SEBRAE

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sábado, 27 de novembro de 2010

FERREIRA GULLAR E OSVALDO MONTENEGRO

Ferreira Gullar, para muitos o maior poeta vivo da língua portuguesa, escreveu "Traduzir-se", que ficou conhecida por "meio mundo", apos ser musicada pelo cantor Fagner. "Metade", poema de Osvaldo Montenegro, lembra muito os versos espalhados ao vento pelo cearense. Através do blog "Sopa de Poemas", ficamos sabendo que Gullar acusou Montenegro de plágio e este negou. As duas poesias são lindas, com muitas semelhanças e algumas diferenças. Leia as duas e tire suas conclusões. Será que houve mesmo plágio? O cantor apenas se inspirou no poeta? Ou tudo foi uma mera coincidência? De qualquer modo, os versos dos dois artistas embelezam o fim de semana.

TRADUZIR-SE - Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

METADE - Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso
mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste,
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

4 comentários:

  1. Vi este comentário em um blog:

    "Metade é de autoria de Oswaldo Montenegro, que o lançou em 1975 no libreto da peça teatral João sem Nome. Ferreira Gullar é autor do poema Traduzir-se, lançado no livro Vertigens do Dia, publicado em 1980. Os dois poemas tratam de um tema recorrente na literaura universal - os paradoxos do ser humano. Ambos, belíssimos poemas."

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  2. É verdade. Se alguém tivesse plagiado alguém teria sido o Gullar. Mas eu nem diria isso. São obras diferentes e igualmente respeitáveis.

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    Respostas
    1. E Ferreira Gullar precisa plagiar alguém? Nasceu poeta. Não há plágio nenhum. Apenas a temática - dualidade - aparece em ambos os poemas, mas as palavras não são as mesmas.;

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