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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

UMA ORAÇÃO PELO HAITI

Tivemos há dias uma discussão sobre Deus. Escrevemos também a respeito do Haiti. É impossível pensar no sofrimento daquele povo e não ter uma atitude de reflexão: Exclamar meu Deus, faz alguma coisa por essa gente! Ou então questionar: Onde está Deus, que deixa uma coisa dessas acontecer?
Hoje o jornalista pernambucano Ricardo Noblat publicou em seu blog - um dos mais acessados do país - um texto de frei Leonardo Boff (foto), um dos ideólogos da "Teologia da Libertação" da Igreja Católica, hoje afastado da Santa Madre, mas não de Deus. Ele chora, lamenta, reza e pede pelo pequeno país da América Central. Segue abaixo o texto do intelectual católico, intitulado "Lamento junto a Deus pelo Haiti":
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"Há uma via-sacra de sofrimento com estações que nunca acabam no pequeno e pobre pais do Haiti. Sofrimento no corpo, na alma, no coração, na mente assaltada por fantasmas de pânico e de morte.
Há também muito sofrimento em todos os humanos que não perderam o senso mínimo de humanidade e de solidariedade. Desta com-paixão universal nasce uma misteriosa comunidade que anula as diferenças, as religiões, as ideologias que antes nos separavam e até nos dividam.
Agora só conta a comum humanitas absurdamente maltratada e que deve ser socorrida.
Em cada haitiano que sofre soterrado ou que morre de sede e de fome, morremos um pouco também todos nós junto com eles. Finalmente somos irmãos e irmãs da única e mesma família humana. Como não sofrer?
Mas há também um sofrimento profundo e dilacerante nas pessoas de fé que proclamam que Deus é Pai e Mãe de bondade e de amor.
Como continuar a crer? Queixosos nos perguntamos: "Deus, onde estavas quando se formou aquele tremor raso que dizimou os teus filhos e filhas mais pobres e sofridos de todo o extremo Ocidente? Por que não intervieste? Não és o Criador da Terra com seus continentes e suas placas tectônicas? Não és Pai e Mãe de ternura, especialmente, daqueles que são como teu Filho Jesus os injustamente crucificados da história? Por que"?
Este silêncio de Deus é aterrador porque ele simplesmente não tem resposta. Por mais que gênios como Jó, Buda, Santo Agostinho, Tomás de Aquino, Leibniz e outros tivessem arquitetado argumentos para isentar Deus e esclarecer a dor, nem por isso a dor desaparece e a tragédia deixa de existir.
A compreensão da dor não suspende a dor, assim como ouvir receitas culinárias não faz matar a fome.
O próprio Jesus não foi poupado da angústia do sofrimento. Do alto da cruz lançou um brado lancinante ao céu, queixando-se:"Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste"?
Damos razão a Jó, irritado com seus "amigos" que lhe queriam explicar o sentido de sua dor:"Vós não sois senão charlatães, não sois senão médicos de mentira; se ao menos vos calásseis, os homens tomar-vos-iam por sábios". Mas não podemos calar.
A dor é demasiada e a noite, tenebrosa. Precisamos de alguma luz.
Mesmo sem luz, continuamos a crer com o coração partido, porque estamos convencidos de que o caos e a tragédia não podem ter a última palavra. Deus é tão poderoso que pode tirar um bem do mal. Apenas não sabemos como.
Esperançosos, fazemos uma aposta nesta possibilidade que não deixa nossas lágrima serem vãs. Ademais, cremos que Deus pode ser aquilo que nós não compreendemos. Acima da razão que quer explicações, há o mistério que pede silêncio e reverência.
Ele esconde o sentido secreto de todos os eventos também daqueles trágicos.
Identifico-me com o poema de um grande argentino que perdeu um filho na repressão militar: Juan Gelman:
"Pai, desce do céus, esqueci as orações que me ensinou minha avó, pobrezinha, ela agora repousa, não tem mais que lavar, limpar, não tem mais que preocupar-se, andando o dia todo atrás da roupa, não tem mais que velar de noite, penosamente, rezar, pedir-te coisas, resmungando docemente".
"Pai, desce dos céus, se estás, desce, então, pois morro de fome nesta esquina, não sei para que serve haver nascido, olho as mãos inchadas, não tem trabalho, não tem, desce um pouco, contempla isto que sou, este sapato roto, esta angústia, este estômago vazio, esta cidade sem pão para meus dentes, a febre, cavando-me a carne, este dormir assim, sob a chuva, castigado pelo frio, perseguido".
"Te digo que não entendo, Pai, desce, toca-me a alma, toca-me o coração, eu não roubei, nem assassinei, fui criança e em troca me golpeiam e golpeiam, te digo que não entendo, Pai, desce, se estás, pois busco resignação em mim e não tenho e vou encher-me de raiva e estou disposto a brigar e vou gritar até estourar o pescoço de sangue, porque não posso mais, tenho rins, e sou um homem, desce".
"Que fizeram de tua criatura, Pai? Um animal furioso que mastiga a pedra da rua? Pai, desce".
Que o Pai desça sobre os haitianos com seu amor.

2 comentários:

  1. O Haiti faz parte da grande saga humana sobre a terra. Um terremoto é evento natural que pode ocorrer milhares de vezes. Todos sofremos com o sofrimento que ele causou ao seu povo. Durante nossa história descobrimos que a solidariedade nas tragédias pode preservar mais nossa vida neste planeta do que a indiferença a elas. Numa situação como esta até os religiosos culpam Deus. Jesus culpou Deus, por abandoná-lo e hoje os religiosos o culpam pela sua ausência no Haiti. Deus não tem culpa nenhuma nisto, por um simples fato, ele não existe. Dizer que Deus é aquilo que não compreendemos, como o faz o Leonardo Boff, não tira a angústia de ninguém e nem explica nada.
    Aquilo que não compreendemos não é Deus coisa nenhuma. Se ele existisse seria aquilo que compreendemos. E o que compreendemos é que só existe uma realidade, a vida dentro de universo caótico e que só deixará de sê-lo, não quando Deus quiser, mas quando deixarmos esta idéia estapafúrdia de um Deus que para nada serve, e olharmos para dentro de nós mesmo e para a raça humana, e descobrirmos que somos capazes de compreendermos por nós mesmos. O tempo universal é lento mas a evolução natural é o nosso guia.
    Hoje já nos mantemos vivos com antibióticos, já podemos ajudar o Haiti em poucas horas, quando há pouco tempo espécies inteiras eram exterminadas. Daqui a pouco, se não nos destruirmos em guerras para ver qual o melhor Deus, poderemos até prever os terremotos. Sim, nós podemos caminhar sem Deus. Não esperemos que ele desça para acreditar nisto. O que não existe nunca desce. Nem sobe.

    Cleómenes Oliveira (http://www.citltda.com)

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  2. A pouca ciência afasta o homem de Deus, mas a muita ciência uni o homem a Deus.
    Quem sabe um dia verás DEUS.

    Marta

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