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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A EMOÇÃO TOMA CONTA DO REPÓRTER

O jornalista Ruy Sarinho, que mora em Olinda e trabalha em Recife, manda por e-mail alguns textos sobre a despedida do presidente Lula dos pernambucanos. A emoção tomou conta dos profissionais de imprensa, que por instantes esqueceram um pouco as técnicas de redação e deram um tom de crônica ou de boa literatura ao que produziram. Como é muita coisa, escolhi apenas esse trecho, escrito por Urariano Mota: “Lula afirmou que sempre procurou viajar muito pelo Brasil para poder conhecer as pessoas, conversar com elas, olhando nos olhos e tocando, porque como disse ‘não há possibilidade do ser humano interagir se não houver um toque de mão, um abraço, um beijo, um carinho, um olhar olho no olho’. Disse ainda que aprendeu muito com as três derrotas que sofreu em eleições presidenciais (em 1989, 1994 e 1998). A lição principal: não é possível governar bem o País sem conhecer sua terra e sua gente:

"Era preciso que o presidente tivesse um olhar total do seu País, para conhecer o seu povo, e poder governar distribuindo possibilidades para que todos tivessem condições de participar do desenvolvimento desse País. Foi a partir da descoberta das eleições de 1989, em que eu descobri que era falsa a disputa eleitoral, que um presidente da República pegar um avião em São Paulo, descer no aeroporto de Recife, subir num palanque, voltar para o aeroporto e voltar para São Paulo não lhe permitia o povo pernambucano, era preciso que ele conhecesse um pouco mais. (…) Foi a partir daí que resolvi fazer as caravanas da cidadania. E comecei fazendo a primeira caravana percorrendo o trajeto que a minha mãe percorreu com oito filhos, saindo de Caetés até a cidade de Santos, em São Paulo. Parando em cada cidade, conversando com as pessoas. Depois eu percorri 91 mil km de carro, de trem, de ônibus, de barco. Para conhecer a cara, o jeito, o contar da piada, da graça, o cantar do povo pernambucano, o sofrimento do povo brasileiro. E isso me deu uma dimensão do Brasil que eu queria governar’.”

E, na verdade, em toda imprensa, até mesmo no Blog do Planalto, se perde uma dimensão essencial para quem relata uma ação política: em vez de o foco ser o grande homem, o homem que está no poder em um foco único e exclusivo, maior significação teria se os olhos do repórter estivessem no público, nas pessoas fora do palco. Melhor seria que o repórter se fizesse um dos que estão do lado de cá, se a reportagem se fizesse por alguém que não entrou no céu, mas contempla o espetáculo. Lembro de outra vez, quando Lula visitou o bairro de Água Fria, no Recife, para inaugurar a primeira agência do Banco Azteca:

“Espremida no meio do povo, uma senhora aperta nas mãos uma folha de caderno dobrada, com um pedido para o Presidente do Brasil. Estamos do outro lado da cerca, formada por cavaletes de ferro que circundam todo o Largo de Água Fria. Repórteres passam e não se dignam a nos dirigir um olhar, a misericórdia de uma atenção. Como são conscientes de que a sua importância está na razão direta da distância desta massa! Dos periféricos, os que estamos do outro lado da cerca, espremidos entre pivetes e cavaletes. Uma repórter, muito jovem, se dirige a duas autoridades, isso devem ser, porque são gordos, altos, brancos, e vestem ternos de xadrez. A sua fotógrafa se aproxima, e como não pode ficar o tempo todo acompanhando uma conversa que não lhe diz respeito, dá-lhe as costas, vai caminhar em um diálogo com o seu celular. Belas fotos teremos…

Súbito há um estouro, não de fogos, nem de boiada. Há um rumor que cresce, que se torna incontrolável, que mais lembra um orgasmo coletivo. Sofrido, querido e esperado. É Lula! É Lula! Todos gritam. Os berros se fazem ouvir mais alto, ensurdecedores. Mulheres, meninos, homens chamam a atenção do Presidente, querem chamá-lo, e ele não sabe para que lado do cercado de cavaletes se dirija. Na hora uma idéia tenebrosa me ocorre: se caísse um raio aqui, todos morreriam felizes. Mas essa idéia não atinge palavras. Lula vem para o nosso lado. É ele. A minha mulher, fotógrafa, se esquece em absoluto de mim, o repórter, e avança para o círculo estreito onde todos lhe querem tocar a mão. Aos gritos. Aos prantos. Aos empurrões. À força, ainda que contidos e reprimidos pelos jovens rapazes de negro…”.

Assim como naquele dia, também nessa última terça-feira. Se os repórteres não vissem a multidão à distância, teriam visto cadeirantes pedido passagem, senhoras velhinhas apoiadas nos netos, indivíduos cegos a tatear com suas bengalas, jovens, muitos jovens, negros, muitos negros, negros na pele e no peito, que ouviam sérios, com absoluta atenção o presidente que lhes dizia, apontando para um menino da favela que toca violino: “Ele, Daniel, só queria uma oportunidade”. Teriam visto as pessoas se retirando do encontro, depois que Lula acabou a sua fala, a ponto de o locutor lhes pedir que ficassem, porque teriam ainda um show de Alceu Valença e Geraldo Azevedo. Inútil, porque ainda assim as pessoas se retiravam, porque o ápice do drama, nessa noite, já havia sido atingido: o presidente lhes falara que do seu destino um homem não desiste. Que nada pode ou não deve estar definido antes em razão de renda, lugar, sexo ou raça.

No final, muitos homens feitos lacrimejavam de felicidade. Choravam e sorriam um sorriso bom e não conseguiam parar de sorrir, em silêncio, enquanto se retiravam. Choraram mais de três vezes. Mas ninguém viu. Os chorões estavam todos do lado de cá, longe do palco.

2 comentários:

  1. Também fiquei emocionado, ao escutar pela rádio uma parte do discurso de Lula. Mas fico um pouco revoltado ao lê algumas postagens no Blog de Rafael Brasil. Para ele Lula, não é nada, e, o que fez foi só dá continuidade aos projetos de FHC. Vi na tv, no último ano de FHC uma jovem na rua lhe chamar de idiota. Lula termina como se fosse uma campanha eleitoral como a maior popularidade, "nuca vista na História desse país". Não voltei em Dilma, nem no 1º nem 2º turno. Mas não consigo entender as críticas desses "intelectuais" para com Lula. Um dia perguntei ao Professor Rafael. Mas Professor, não tem nada de bom no governo Lula? Ele disse. Nada. E pensar que o blog de Reinaldo Azevedo, me deixa mais revoltado ainda. Atire a primeira pedra aquele, que nunca pecou.
    DOM QUIXOTE

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  2. Quixote: quem diz que não houve nada de bom no governo LULA, é porque tem saudades dos torturadores. Pois esse pessoal do contra só fala em "comunistas", "subversivos", "terroristas" etc.
    NUNCA li nada deles falando das SESSÕES DE TORTURA DA ÉPOCA do general Adyr Fiúza de Castro, que rezava a oração dos torturadores. Palavras de Fiúza de Castro: "Eu não admito a tortura por sadismo ou vingança. Para obter informações, acho válida a tortura."
    Os Azevedos e Rafaéis pensam assim. Igualzinho aos gorilas da ditadura de 1º de abril de l964. Todos têm o mesmo manequim./.

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