SEBRAE

SEBRAE
SEBRAE

ALEPE

ALEPE
ALEPE

sábado, 17 de abril de 2010

FILMES INESQUECÍVEIS II


O GRANDE DITADOR

Estávamos na década de 70, vivendo a abertura lenta e gradual do governo do general Geisel. O Cine Art Palácio, no centro do Recife, que aos sábados exibia uma sessão de arte, estava completamente lotado. Em exibição o filme “O Grande Ditador”, de Charles Chaplin, o genial Carlitos. O longa do cineasta inglês, produzido nos Estados Unidos, estivera proibido no Brasil à época do regime militar. Ora, um trabalho cinematográfico que bate duro na figura de um déspota não podia ser aceito pelo regime de Castelo, Costa e Silva e principalmente Garrastazu Médici. Com o prenúncio da abertura, foi possível ver a grande obra de Chaplin no Brasil e Recife, uma cidade sempre politizada, não poderia ficar de fora.
A sátira de Charles Chaplin a Adolf Hitler foi feita em 1940, quando os alemães estavam apenas começando sua caminhada de dominação, intimidação, perseguição, matança e toda sorte de atrocidades. Só em 1945, quando terminou a grande guerra, com a descoberta pelo mundo dos horrores praticados nos campos de extermínio, é que se teve a dimensão completa da tragédia. O cineasta britânico, contudo, parecia já prever tudo naquele filme em preto em branco, que conta a história de um soldado trapalhão participante da I Guerra Mundial. Quando vem a II Grande Guerra, o personagem, um sósia de Hitler, é usado para substituir o ditador e termina se revelando um pacifista, um humanista, alguém preocupado com a paz e a felicidade entre os povos. Exatamente o contrário do alucinado comandante europeu.
O filme, como outros do diretor e comediante, tem momentos de humor, tem drama, choro e uma forte carga política. Não no sentido partidário ou panfletário, porque Charles era sobretudo um humanista, um gênio, e naturalmente estava acima de discussões passageiras. A história termina com um discurso emocionante de Carlitos pregando a paz e repudiando todas as práticas de Hitler. O pronunciamento é poético, é lindo e por isso tem sido reproduzido ao longo dos anos em molduras, brochuras, quadros, cadernos, enfim qualquer veículo prático a sua divulgação.
Passados tantos anos, ainda lembro do clímax no velho cinema do Recife. Os estudantes, a classe média, a população em geral estavam com a ditadura militar atravessada na garganta, doidos para se livrar dela, ansiando por liberdade. “O Grande Ditador”, então, veio como um grito contra o regime militar. Chaplin, no seu discurso, era como se estivesse falando aos brasileiros. Quando terminou, música e fotografias em preto e branco belíssimas na tela, o público da capital não resistiu, ficou todo mundo em pé e aplaudiu demoradamente o herói como se ele estivesse presente, ao vivo, dirigindo sua mensagem não contra um ditador do passado e sim os ditadores daquele momento no Brasil, na Argentina, no Uruguai, no Chile ou em qualquer outro país da América Latina e do mundo. Reproduzimos, abaixo, apenas dois parágrafos, já no final, do discurso do personagem vivido por Charles Chaplin:

O ÚLTIMO DISCURSO

Soldados! Não batalheis pela escravidão! lutai pela liberdade!
No décimo sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem - não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens todos! Estás em vós!
Vós, o povo, tendes o poder - o poder de criar máquinas.
O poder de criar felicidade!
Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela ...
de fazê-la uma aventura maravilhosa.
Portanto - em nome da democracia - usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo ...
um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho,
que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós.
Soldados, em nome da democracia, unamo-nos.

Um comentário:

  1. Caro Roberto Almeida,

    Seu excelente Blog virou leitura diária para nós que fazemos a CIT. E esta série de filmes inesquecíveis é o máximo. Falo isto com uma ponta de inveja (e de admiração) por não termos tido a ideia de fazê-la. Já falamos muito sobre filmes, alguns clássicos, como Quo Vadis, outros não tanto, como aquele do homem do raio que já nem me lembro o nome. Mas sua série até agora, seria a que escreveríamos. Meus sinceros parabéns.

    Lucinha Peixoto (Blog da CIT)

    ResponderExcluir