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quinta-feira, 27 de maio de 2010

A MÍDIA BRASILEIRA E OS INTERESSES DO IMPÉRIO

Ao ler os jornalões na manhã de segunda 17, dos editoriais aos textos ditos
jornalísticos, sem omitir as colunas, sobretudo as de Globo, me atrevi a perguntar aos meus botões se Lula não seria um agente, ocidental e duplo,a serviço do Irã. Limitaram-se a responder soturnamente com uma frase de Raymundo Faoro: “A elite brasileira é entreguista”.

Entendi a mensagem. A elite brasileira aceita com impávida resignação o papel reservado ao País há quase um século ,de súdito do Império. Antes,foi de outros. Súdito por séculos ,embora graúdo por causa de suas dimensões e infindas potencialidades, destacado dentro do quintal latino-americano. Mas subordinado, sempre e sempre, ás vontades do mais forte.

Para citar eventos recentíssimos, me vem a foto de Fernando Henrique Cardoso, postado dois degraus abaixo de Bill Clinton, que lhe apóia as mãos enormes sobre os ombros, em sinal de tolerante proteção e imponência inescapável. O americano sorri, condescendente. O brasileiro gargalha. O presidente que atrelou o Brasil ao mando neoliberal e o quebrou três vezes revela um misto de lisonja e encantamento servil. A alegria de ser notado. Admitido no clube dos senhores, por um escasso instante.

Não pretendo aqui celebrar o êxito da missão de Lula e Erdogan. Sei apenas que em país nenhum do mundo democrático um presidente disposto a buscar o caminho da paz não contaria, ao menos, com o respeito da mídia. Aqui não.E m perfeita sintonia, o jornalismo pátrio enxerga no presidente da República, um ex-metalúrgico que ousou demais, o surfista do exibicionismo, o devoto da autopromoção a beirar o ridículo. Falamos, porém, é o chefe do Estado e do governo do Brasil.D o nosso país.e a esperança da mídia é que se enrede em equívocos e desatinos.

Não há entidade, instituição, setor,capaz de representar de forma mais eficaz a elite brasileira do que a nossa mídia. Desta nata,creme do creme, ela é,d e resto, o rosto explícito. E a elite brasileira fica a cada dia mais anacrônica, como a Igreja do papa Ratzinger. Recusa-se a entender que o tempo passa,ou melhor,galopa. Tudo muda,ainda que nem sempre,galopa. No entanto,o partido da mídia nativa insiste nos vezos de antanho,e se arma,compacto,diante daquilo que considera risco comum. Agora,contra a continuidade de Lula por meio de Dilma.

Imaginemos o que teriam estampado ao jornalões se na manhã da segunda 17, em lugar de Lula, o presidente FHC tivesse passado por Teerã? Ele, ou, se quiserem, uma neoudenista qualquer? Verifiquem os leitores as reações midiátricas à fala de Marta Suplicy a respeito de Fernando Gabeira, um dos seqüestradores do embaixador dos Estados Unidos em 1969. Disse a ex-prefeita de São Paulo: por que só falam da “ex-guerrilheira”Dilma,e não dele o sequestrador?.

A pergunta é cabível, conquanto Gabeira tenha se bandeado para o outro lado enquanto Dilma está longe de se envergonhar do seu passado de resistência à ditadura, disposta a aderir a luta armada da qual, de fato, nunca participou ao vivo. Quanto a Gabeira, Marta não teria lhe atribuído o papel exato que de fato desempenhou, mas no seqüestro esteve tão envolvido a ponto de alugar o aparatamento onde o seqüestrado ficaria aprisionado. E com os demais implicados foi desterrado pela ditadura.

Por que não catalogá-lo, como se faz com Dilma? Ocorre que o candidato ao governo do Rio de Janeiro perpetrou outra adesão. Ficou na oposição a Lula, primeiro alvo antes de sua candidata. Cabe outro pensamento: em qual país do mundo democrático a mídia se afinaria em torno de uma posição única ao atirar contra um único alvo? Só no Brasil, onde os profissionais do jornalismo chamam os patrões de colegas.

Até que ponto o fenômeno atual repete outros tantos passado, ou, quem sabe, acrecenta uma pedra à construção do monumento? A verificar no decorrer do período. Vale, contudo, anotar o comportamento dos jornalões em relação ás pesquisas eleitorais. Os números do Vox populi e da Sensus, a exibirem, na melhor das hipóteses para os neoudenistas, um empate técnico entre candidatos, somem das manchetes para ganhar algum recanto das páginas internas.

Recôndito espaço. Ao mesmo tempo Lula, pela enésima vez, é condenado sem apelação ao praticar uma política exterior independente em relação aos interesses do Império. Recomenda-se cuidado: apelação vitoriosa ameaça vir das urnas." (Editorial Publicado na Revista Carta Capital).

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"O maior castigo para aqueles que não se interessam por política, é que serão governados pelos que se interessam."

(Arnold Toynbee)

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