OURO DE TOLO FOI UMA REVOLUÇÃO NA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA


Ouro de tolo é uma expressão usada para descrever algo que tem aparência de riqueza, valor ou importância, mas que na verdade é falso, ilusório ou sem valor real.

Essa expressão foi usada na música que tornou Raul Santos Seixas, natural de Salvador, conhecido em todo o Brasil.

Antes do lançamento de "Ouro de Tolo", em 1973, Raul já tinha lançado dois discos, um deles com o grupo Os Panteras, do qual fazia parte.

Mas os dois álbuns foram um fracasso.

Raul Seixas chegou a voltar para a Bahia, depois do fiasco dos dois primeiros discos.

Mas alguns artistas da Jovem Guarda, como Jerry Adriani e Leno (da dupla Leno e Lilian), deram muita força ao cantor baiano.

Este retornou ao Rio de Janeiro e conseguiu um cargo de executivo na sucursal brasileira da CBS, a poderosa gravadora americana.

Usando seu nome o pseudônimo de Raulzito, o artista compôs músicas bregas para cantores como Jerry Adriani, Balthazar, Odair José e Diana.

"Ainda Queima a Esperança", um dos grandes sucessos de Diana é uma composição de Raul.

Mas o Raulzito queria mais, pretendia ser cantor, embora consciente de que não tinha grandes recursos vocais.

E ele conseguiu, a partir do sucesso retumbante de "Ouro de Tolo" a música mais tocada no Brasil em 1973, superando até as canções de Roberto Carlos, que era chamado de rei.

Raul se firmou a partir de 1974, quando já tendo como parceiro Paulo Coelho compôs algumas músicas que se tornaram clássicas no cancioneiro popular do Brasil.

Difícil achar uma pessoa que nunca tenha ouvido Trem das Sete, Medo da Chuva, Metamorfose Ambulante, S.O.S e Tente Outra Vez

"Ouro de Tolo" é uma música bem original, inteligente, que agradou não só ao grande público, como a gênios da MPB, caso de Caetano Veloso, que inclusive também gravou a canção.

E o que é a música "Ouro de Tolo"?

Uma crítica à classe média, à pequena burguesia, aos valores estabelecidos.

A pessoas medíocres que se contentam com empreguinhos, status, bens de consumo ou o carro do ano.

"Eu devia estar contente porque eu tenho um emprego, sou um dito cidadão respeitável e ganho quatro mil cruzeiros por mês".

Ter um emprego e ganhar quatro mil por mês, um puto salário, na época, era o máximo. Mas Raul deixa claro que não estava satisfeito com isso.

Nem por ter conseguido comprar um Corcel 73 (um bom carro classe média, na primeira metade da década de 70).

A música é autobiográfica. Raul Seixas passou por dificuldades no Rio de Janeiro.

Mesmo tendo passado fome "na cidade maravilhosa", agora bem estabelecido, morando em Ipanema (bairro chique), o artista ainda não estava realizado.

"Eu devia estar sorrindo e orgulhoso, por ter finalmente vencido na vida, mas eu acho isso uma grande piada e um tanto quanto perigosa", dispara o compositor.

E completa: "Eu devia estar contente por ter conseguido tudo o que eu quis, mas confesso abestalhado que eu estou decepcionado".

Raul abusa da ironia em "Ouro de Tolo".

A música tem um verso que é um grande achado:

"Eu devia estar feliz pelo Senhor ter me concedido o domingo pra ir com a família no jardim zoológico dar pipoca aos macacos".

E aí vem o reconhecimento que incomoda, por não se enquadrar, como os demais:  "Ah! Mas que sujeito chato sou eu que não acha nada engraçado, macaco, praia, carro, jornal, tobogã, eu acho tudo isso um saco".

A letra quilométrica segue nessa pisada e Raul fecha a canção com um toque místico, falando em discos voadores e na finitude da vida.

No futuro, ele faria uma canção inteira dedicada à morte.

"Ouro de Tolo", porém, sem parceria com Paulo Coelho ou outro compositor, é a sua obra prima, ou pelo menos seu cartão de visitas, que abriu as portas para que fosse possível fazer outras grandes canções.

"Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais,  no cume calmo do meu olho que vê,  assenta a sombra sonora de um disco voador".

Ouro de Tolo é uma canção popular, mas que traz uma reflexão profunda sobre o Brasil do início dos anos 70, com preocupações que a turma da Jovem Guarda não teve. Sem o elitismo da Bossa Nova ou o intelectualismo dos tropicalistas.

A música do baiano tem 53 anos, mas permanece atual como crítica ao consumismo. Se alguém quiser revisar ou atualizar os versos, talvez baste substituir jornais por redes sociais.

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