado, o legado dos que já se foram como o citado prefeito Luís Souto Dourado que no lugar da estação de trem criou o Centro Cultural um dos orgulhos da nossa terrinha.

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  5. Ao que parece, um belíssimo relato do contexto socio-histórico de Garanhuns!
    Roberto, como posso adquirir o livro de Tavares?
    Está a venda em alguma loja da cidade?

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  6. Cara Juliana: acredito que se você tiver como entrar em contato com Neide, sua filha Jamine ou o radialista Gláucio Costa será fácil conseguir um exemplar do livro, caso a edição não tenha sido esgotada.

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