SEBRAE

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domingo, 24 de outubro de 2010

FILMES INESQUECÍVEIS XXVII

TROPA DE ELITE

Três anos atrás um filme nacional se tornou um fenômeno de popularidade em todos os Estados do país. A crítica ficou dividida. Uns elogiaram o longa do cineasta José Padilha, enquanto outros acusavam o diretor de transformar bandidos fardados em heróis, defender a violência policial e a tortura. “Tropa de Elite”, antes de chegar aos cinemas, vazou na internet e se espalhou como pólvora em fitas piratas que foram vendidas aos milhares nas grandes, médias e pequenas cidades. A estimativa é de que cerca de 11 milhões de pessoas viram a produção através de cópias compradas nos camelôs.

Apesar de toda pirataria, quando estreou nos cinemas brasileiros, no final de 2007, Tropa de Elite ainda arrastou multidões e continuou sendo visto e provocando muitas discussões envolvendo jornalistas, intelectuais, cinéfilos de carteirinha e populares em geral.

Embora não esteja no mesmo nível de Cidade de Deus, Central do Brasil, Carandiru e outros bons filmes da retomada do Cinema Brasileiro, o filme de José Padilha merece o sucesso que alcançou e temos de reconhecer que se tornou o mais popular dentre os muitos produzidos no país nesta década.

Tropa de Elite aborda a questão da violência e da corrupção policial no Rio de Janeiro. O personagem principal, o Capitão Nascimento, interpretado magistralmente pelo ator Wagner Moura, faz parte do Batalhão de Operações Policiais Especiais, o BOPE, da PM carioca.

A história se passa em 1997, quando de uma das visitas ao Brasil do papa João Paulo II. Nascimento é o comandante da tropa da polícia especial, responsável pela segurança do líder da Igreja Católica. Perto de ter o seu primeiro filho, estressado com o trabalho, revoltado com a corrupção dos seus colegas de corporação, ele pensa em largar o seu posto no BOPE, mas antes queria deixar um substituto à altura.

Em torno desse personagem e de outros, como Neto, Matias, Baiano (o grande vilão do filme), Rosane (esposa de Nascimento), Maria (jovem idealista que realiza trabalho social no morro através de um ONG), Edu e do Capitão Fábio Barbosa, um corrupto descarado, o longa conquista o espectador pela linguagem objetiva, direta e pela alta dose de realismo. É como se estivéssemos vendo a realidade da polícia do RJ e de outros exposta na tela. A maioria que assistiu, certamente chega à conclusão de que “é tudo assim mesmo”.

Uma das cenas bastante significativas do filme é quando Matias, o jovem negro com vocação para policial, discute com colegas do curso de Direito, numa Faculdade no Rio de Janeiro. Ele chegara ali com esforço, os outros são “filhinhos de papai”. A turma toda entra numa discussão condenando a violência e a tortura, praticadas pela PM. O rapaz é o único a tentar justificar as ações e a dizer que “as coisas não são bem assim como vocês pensam”. Não é levado a sério, todos estão convencidos de que a prática policial é a pior possível, com muita corrupção.

Em outro momento, é mostrada a maquiagem que a PM faz no número de homicídios. Policiais chegam a carregar cadáveres, de uma área para outra da cidade, só para apresentar números favoráveis aos seus comandantes e estes à sociedade, através da imprensa. PMs extorquindo comerciantes e sucateando veículos da corporação também são exibidos de uma maneira bastante contundente.

Toda a pilantragem da polícia e o “heroísmo” do Capitão Nascimento caíram no gosto do público. Muitos brasileiros das classes média e baixa, acredito, viram com especial gosto um filme nacional que “senta o pau na polícia”. Embora a maioria não fale, por temor, não resta dúvida de que grande parte da população tem um péssimo conceito das polícias, principalmente a Militar e a Civil. Assim, apesar de alguns terem aplaudido o comportamento truculento do personagem principal, no final das contas prevaleceu o prazer por ver os oficiais desmascarados numa história de tons realistas, contada na tela grande.

Tropa de Elite recebeu prêmios importantes no Brasil, em Portugal e na Alemanha. Em pouco tempo, se tornou cult e devido ao êxito comercial acaba de ganhar uma continuação, que neste momento está em cartaz na maioria dos cinemas do país. Neste segundo, de acordo com a crítica especializada, José Padilha acerta a mão de vez e desfaz de uma vez por todas a versão de que fez apologia do crime e da violência. Criticado por ter “padrão de Hollywood” ou pelo “verniz fascista”, o longa é na verdade um filme bem realizado, com boa direção, bons atores e um roteiro caprichado. O fato de ter conquistado o “povão” sem precisar da Imprensa ou da Crítica para isso, é a meu ver um fator positivo, pois indica que houve uma identificação dos brasileiros com a denúncia levada às telas.

Considero feliz a opinião do crítico de cinema Artur Xéxeo, do Jornal o Globo, que ao defender o cineasta brasileiro disse o seguinte: "Acreditar que José Padilha apoia as práticas do BOPE por ter feito Tropa de Elite faz tanto sentido quanto acusar Francis Ford Coppola de ligações com a Máfia por ter dirigido O Poderoso Chefão".

Mesmo daqui a muitos anos Tropa de Elite será lembrado como um marco do cinema nacional. Uma história como essa, do Capitão Nascimento e seus companheiros de farda, não se esquece com facilidade. (Na ilustração acima, cena do filme de 2007).

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